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Claudio
de Moura Castro
Um
provão para governantes?
"Precisamos
de um índice de curto
prazo para comparar o antes
e o depois de uma gestão"
Ilustração Ale Setti
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Eu jantava em Estocolmo com Thorsten Husen, membro do júri que
escolhe os premiados com o Nobel de Economia. Perguntei por que ainda
não haviam escolhido meu ex-professor Amartya Sen. Thorsten sorriu
e nada disse. Um mês depois, foi anunciado o prêmio para Sen,
merecido, por toda a sua obra. Entendi o sorriso de Gioconda.
Durante dois séculos, os economistas falavam em renda e riqueza,
mas não tinham medidas. Só chegando à metade do século
XX é que se logrou medir o conceito de produto interno bruto. O
PIB passou a ser o termômetro da pujança econômica
de um país. Mas, por útil que seja, ele anda meio longe
de espelhar a qualidade de vida de um povo.
Para o grande público, Sen ficou conhecido pela criação
do índice de desenvolvimento humano, junto com Mabul Ul Haq. Com
o patrocínio do Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (Pnud), em 1990, foram publicadas as primeiras estatísticas
do IDH, comparando países. Pelo mérito e pelo peso de seus
padrinhos, o índice tornou-se o mais importante instrumento de
medida da qualidade de vida. Na verdade, o IDH é a única
grande novidade depois do desenvolvimento do PIB.
Mas não podemos deixar passar um meandro da história. O
sociólogo Robert Merton observou aplicar-se na ciência a
lei de Mateus: "A quem tem, mais lhe será dado". No caso, Luiz
Fernando da Silva Pinto, da escola de pós-graduação
em economia da Fundação Getúlio Vargas, já
havia desenvolvido e publicado um livro, em 1984, com uma medida praticamente
igual ao IDH. Mas infelizmente para ele e para nós, brasileiros,
seu trabalho não teve reconhecimento público algum. Foi
esmagado pelo peso do Pnud e pela reputação internacional
dos dois economistas do continente indiano. Que pena!
O IDH é um indicador que engloba toda a população
de um país e atribui pesos a uma coleção de medidas
de qualidade da vida. Inclui a taxa de alfabetização, a
freqüência à escola, a mortalidade infantil, a esperança
de vida e a renda per capita. Embora a escolha desses indicadores seja
arbitrária, eles capturam bastante bem a qualidade de vida da população.
Contudo, temos de entender suas limitações. O IDH combina
fluxos e estoques, isto é, medidas de mudança e medidas
acumuladas. A freqüência à escola é um fluxo,
aferido pela proporção de alunos matriculados. A renda per
capita também é fluxo. Em contraste, o analfabetismo é
o estoque total de analfabetos, de qualquer idade. E a esperança
de vida é baseada no estoque dos que ainda estão vivos,
comparado com o dos que já morreram.
Nossos governantes precisam ser avaliados, precisam de seu provão.
Mas o IDH é o provão errado para isso. Nos quatro anos de
mandato de um governo, é possível mudar os fluxos, fazendo
a economia crescer ou matriculando mais gente na escola. Mas o IDH inclui
medidas de estoques que têm um grande fator inercial. Em quatro
anos, só se pode reduzir o analfabetismo de quatro grupos de idade,
em uma população de analfabetos com até 90 anos.
É uma torneirinha deixando de pingar num reservatório enorme.
O Brasil, que praticamente deixou de produzir analfabetos, só terá
toda a população alfabetizada quando morrer o último
analfabeto produzido nas oito décadas anteriores. Medidas enérgicas
de saúde pública reduzem a mortalidade infantil. Mas a esperança
de vida é afetada pelo que não se fez pela saúde
dos que morreram ao longo de quase um século. Não há
política pública que os faça reviver. Portanto, o
crescimento do IDH em quatro anos é freado pelo grande peso dos
indicadores de estoque, refletindo o passado.
Ao examinarmos o IDH, estamos julgando as políticas acumuladas
ao longo de décadas, feitas por contemporâneos dos pais e
avôs dos governantes e não apenas por eles, nos últimos
quatro anos. Para avaliarmos a gestão de um governante, precisamos
de medidas de fluxo, não de estoque. Ou seja, o IDH não
é o indicador certo. Precisamos de um provão para comparar
o antes e o depois de uma gestão, isto é, outro IDH, de
curto prazo. Tecnicamente é fácil. Falta fazer. E, mais
ainda, precisamos dar legitimidade ao índice, pois o vácuo
em que caiu o trabalho de Luiz Fernando da Silva Pinto mostra a necessidade
de ter padrinhos fortes.
Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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