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De quem é a razão?

Os médicos agora tentam entender
por que os maiores estudos sobre
reposição hormonal chegaram
a resultados opostos

Paula Neiva

Em julho do ano passado, mulheres que tratam os sintomas da menopausa com doses extras de hormônio levaram um susto. A divulgação do mais importante estudo sobre terapia de reposição hormonal já feito no mundo, promovido pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, colocou na berlinda esse tipo de tratamento. Os dados apresentados pelos pesquisadores mostraram um aumento estatisticamente significante nas probabilidades de aparecimento de tumores de mama, o que fez com que a pesquisa fosse interrompida três anos antes da data prevista. Além disso, eles também notaram um incremento considerável nos riscos de doenças cardiovasculares. Essa última informação, em especial, bateu de frente com o que outro grande estudo de referência sobre o tema, coordenado por médicos da Universidade Harvard, havia constatado anos antes. Os resultados opostos obtidos por trabalhos tão relevantes abriram uma discussão na comunidade científica sobre a validade dos métodos adotados nos estudos médicos em geral.

Recentemente, médicos de Harvard organizaram um simpósio para tratar do assunto. Eles colocaram em pauta o que consideravam ser os pontos negativos de cada uma das metodologias adotadas pelos estudos sobre reposição hormonal, discutiram as características das mulheres selecionadas e esmiuçaram estatísticas e números. Apesar de não encontrarem nada que desqualificasse totalmente cada uma das pesquisas ou que justificasse as disparidades de seus resultados, os especialistas detectaram alguns pontos falhos em ambos os trabalhos. Deles, o mais suscetível a críticas é o de Harvard, divulgado em 1985. As suas informações basearam-se em questionários respondidos bienalmente por mais de 120.000 enfermeiras. Esse tipo de procedimento é totalmente descartado pela medicina baseada em evidências, a linha hoje predominante, que só aceita como provas procedimentos empiricamente testados e comprovados. Para essa linha, os resultados mais confiáveis são aqueles obtidos por meio de pesquisas em que os pacientes são divididos aleatoriamente em grupos que recebem terapias diferentes, sem que eles ou os médicos saibam a que grupo pertencem. A supervisão fica a cargo de terceiros, para que as conclusões não sejam influenciadas.

Os estudos meramente de observação – como o de Harvard – não teriam tanto rigor metodológico e, por isso, dariam margem para a má interpretação de informações. Por exemplo, ex-usuárias de terapia hormonal que tiveram problemas cardíacos e por isso pararam a terapia poderiam ter sido contabilizadas no grupo das não-usuárias. Outra crítica ao estudo de Harvard diz respeito ao que os médicos chamam de viés da usuária saudável. "Quem fez reposição hormonal nessa pesquisa provavelmente tinha menos fatores de risco para doenças cardiovasculares e câncer do que as que não fizeram. Isso porque, na época, era consenso entre os médicos não receitar hormônios para mulheres obesas e hipertensas", explica o ginecologista César Eduardo Fernandes, presidente da Sociedade Brasileira do Climatério. O estudo do Instituto Nacional de Saúde americano, por outro lado, incluiu mulheres com peso acima do desejável tanto no grupo que fez reposição quanto no que tomou placebo. O problema é que houve exagero na cota. No total, cerca de 35% delas eram gordinhas ou obesas. Esse grupo pode ter distorcido os resultados, porque a gordura corporal eleva a produção de estrógeno natural. A soma disso com o hormônio reposto aumentaria ainda mais os riscos de câncer e doenças cardíacas. Outro ponto levantado pelos especialistas é o fato de apenas um tipo de reposição hormonal (feita com o remédio Premelle) ter sido estudado. Além disso, quase 70% das mulheres analisadas tinham mais de 60 anos e boa parte delas havia começado a fazer reposição hormonal mais de uma década depois da menopausa, o que pode tornar o tratamento inócuo.

Para complicar ainda mais a confusão em torno da terapia de reposição hormonal, uma análise que é subproduto do estudo do Instituto Nacional de Saúde americano deverá ser publicada nesta semana na revista científica New England Journal of Medicine. De acordo com seus autores, o tratamento não diminui a irritabilidade, a insônia nem os problemas de memória que, em geral, acometem as mulheres na pós-menopausa. "A questão é que esse estudo não foi concebido para proporcionar esse tipo de análise, já que as mulheres que tinham sintomas foram excluídas previamente do seu universo", critica o médico César Fernandes. Apesar de não ter sido colocado um ponto definitivo na questão, o FDA, órgão que controla os medicamentos nos Estados Unidos, decidiu que, em todos os remédios para reposição hormonal, deve constar o aviso de que o medicamento pode aumentar os riscos de câncer de mama.

 

 

   
 
   
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