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Edição 1 801 - 7 de maio de 2003
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CINEMA

Fotos divulgação
Bicicletas de Pequim: vigoroso


Bicicletas de Pequim
(Shi qi Sui de Dan Che, China/França, 2000. Desde quinta-feira em cartaz em São Paulo) – Uma das gratas surpresas do circuito mundial no fim dos anos 80, o cinema chinês continua dando mostras inequívocas de vigor com filmes como este Bicicletas de Pequim, que atualiza para a China urbana e cada vez mais capitalista o clássico neo-realista Ladrões de Bicicletas. Guei é um rapaz do interior, taciturno e desconfiado, que consegue um emprego na cidade grande como mensageiro. Seu orgulho é a bicicleta moderna e prateada, que será sua quando ele completar um certo número de entregas. Na véspera de se tornar o dono de seu instrumento de trabalho, porém, Guei descobre que ele foi roubado. Empreendendo uma busca por Pequim, ele encontra a bicicleta nas mãos de um rapaz de sua idade, Jian, para quem ela tem um significado muito diferente: aceitação social. Os colegas de escola de Jian são mais afluentes do que ele, que tem em sua pobreza um motivo de revolta e ressentimento. Guei e Jian travam, então, um cabo-de-guerra cada vez mais brutal pela bicicleta, até chegarem a um desfecho arrasador. O diretor Wang Xiaoshuai é, como muitos de seus companheiros, sistematicamente censurado em seu país, por motivos insondáveis que só o governo chinês é capaz de entender (se é que é). O melhor é não perder tempo tentando alinhar o diretor com esta ou aquela tendência ideológica e aproveitar a beleza de seu filme.

 

LIVROS

Insolação, de Ivan Bunin (tradução de Manoel Paulo Ferreira; Objetiva; 208 páginas; 29,90 reais) – Embora tenha sido o primeiro escritor russo a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1933, Bunin (1870-1953) ficou proscrito em seu país durante o período soviético. Filho de aristocratas, ele partiu para o exterior logo depois da Revolução Comunista de 1917, o que resultou na proibição de suas obras. Nos últimos anos, contudo, sua reputação vem sendo rapidamente restabelecida. Ele é considerado um dos maiores escritores russos da virada do século XX, e comparado a clássicos como Tchekov. Bunin registrou a decadência do regime aristocrático na Rússia, mas sua abordagem é menos social que "existencial", pelo interesse em temas universais como amor e morte. Apesar da tradução indireta, feita a partir do inglês, essa primeira coletânea de seus contos no Brasil é uma bela iniciativa e traz textos-chave como Ida e O Cavalheiro de São Francisco.

Fúria, de Salman Rushdie (tradução de José Rubens Siqueira; Companhia das Letras; 304 páginas; 38 reais) – Os anos que Salman Rushdie passou como alvo de uma fatwa (condenação à morte) dos fundamentalistas religiosos iranianos fizeram dele uma personalidade política e levaram muita gente a esquecer quão inventivo e ousado ele pode ser como escritor. Esse romance é prova renovada de seu talento.O protagonista é Malik Solanka, que, como o próprio Rushdie, nasceu na Índia, emigrou para a Inglaterra e depois para os Estados Unidos. Ex-professor universitário, ele ganhou fama e dinheiro ao criar bonecos animados que se tornam um hit na televisão. Certo dia, no entanto, ele se pilha segurando uma faca sobre os corpos adormecidos de sua mulher e de seu filho. Temendo cometer uma insanidade, Solanka foge para Nova York, onde procura domar a fúria que ameaça tomar conta dele e, na verdade, do mundo que fervilha ao seu redor. Leia trechos do livro.

