O ex-presidente do IBGE
diz que a universidade integralmente financiada por dinheiro
público acaba acomodada
Marcelo Bortoloti
Oscar Cabral
"No Brasil,
a pesquisa acadêmica não se transforma em produtos
ou serviços úteis à sociedade"
O
sociólogo Simon Schwartzman, 68 anos, ex-presidente do
IBGE, é dono de uma vasta produção acadêmica,
na qual o tema da educação ocupa lugar de destaque.
Seu mais recente trabalho é uma análise comparativa
de dezesseis centros de pesquisa universitários do Brasil,
da Argentina, do México e do Chile, com foco na aplicação
efetiva da produção científica ali desenvolvida.
Nele são esquadrinhadas experiências em geral positivas:
centros de excelência integrados ao mercado e afinados
com as necessidades de cada país. Uma realidade bem distante
da que se constata na maior parte das universidades brasileiras.
Nesta entrevista, concedida em sua sala no Instituto de Estudos
do Trabalho e Sociedade (Iets), Schwartzman defende a maior
integração entre universidade e empresas e a valorização
dos centros de excelência. Ele também faz um alerta.
O Brasil está ficando cada dia mais distante dos países
desenvolvidos no que se refere a investimento em pesquisa. "Estamos
perdendo o bonde."
Veja As
pesquisas feitas nas universidades brasileiras contribuem para
o desenvolvimento do país? Schwartzman Não
como deveriam. Em geral, elas ficam restritas ao âmbito
acadêmico e não se transformam em produtos ou serviços
úteis à sociedade. Não há transferência
de conhecimento, nem mesmo quando se trata de uma pesquisa aplicada.
Veja Por
que isso acontece? Schwartzman Há vários fatores envolvidos. Um deles é
que a universidade pública, onde se realiza boa parte
da pesquisa acadêmica no país, não é
estimulada a atender às demandas da sociedade e do setor
empresarial, porque é integralmente financiada pelo dinheiro
do governo. A experiência mostra que uma instituição
só se volta para fora quando precisa buscar recursos.
Uma universidade integralmente financiada pelo dinheiro público
tem uma tendência à acomodação. Não
precisa buscar parceiros e aliados externos. Ao mesmo tempo,
a indústria brasileira, tradicionalmente, não
tem demanda por tecnologia. Você não pode dizer
que a responsabilidade é apenas das universidades se
do outro lado não há procura.
Veja O
melhor caminho é necessariamente a associação
entre universidade e empresa? Schwartzman Na maioria das vezes, sim. Mesmo pesquisas importantes para
a sociedade não são devidamente aproveitadas fora
da academia quando não existe parceria com empresas.
O pesquisador pode criar uma cura para determinada doença,
mas transformar isso em um produto farmacêutico requer
um investimento enorme e muitos anos de trabalho na etapa de
desenvolvimento. Só o custo para registrar uma patente
pode chegar a centenas de milhares de dólares. Não
basta inscrevê-la num único escritório,
a patente tem de ser registrada na Ásia, nos Estados
Unidos e na Europa, que são os principais mercados. Isso
muitas vezes só é possível com a ajuda
de um parceiro privado.
Veja Qual
a responsabilidade dos órgãos oficiais de financiamento
à pesquisa nessa situação? Schwartzman O
sistema de avaliação dos centros de pesquisa e
pós-graduação utilizado pela Capes tem
mais de trinta anos. E foi muito importante para o Brasil. Graças
a ele, o país tem hoje uma pós-graduação
que é de longe a melhor da América Latina. Mas
já está ultrapassado. Ele dá muita ênfase
aos trabalhos acadêmicos e desestimula qualquer iniciativa
prática. Os critérios de qualidade levam em conta
o número de artigos publicados, o número de doutores
formados e a participação em congressos internacionais.
A aplicação da pesquisa não é valorizada.
Com isso, os pesquisadores só querem publicar artigos
em revistas internacionais e, assim, contar pontos
para seu departamento. Depois de o artigo ter sido publicado,
eles não se interessam em procurar uma empresa para desenvolver
o produto. Consideram mais vantajoso à carreira iniciar
outra pesquisa, para publicar um novo artigo.
Veja O
que o Brasil perde com isso? Schwartzman Há
dois tipos de perda. O setor privado perde uma excelente oportunidade
de evoluir tecnologicamente. E o governo também perde,
pois não usa o saber acadêmico para auxiliá-lo
na formulação de políticas públicas.
Há uma série de demandas por pesquisa em diversas
áreas. Em saúde, por exemplo, para controlar a
dengue. Na formulação de políticas de segurança,
na administração de complexos urbanos. São
linhas de estudo que o governo deveria estimular e usar.
