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Edição 1 801 - 7 de maio de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

A dama no centro
do governo

Marisa representa, dentro
e fora do PT, uma resposta
ao desafio das calças jeans
de Heloísa Helena

Que fazia a senhora Marisa Letícia Lula da Silva no meio daquele monte de gente que na semana passada foi levar ao Congresso os projetos de reformas constitucionais do governo? Que papel representava ali? Que papel representa em geral no governo capitaneado pelo marido? Antes de responder a essas perguntas, observemos que Marisa está em todas. Por enquanto, a única atividade do governo da qual se mantém conspicuamente afastada são as peladas de fim de semana nos campinhos do Alvorada ou do Rancho do Torto, razão pela qual, ao contrário do que acontece com boa parte dos integrantes da alta cúpula, ainda conserva ambas as pernas sãs e aptas a acompanhar o marido. Até onde a memória alcança, não se conhece mulher de presidente mais presente nas atividades oficiais.

Não que outras mulheres de presidente tenham desempenhado papel de pouca importância. Recordemos algumas. Roseane Collor notabilizou-se pelos vestidinhos exibicionistas, pelas compras milionárias nas viagens ao exterior e pelo narizinho empertigado – empertigado, como que distribuindo aos circundantes um aviso de que o-que-vem-de-baixo-não-me-atinge, até na cena patética em que, mãos dadas com o marido, deixou a rampa do Palácio do Planalto, no último ato da passagem do casal pelo poder. Ela potencializou o misto de empáfia e deslumbramento rastaqüera que caracterizou a corte no período. Ruth Cardoso, ao contrário, impôs o caráter intelectual de seu período, de nenhuma concessão à frivolidade, já a partir do fato de que rejeitava o título de "primeira-dama", expressão que, importada dos Estados Unidos, onde foi usada pela primeira vez para nomear a senhora Lincoln, denota, além de discutível gosto, uma pitada de desprezo pela individualidade feminina. Ruth ganhou o respeito mesmo de quem não gostava do marido. Com isso, constituiu-se em importante linha de defesa de um governo submetido ao fogo incessante da oposição.

Até quando se escondem, as mulheres contribuem para conferir uma marca ao governo do marido. Scylla Medici e Lucy Geisel foram duas mulheres de presidentes militares de discreta conduta. Com isso, contribuíram para a imagem de desumanidade do mandato do primeiro, o governo por excelência da tortura e da censura, e de sisudez prussiana do segundo. Antes, Iolanda Costa e Silva preferira o extremo oposto: foi uma primeira-dama espevitada, encantada com as luzes da ribalta, louca por som e fúria. Num momento único na história das mulheres de presidente, fez-se fotografar, sorridente e exuberante, ao centro do ministério – ela só, sem o marido. Foi como se lhe usurpasse o posto, como se lhe roubasse a primazia.

Marisa Lula da Silva começou a assumir papel de destaque na última campanha eleitoral. Até então, dentro da tradição petista de pouca consideração para com hábitos burgueses como o de exibir-se com a mulher a tiracolo, Lula costumava cumprir os compromissos sozinho. Claro, na campanha impôs-se o dedo de Duda Mendonça, mas, para a, digamos, explosão de Marisa, pode ter contribuído também o eco de uma ruptura anterior na tradição esquerdista de manter a política distante da sociabilidade conjugal. Essa ruptura chamou-se Raisa Gorbachev. Foi um deslumbramento quando ela apareceu. Durante mais de sessenta anos o bolchevismo se conservara jejuno em matéria de consortes. De alguns dos líderes que passaram pelo Kremlin nem se sabia se tinham mulher. É verdade que o primeiro deles, Lênin, era casado com uma mulher conhecida, Nadezhda Krupskaia. Mas Krupskaia, quando aparecia em cena, não era na qualidade de esposa, e sim na de membro preeminente do partido. Raisa Gorbachev foi, para os próprios soviéticos e para o mundo, um sinal tão eloqüente quanto a perestroika e a glasnost de que as coisas iam mudar. Marisa, de seu lado, foi tão eloqüente quanto a "Carta aos Brasileiros".

Certo, Marisa foi decisiva na construção do Lula da campanha, mas e depois? Por que, vencidas as eleições, ocupa a cena mais assiduamente ainda? Porque seu papel continua crucial, no tipo de líder que Lula escolheu ser – ou talvez nem tenha escolhido, mas identificado como único possível se quer governar em paz e com ampla base de apoio. O Lula presidente, distante anos-luz do rebelde de barba cerrada e expressão tensionada de outrora, refez-se no bom marido de Marisa, com inclinação para paizão. Só esse Lula, só o Lula da Marisa, pode fazer passar as reformas. E foi para confirmá-lo nessa condição que ela estava lá. Marisa, a mulher que anda de mãos dadas e não raro abraça o marido, reconfortante e familiar, representa, dentro e fora do PT, uma resposta e um chega-pra-lá ao desafio das calças jeans e do rabo-de-cavalo utilitário da senadora Heloísa Helena.

P.S.: Na semana passada saiu nesta página que Tróia era uma ilha. A afirmação deveu-se a um acesso grave de obnubilação mental, pelo qual o autor se desculpa. Tróia ficava no continente, na chamada Ásia Menor, hoje território da Turquia.

 
 
   
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