Erros Irreversíveis, de Scott Turow (tradução de Alves Calado; Record; 458 páginas; 45 reais) – O pai do thriller jurídico aborda em seu sexto romance o tema da pena de morte. Às vésperas de sua execução, o marginal Esquilo retira a confissão de assassinato que fizera anos antes e se declara inocente. O Estado designa então o advogado Arthur Raven para impetrar um último recurso em nome do condenado. Além de compor boas tramas de suspense, Turow sempre procurou criar personagens sólidos. Não é diferente nesse livro, que conta com quatro protagonistas envolvidos em casos amorosos: o advogado Raven e a ex-juíza Gillian (que cumpriu pena por corrupção), a estrela da promotoria Muriel e o detetive Larry – durão, competente, mas um pouco sem escrúpulos.

 

DISCOS

 

Os integrantes do Blur: rock sem guitarras

 

Think Tank, Blur (EMI) – Rock e guitarra costumam ser tratados como se fossem indissociáveis. Pois o grupo inglês conseguiu um feito raro: gravar um disco de rock com presença mínima desse instrumento. Não há indício de solos. No máximo, as guitarras entram para criar climas. O feito do Blur se deu por motivos práticos. Às vésperas da gravação do álbum, o guitarrista Graham Coxon largou a banda por não concordar com mudanças de estilo que seus colegas pretendiam levar a cabo. Ao cantor Damon Albarn restou a missão de empunhar o instrumento. Think Tank vai do tecno à world music. Muitas faixas lembram os Gorillaz, banda fictícia que Albarn montou durante um hiato na carreira do Blur. Um bom exemplo está em Out of Time. Os admiradores do velho estilo do grupo irão gostar da dançante Ambulance e da balada Good Song.

 

DVDs

Globo Vídeo
Vestida para Matar: uma homenagem a Hitchcock


Vestida para Matar
(Dressed to Kill, Estados Unidos, 1980. Fox) – Uma loira assassinada a facadas por uma mulher misteriosa, um homem que aparenta ser inócuo mas é bem diferente do que se imagina, uma vítima potencial que precisa encontrar o criminoso para não morrer: qualquer semelhança com Psicose de Alfred Hitchcock não é mera coincidência. Nem pense em usar a palavra plágio, porém. Vestida para Matar, com Michael Caine e Angie Dickinson, é um dos mais inspirados tributos do diretor Brian De Palma ao mestre inglês. E é também um de seus filmes mais duradouros, capaz de manter quem não conhece a história na beirada da poltrona e de deslumbrar novamente com sua proficiência arrebatadora quem já o viu. O disco é pobre em extras, mas essa é uma falha pequena diante da oportunidade de ver o filme no formato widescreen, livre do encaixotamento a que ele é submetido nas reprises da televisão.



Ultramar Filmes
Os Esquecidos: Buñuel em sua fase mexicana


Os Esquecidos
(Los Olvidados, México, 1950. Versátil) – Filho de latifundiários e educado por jesuítas, o espanhol Luis Buñuel (1900-1983) fez do ataque à religião, ao sistema e à moral burguesa sua missão na vida. Os Esquecidos, sobre um grupo de crianças e jovens miseráveis que afundam na delinqüência, é da fase em que, depois de um longo hiato em Hollywood, Buñuel se radicou no México e retomou esse ideário. Inédito em vídeo no Brasil, o filme é magnificamente fotografado em preto-e-branco e ainda mais admirável pela objetividade do olhar do diretor, que foi estraçalhado pela imprensa local por mostrar um México não exatamente aprazível. Atenção à seqüência antológica, e típica de Buñuel, em que o menino Pedro mistura a culpa por um assassinato e por seus sentimentos dúbios pela mãe num mesmo sonho.

 

   
 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Fnac, Nobel, Siciliano, Rio: Saraiva, Nobel, Laselva, Sodiler, Siciliano, Argumento, Travessa; Porto Alegre: Saraiva, Nobel, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Nobel, Siciliano, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Nobel, Saraiva, Siciliano; Natal: Nobel, Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano, Nobel; Fortaleza: Siciliano, Laselva, Nobel; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Nobel, Leitura; Maceió: Sodiler, Nobel.
   
 
   
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