O Brasil precisa do melhor conhecimento para lidar com suas
questões econômicas e sociais, e não pode
abrir mão dos centros de excelência das universidades.
Veja só a área da educação, em que
o país vive uma tragédia. Temos um sistema educacional
que não ensina. As crianças entram na escola e
saem semi-analfabetas com 13 ou 14 anos de idade. Faltam estudos
para entender o que está acontecendo, quais as saídas,
o que funciona e o que não funciona. A área do
meio ambiente é pior ainda. Eu nunca vi um estudo sério
e competente sobre a transposição do Rio São
Francisco.
Veja Como
mudar esse quadro? Schwartzman Por
um lado, o governo precisa ser melhor usuário de pesquisas.
Embora ele tenha institutos próprios, como o Instituto
Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), a Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), há
sempre um risco quando o pesquisador recebe seu salário
diretamente do ministério. E se o ministro não
gostar da pesquisa? Outro papel do governo é estimular
as empresas privadas a investir em inovação. Ele
tem de compartilhar o risco desse investimento. No que diz respeito
à universidade, há duas maneiras de pensar uma
mudança: de cima para baixo e de baixo para cima. No
primeiro sentido seria criando normas para regular o funcionamento
das instituições. Isso já foi tentado no
Brasil com a criação da Lei de Inovação,
que facilita a ligação da universidade com a indústria.
Mas nunca funcionou muito bem. Acho que o melhor caminho é
de baixo para cima. Ou seja, dando mais autonomia às
universidades e estimulando para que elas não fiquem
restritas ao meio acadêmico.
Veja De
que forma é possível fazer isso? Schwartzman As
universidades públicas seguem a lógica do serviço
público. Não têm flexibilidade para pagar
melhor determinado pesquisador nem para tratar de forma diferenciada
um departamento que tem potencial para produzir mais. Elas precisam
poder ser mais flexíveis na sua administração.
Esse é um ponto. De outro lado, as instituições
têm de ser motivadas a buscar parceria com as empresas.
Precisam ganhar alguma coisa com isso, mas também têm
de perder se não o fizerem. Vou dar uma sugestão.
Se cada departamento da universidade recebesse apenas 50% do
seu orçamento e tivesse de levantar os outros 50%, já
seria um grande estímulo. Poderia ser estipulado que
o pesquisador receberá seu salário em dobro se
o departamento conseguir mais dinheiro, mas receberá
a metade se não conseguir nada. Isso os tiraria da inércia.
Quando eu estudava na Universidade da Califórnia, em
Berkeley, nos Estados Unidos, fecharam o departamento de biologia
porque estava obsoleto. E é uma universidade pública.
O departamento era antigo, tinha pesquisadores experientes e
famosos, mas considerados ultrapassados. Depois de fechá-lo,
a universidade foi ao mercado buscar uma nova geração
de pesquisadores para substituir a antiga. E por que fizeram
isso? Porque sabiam que se tivessem um departamento forte e
atualizado conseguiriam dinheiro com mais facilidade junto ao
governo e às empresas privadas.
Veja Que
critérios uma universidade brasileira segue para definir
suas linhas de pesquisa? Schwartzman As
decisões são individuais. A lógica é
a que está na cabeça de cada pesquisador. Isso
pode ser bom para a carreira dele, mas não é interessante
para o país porque não há uma linha coerente.
O pesquisador morre de medo de alguém dizer a ele o que
deve pesquisar. E às vezes tem boas razões para
isso. Concordo que o governo não pode definir o que deve
ser pesquisado no país. Mas acho que cada instituição
tem de eleger prioridades estratégicas, voltadas para
as demandas da sociedade. Não tem sentido, por exemplo,
o Brasil fortalecer sua pesquisa em física de partículas.
Tivemos aqui pesquisadores importantes na década de 40,
como Mario Schenberg e Cesar Lattes, que fizeram pesquisa de
fronteira e publicaram artigos preciosos. Mas acabou aí.
Depois disso ninguém fez mais nada. A física de
partículas é hoje uma área bilionária.
Depende de investimentos que nenhum país faz sozinho.
O Brasil vai participar desse jogo para quê? E vai botar
quanto dinheiro nisso?
Veja O
governo distribui corretamente seus investimentos em pesquisa? Schwartzman Esse
é outro problema. O governo pulveriza muito os recursos.
E os projetos contemplados não conseguem crescer. O CNPq
(responsável pelo financiamento de pesquisas universitárias)
criou o Instituto do Milênio, cuja idéia inicial
era fortalecer alguns centros. Mas isso foi sendo pulverizado.
