
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
|
|
Na moda em Berlim
Alemães
têm saudade de produtos
e músicas do mundo comunista. Mas
não do comunismo

Diogo Schelp,
de Berlim
Fotos divulgação
 |
ção
 |
ção
 |
| Ícones
da RDA: sinal de semáforo, o homenzinho de chapéu ganhou bonés; o
símbolo da juventude comunista; e rótulo de bebida com o martelo e
o compasso da velha bandeira |
O tradutor
alemão Heiko Fröhlich, morador de Berlim, está arrependido
de ter vendido uma lambreta que nunca funcionou. "Acho essas máquinas
simplesmente o máximo", ele explica, referindo-se às IWL,
motos que eram produzidas na Alemanha Oriental. Fröhlich nasceu do
lado ocidental do muro que seria derrubado em 1989. Não conviveu
na infância com a tal lambreta, mas vive com entusiasmo uma fase
de culto por objetos e hábitos da antiga República Democrática
da Alemanha, como também era chamado o lado comunista. Esse tipo
de nostalgia é uma febre que ganhou até um nome, baseado
num trocadilho: ostalgia de ost, leste em alemão.
O fenômeno
começou há uma década, na ex-Alemanha Oriental, como
uma espécie de reação cultural aos hábitos
ocidentais incorporados ao cotidiano depois da reunificação.
A cultura consumista, ao mesmo tempo invejada e temida, foi um choque
sobretudo para os mais velhos. Pode-se dizer que a ostalgia atingiu o
ápice agora, com o recente sucesso de Goodbye, Lenin, um
filme visto por 5 milhões de espectadores, campeão de bilheteria
na Alemanha por sete semanas. Trata da vida de um rapaz que vive no lado
leste de Berlim e cuja mãe estava em coma quando caiu o muro. Para
não assustá-la, quando a mulher volta a si o rapaz cria
no apartamento uma Alemanha comunista, escondendo da mãe a mudança
radical havida no mundo.
Os alemães
ocidentais riem das dificuldades do personagem para encontrar nos supermercados
produtos com as velhas marcas da Alemanha Oriental, engolidas pela onda
capitalista. Muitos dos ex-moradores da RDA, no entanto, se emocionam
ao relembrar as músicas e os programas de televisão de então.
"Ninguém quer a volta do regime comunista, da censura à
imprensa, da perseguição política e de outros abusos",
diz Frank Grubitzsch, redator do maior jornal de Dresden. "Mas pessoas
como eu, que viveram toda a infância e a juventude na RDA, não
podem simplesmente ignorar o que as faz lembrar-se dos melhores anos de
suas vidas", afirma Grubitzsch, ele próprio comprador de discos
com músicas que foram sucesso naqueles tempos.
Na capital
alemã, encontram-se lojas que vendem, quase como suvenires, centenas
de produtos orientais, de vassouras a cremes para a pele. Uma exposição
inaugurada em março em Berlim mostra peças como a única
marca de máquina de escrever da RDA que precisava ser encomendada
com três anos de antecedência. Emocionados, os visitantes
recordam o preço abusivo que tinham de pagar pelo equipamento.
Nas livrarias, contam-se às dezenas os títulos ostálgicos,
incluindo um sobre os recordes batidos (à base de doping) pelos
atletas comunistas. Nos bares da moda, a velha bandeira, igual à
do lado ocidental mas acrescida de um martelo e um compasso, virou objeto
de decoração. Na internet, listas de discussão em
sites especializados desenterram até as piadas que só tinham
graça sob o regime socialista: "Por que na RDA em toda loja de
verdura há um policial? Para ter pelo menos alguma coisa verde
dentro dela."
|
|
 |
|
 |

|
 |