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Edição 2059

7 de maio de 2008
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Cinema
Os males do amor

A diretora estreante Sarah Polley examina o que acontece
com um casamento quando a doença se intromete nele


Isabela Boscov

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Trailer do filme
Sarah Polley, a jovem e talentosa atriz canadense que causou forte impressão em O Doce Amanhã, de 1997, mostra-se mais do que competente também em sua estréia como roteirista e diretora. Em Longe Dela (Away from Her, Canadá, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país e é adaptado de um conto da escritora Alice Munro, um casal dos seus 60 anos enfrenta uma situação crivada de perplexidade: Fiona guarda a frigideira no congelador, não se lembra da palavra "vinho" embora esteja com uma garrafa na mão, sai para esquiar e termina no meio do tráfego. Tanto Fiona quanto Grant, seu marido, são pessoas informadas, e não resta dúvida de que ela está manifestando os sintomas de um caso precoce da doença de Alzheimer. Em breve, Fiona irá "desaparecer", como ela mesma define. Instala-se entre o casal, então, um jogo de polidez e consideração. Ela quer ser internada, para poupá-lo e poupar-se de testemunhar sua decrepitude iminente. Ele reluta, porque lhe parece que o abandono é precipitado.

É nessa transição de um casamento estável para uma separação obrigatória que Sarah Polley mostra a inteligência de seu trabalho. Filmes sobre doentes, mesmo os mais habilidosos e inspirados, dificilmente escapam da armadilha de fazer da doença seu verdadeiro protagonista: não fosse por ela, ninguém teria se ocupado daqueles personagens em particular. Em Longe Dela, ao contrário, o que domina o cenário são os sentimentos conflituosos despertados por essa derrocada conjugal (e, surpresa, mais os sentimentos dele que os dela). À medida que a memória de Fiona some, ela vai se transformando em uma mera idéia para Grant – uma idéia que tem de ser reformulada conforme o progresso da demência, que inclui o total esquecimento do marido e a paixão obsessiva por um outro doente do sanatório. Não se está aqui, portanto, no território do melodrama hospitalar, e sim na paisagem da incomunicabilidade entre homens e mulheres, como a desenhada pelo sueco Ingmar Bergman. Não parece acaso, assim, que o canadense Gordon Pinsent, que interpreta Grant, tenha tanta semelhança física – e de estilo dramático – com Erland Josephson, o ator preferido de Bergman na fase conjugal de sua obra. Ou que a inglesa Julie Christie, que faz Fiona, compartilhe com atrizes como Liv Ullmann e Bibi Andersson a interpretação e os traços límpidos, tão sem adornos quanto a própria direção de Sarah Polley.

A diretora descobriu o conto de Alice Munro em 2003, pouco antes de se casar, e diz ter se sentido fustigada pela maneira como ele retrata o que acontece com o amor depois da paixão, quando os amantes são deixados um com o outro e a vida começa a se intrometer entre eles. Trata-se de um tema que o cinema, em especial o americano, detesta examinar – e, quando o faz, geralmente é com um bocado de idealização e desejo de fuga. Aqui, nem a escritora nem a diretora sofrem desse tipo de inibição, como fica bem demonstrado com o surgimento da personagem vivida por Olympia Dukakis – uma mulher largada à deriva por um marido também com Alzheimer, mas que, com o pragmatismo de quem já se cansou da situação, não quer morrer para a vida antes da hora. Por si só, a lucidez de Longe Dela já seria surpreendente. Que ela venha de uma cineasta estreante, que tinha 27 anos à época da filmagem, é notável.



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