Em vez de concentrar o dinheiro em centros de excelência,
a estratégia foi diluir. É um critério
democrático, mas com isso você não cria
densidade. Dessa forma é impossível dar um salto
de qualidade. A atividade científica é cara e
concentrada. Não é para qualquer grupo. Hoje,
a legislação brasileira exige que todas as universidades
façam pesquisa. Isso só estimula uma mimetização.
O professor participa de um congresso qualquer ou publica um
artigo numa revista que ninguém lê. É algo
que tem aparência de pesquisa, mas não produz conhecimento.
Fazer pesquisa significa participar de um grupo seleto e muito
exigente de pessoas que estão produzindo conhecimento
de fronteira. É uma atividade que pouca gente faz. Por
isso o investimento deveria ser concentrado, como acontece em
países desenvolvidos.
Veja Sua
pesquisa analisou universidades que conseguem associar ciência
de excelência à relevância social ou econômica.
Elas têm algum ponto em comum? Schwartzman Oprincipal fator é o humano. Em todos os
casos que estudamos, havia um pesquisador com mentalidade empresarial,
que liderou o processo de integração com o mercado.
Mesmo nas universidades públicas, o líder de um
departamento, além de ser bom na sua área, deve
ter um perfil empreendedor. Precisa estar o tempo todo antenado
com o que acontece fora da universidade para saber quais temas
de pesquisa estão surgindo, quais as linhas mais promissoras
e onde estão as oportunidades. Ele tem de saber convencer
os outros da importância do seu trabalho. Isso cria uma
dinâmica. Foi o que aconteceu no Instituto Tecnológico
de Aeronáutica, que virou padrão internacional
na área de engenharia. Por que o Exército ou a
Marinha não conseguiram fazer nada parecido? Não
foi por questão política. Foi porque colocaram
gente de talento lá dentro. É preciso dar mais
liberdade para que líderes de departamento com capacidade
empreendedora possam agir.
Veja Como
isso acontece nos países desenvolvidos? Schwartzman Na
Inglaterra, todas as universidades são públicas,
mas são administradas como se fossem do setor privado.
Elas têm agilidade para buscar recursos, identificar prioridades,
contratar ou demitir gente e, principalmente, pagar de forma
diferente profissionais diferentes. Um grande médico
ou um grande químico não podem ganhar o mesmo
que um professor de história, como acontece nos universidades
públicas brasileiras. Nada contra os historiadores, mas
esses profissionais são pagos de forma diferente no mercado.
Se a universidade não fizer o mesmo, os mais qualificados
irão atrás de oportunidades melhores na iniciativa
privada. Nos Estados Unidos, as universidades trabalham com
todo tipo de convênio e de parceria. Evidentemente produzem
muito mais.
Veja O
mau uso de verbas públicas por fundações
ligadas a universidades originou um escândalo que resultou
no afastamento do reitor da Universidade de Brasília.
No Brasil, essa liberdade não pode dar margem a abusos? Schwartzman Não
há respostas óbvias para isso. Tudo precisa ser
regulado. O caso das fundações é bastante
interessante. Elas foram criadas para contornar a rigidez na
administração das universidades públicas.
Claro que há possibilidade de abusos, como aconteceu
em Brasília. Mas fechá-las seria um desastre.
Acho muito importante manter as fundações, sobretudo
enquanto as universidades públicas estiverem submetidas
à camisa-de-força do serviço público.
Precisamos ver caso a caso se as irregularidades são
de fato ações desonestas ou o exercício
efetivo da flexibilidade para o qual elas foram criadas. Fundações
estão submetidas à legislação própria
de responsabilidade e transparência no uso de recursos,
e, se há irregularidades, a solução não
é fechá-las, mas aplicar as regras que existem.
Veja A
economia brasileira está vivendo um período notável.
A pesquisa acadêmica não tem se beneficiado disso? Schwartzman Não o bastante. O Brasil está perdendo o bonde.
O volume de investimento em pesquisa tem crescido a uma velocidade
bem maior nos países desenvolvidos do que aqui. A distância
está aumentando muito. O país não tem capacidade
para atrair um investimento de qualidade porque não tem
massa crítica. O atual governo fala muito sobre a questão
da inclusão. Seu tema principal é o acesso à
universidade. Acho isso um equívoco. Você não
tem tanta gente para colocar na universidade porque o ensino
médio está muito ruim. Essa política dá
acesso a gente que não vai conseguir muita coisa. Não
acho que o problema da desigualdade social passe pela inclusão
na universidade. Seria melhor oferecer uma educação
básica de qualidade. A função da universidade
é produzir competência, gente bem formada e pesquisa
de qualidade. A universidade tem de ter liberdade e estímulo
para eleger prioridades. Hoje ela não tem nem uma coisa
nem outra. O que devemos discutir é se essa universidade
tem bons engenheiros, bons cientistas e se tem capacidade para
oferecer serviços. O resto é secundário.