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Edição 1 801 - 7 de maio de 2003
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Claudio de Moura Castro

Um provão para governantes?

"Precisamos de um índice de curto
prazo para comparar o antes
e o depois de uma gestão"



Ilustração Ale Setti


Eu jantava em Estocolmo com Thorsten Husen, membro do júri que escolhe os premiados com o Nobel de Economia. Perguntei por que ainda não haviam escolhido meu ex-professor Amartya Sen. Thorsten sorriu e nada disse. Um mês depois, foi anunciado o prêmio para Sen, merecido, por toda a sua obra. Entendi o sorriso de Gioconda.

Durante dois séculos, os economistas falavam em renda e riqueza, mas não tinham medidas. Só chegando à metade do século XX é que se logrou medir o conceito de produto interno bruto. O PIB passou a ser o termômetro da pujança econômica de um país. Mas, por útil que seja, ele anda meio longe de espelhar a qualidade de vida de um povo.

Para o grande público, Sen ficou conhecido pela criação do índice de desenvolvimento humano, junto com Mabul Ul Haq. Com o patrocínio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), em 1990, foram publicadas as primeiras estatísticas do IDH, comparando países. Pelo mérito e pelo peso de seus padrinhos, o índice tornou-se o mais importante instrumento de medida da qualidade de vida. Na verdade, o IDH é a única grande novidade depois do desenvolvimento do PIB.

Mas não podemos deixar passar um meandro da história. O sociólogo Robert Merton observou aplicar-se na ciência a lei de Mateus: "A quem tem, mais lhe será dado". No caso, Luiz Fernando da Silva Pinto, da escola de pós-graduação em economia da Fundação Getúlio Vargas, já havia desenvolvido e publicado um livro, em 1984, com uma medida praticamente igual ao IDH. Mas infelizmente para ele e para nós, brasileiros, seu trabalho não teve reconhecimento público algum. Foi esmagado pelo peso do Pnud e pela reputação internacional dos dois economistas do continente indiano. Que pena!

O IDH é um indicador que engloba toda a população de um país e atribui pesos a uma coleção de medidas de qualidade da vida. Inclui a taxa de alfabetização, a freqüência à escola, a mortalidade infantil, a esperança de vida e a renda per capita. Embora a escolha desses indicadores seja arbitrária, eles capturam bastante bem a qualidade de vida da população.

Contudo, temos de entender suas limitações. O IDH combina fluxos e estoques, isto é, medidas de mudança e medidas acumuladas. A freqüência à escola é um fluxo, aferido pela proporção de alunos matriculados. A renda per capita também é fluxo. Em contraste, o analfabetismo é o estoque total de analfabetos, de qualquer idade. E a esperança de vida é baseada no estoque dos que ainda estão vivos, comparado com o dos que já morreram.

Nossos governantes precisam ser avaliados, precisam de seu provão. Mas o IDH é o provão errado para isso. Nos quatro anos de mandato de um governo, é possível mudar os fluxos, fazendo a economia crescer ou matriculando mais gente na escola. Mas o IDH inclui medidas de estoques que têm um grande fator inercial. Em quatro anos, só se pode reduzir o analfabetismo de quatro grupos de idade, em uma população de analfabetos com até 90 anos. É uma torneirinha deixando de pingar num reservatório enorme. O Brasil, que praticamente deixou de produzir analfabetos, só terá toda a população alfabetizada quando morrer o último analfabeto produzido nas oito décadas anteriores. Medidas enérgicas de saúde pública reduzem a mortalidade infantil. Mas a esperança de vida é afetada pelo que não se fez pela saúde dos que morreram ao longo de quase um século. Não há política pública que os faça reviver. Portanto, o crescimento do IDH em quatro anos é freado pelo grande peso dos indicadores de estoque, refletindo o passado.

Ao examinarmos o IDH, estamos julgando as políticas acumuladas ao longo de décadas, feitas por contemporâneos dos pais e avôs dos governantes e não apenas por eles, nos últimos quatro anos. Para avaliarmos a gestão de um governante, precisamos de medidas de fluxo, não de estoque. Ou seja, o IDH não é o indicador certo. Precisamos de um provão para comparar o antes e o depois de uma gestão, isto é, outro IDH, de curto prazo. Tecnicamente é fácil. Falta fazer. E, mais ainda, precisamos dar legitimidade ao índice, pois o vácuo em que caiu o trabalho de Luiz Fernando da Silva Pinto mostra a necessidade de ter padrinhos fortes.


Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)


 
 
   
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