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Edição 2059

7 de maio de 2008
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Antropologia
Como nossa espécie
quase desapareceu

Há 100 000 anos o Homo sapiens esteve ameaçado de
extinção. Estudo mostra como vivíamos nesse período


Vanessa Vieira e Roberta de Abreu Lima

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Quadro: De animal quase extinto a rei do planeta

Num mundo com mais de 6 bilhões de habitantes, em que se conquistaram padrões de bem-estar inéditos na história, fica difícil imaginar que o ser humano já esteve à beira da extinção. Aconteceu há cerca de 100 000 anos, quando a população de Homo sapiens se reduziu drasticamente, caindo de 30 000 pessoas para apenas 2 000. Todas viviam na África, berço de nossa espécie. A redução da população se deu durante uma longa seca que se abateu sobre a África entre 135 000 e 90 000 anos atrás, transformando lagos e florestas em desertos e dizimando populações de caçadores-coletores pela fome. Caso esses 2 000 ancestrais do homem moderno não tivessem resistido às condições de penúria em que viviam, a humanidade teria sido riscada do mapa. Evidentemente, eles resistiram. Migraram da África para outros continentes e, através de diferentes mutações genéticas, se ramificaram nas etnias que povoaram o mundo. A gênese da espécie humana localizada na África e sua migração para outros continentes são hoje teses amplamente aceitas pela paleoantropologia. Pouco se sabe ainda, no entanto, sobre a vida de nossos ancestrais no período em que eles permaneceram na África. A ameaça de extinção pela grande seca é um dos episódios revelados recentemente por várias pesquisas. Outros aspectos da vida do Homo sapiens antes da diáspora vieram à tona num estudo publicado na semana passada no American Journal of Human Genetics e conduzido pela National Geographic Society.

A pesquisa mostra que durante 100 000 anos – ou seja, metade de sua existência – o Homo sapiens viveu em pequenos grupos espalhados pela África, lutando contra as condições climáticas adversas. Esses grupos vagavam pelo território africano em busca de água e comida, cada vez mais escassas, até que a humanidade foi reduzida a 2 000 pessoas. Só após a grande seca amainar a população começou a aumentar. Nessa época, havia 42 ramificações genéticas de Homo sapiens na África, das quais duas migraram para outros continentes e deram origem a todos os outros povos. Apenas 30 000 anos depois os povos que ficaram em território africano passaram a estabelecer contato entre si. "Diante das evidências históricas que sugerem condições climáticas difíceis, supomos que foi a busca por melhores locais para sobreviver que motivou as migrações do Homo sapiens", disse a VEJA Doron Behar, médico especialista em genética de populações do Rambam Medical Center, de Israel, coordenador do estudo da National Geographic.


Rieger Bertrand/AFP
Caverna de Lascaux, na França: registro do nascimento da arte

Para chegar a essas conclusões, a pesquisa da National Geographic examinou amostras do DNA mitocondrial de 624 habitantes da África, em especial dos povos khoi e san, chamados de bosquímanos, que vivem no sul do continente. Em grande parte, esses povos são ainda caçadores/coletores – vivem como na era anterior à do surgimento da agricultura. Os antropólogos consideram que eles sejam remanescentes de uma primeira divisão do Homo sapiens, ocorrida logo depois que a espécie se formou. O DNA mitocondrial tem se revelado um extraordinário instrumento para o estudo da evolução humana. Ele é transmitido apenas pelas mulheres. Sua análise permite traçar uma árvore genealógica dos antepassados do sexo feminino até chegar ao primeiro ancestral em comum de diferentes grupos. O DNA mitocondrial também permite saber quando dois povos de mesma origem se separaram, bastando para isso verificar a presença de alterações na seqüência de letras que compõem o código genético. Como as mutações ocorrem em média a cada 5 000 anos, os cientistas conseguem calcular por quanto tempo dois povos de origem comum se mantiveram isolados avaliando o número de mutações em seu DNA mitocondrial. É com esse tipo de análise que os pesquisadores podem estimar quando europeus, americanos e asiáticos se separaram geneticamente de seus antepassados africanos. "É como se fizéssemos uma viagem no tempo em que a máquina que nos transporta é a análise do DNA", diz o geneticista mineiro Sérgio Pena, especialista em genética de populações.

Cerca de 5 000 anos depois de alcançar a Europa, o Homo sapiens iniciaria uma nova e notável etapa em sua trajetória. Começou, então, a última era do gelo, na qual ele protagonizou uma revolução criativa e desenvolveu os conceitos de família, religião e convivência social. Mais uma vez a humanidade sofreu com os rigores do clima e com a escassez de comida, mas a adaptação às dificuldades resultou num salto à frente. O europeu primitivo, também chamado de homem de Cro-Magnon, passou a enterrar seus mortos com rituais e com objetos que usavam em vida. Pela primeira vez essas sociedades sentiram a necessidade de estabelecer regras – era preciso definir quem pertencia à família e com quem se compartilhavam os alimentos, quais objetos eram de uso coletivo e quais eram privados. Uma das evidências mais espetaculares da evolução do homem de Cro-Magnon sobre seus ancestrais é a invenção da arte. Pode-se apreciar o nascimento da pintura nos inúmeros desenhos feitos em cavernas. Os mais célebres estão em Lascaux, no sul da França, que abriga mais de 600 imagens de cavalos, bisões e outros animais. Ao fim da era do gelo, há cerca de 11 000 anos, o Homo sapiens estava pronto para a grande aventura da civilização. Estudos como o divulgado na semana passada ajudam a reconstituir seus passos desde as origens, nas áridas terras africanas.

 


Fotos Andreas Kuehn, Patricia de La Rosa, Hugh Sitton/Getty Images


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