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Edição 2059

7 de maio de 2008
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Vida brasileira
A aldeia urbana

Manaus já tem tantos índios quanto
as maiores reservas do país


Leonardo Coutinho

Alberto Cesar Araújo
Tribo cocama: 300 pessoas dessa etnia querem converter parte da Zona Franca de Manaus em reserva indígena

A capital do Amazonas deve seu nome à tribo dos manaos, que resistiu à ocupação portuguesa no século XVIII, mas historicamente abrigou poucos índios. No início dos anos 90, menos de 1 000 deles moravam dentro de seus limites. Desde então, contudo, a população indígena vem crescendo aceleradamente. Aldeias inteiras se instalaram em seus bairros. Um recenseamento realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostra que, hoje, 12 500 índios vivem na capital. Por essa contagem, a população indígena de Manaus só é menor do que a de quatro das reservas do país. E esse número pode estar subestimado. O administrador da Fundação Nacional do Índio (Funai) no Amazonas, Edgard Fernandes, alerta para o fato de que o recenseamento desconsiderou que muitos índios não se declaram como tal, embora se comuniquem em língua nativa e sigam os costumes de seus ancestrais. Fernandes calcula que, se esses também forem contados, a população indígena de Manaus pode chegar a 25.000 pessoas. Caso essa estimativa seja verdadeira, Manaus terá se convertido na maior aldeia do país em menos de duas décadas.

Em um dos bairros da Zona Norte da capital, chamado Cidade de Deus, o português divide espaço com o ticuna, idioma da etnia de mesmo nome. Em Santos Dumont, na Zona Oeste, ouve-se a língua dos saterés-maués. Muitos índios já se integraram à vida na cidade e arranjaram emprego. Alguns estão na faculdade. Há até casos de sucesso empresarial, como o de Roque Parintintim, que tira 8 000 reais por mês de seu restaurante. A maioria, porém, vive na miséria e às vésperas de um conflito com as autoridades. Em março, dezenove deles foram presos por atirar flechas e pedras nos policiais que os impediam de construir ocas em um terreno privado. As invasões são tantas que a prefeitura cogita criar um bairro só para indígenas. Seria uma espécie de taba com saneamento, escolas e postos de saúde. O processo de urbanização dessas tribos mostra que uma parte significativa dos índios quer ter acesso aos confortos da vida dos brancos. A política da Funai, que pretende mantê-los isolados, contraria as ambições desses povos. Por isso, é ineficaz. "Eles querem emprego e melhores condições de vida e saúde. Então, vão continuar migrando", diz Evelyne Mainbourg, que coordenou o estudo da Fiocruz.

 
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