
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
|
|
O cabernet de 1,99
dólar
A menos
de 2 dólares a garrafa, um
vinho californiano já vendeu 6 milhões
de caixas e está revolucionando
a indústria nos EUA

Adriana Souza
Silva
Rosana Gobbi
 |
| Château
d'Yquem: uma garrafa da safra de 1931 foi vendida por 37 000 dólares
|

Veja também |
|
|
|
|
Vendido a 1,99 dólar na Califórnia, o vinho Charles Shaw
carrega identificação de origem do Vale do Napa, a região
produtora de maior reputação nos Estados Unidos. A combinação
da procedência nobre com o preço de refrigerante já
seria suficiente para fazer do Charles Shaw um estranho no ninho da indústria
cujos produtos mais raros podem chegar a custar vários milhares
de dólares. Lançado em fevereiro do ano passado, o vinho
se tornou um fenômeno sem igual no mercado de bebidas americano.
Ele virou objeto de culto dos apreciadores depois que a revista Wines
& Vines publicou, em outubro de 2002, o resultado de uma degustação
em que o vinho de 1,99 foi comparado por especialistas com outro fabricado
com igual tipo de uva, colhido na mesma região, mas vendido a 67
dólares a garrafa. Os provadores consideraram o Charles Shaw melhor
que seu concorrente caro, cuja identidade foi protegida pela revista.
Desde então, o Charles Shaw começou a abandonar as prateleiras
das lojas especializadas em ritmo alucinante. Na semana passada, seus
distribuidores calculavam que 6 milhões de caixas, ou 72 milhões
de garrafas, já tinham sido vendidas.
Alguns dias
atrás, surgiram as provas definitivas de que o vinho barato estava
fazendo história no mercado americano. Começaram a circular
na internet as chamadas "lendas urbanas" sobre a razão de existir
um produto potável com certa qualidade e origem garantida vendido
a preço tão baixo. A mais delirante dessas lendas dava conta
de que, por razões de segurança antiterrorismo, as companhias
aéreas americanas tinham sido proibidas de usar saca-rolhas a bordo
de seus aviões, sendo obrigadas a se desfazer a qualquer custo
de seus estoques de vinhos. "Charles Shaw é um fenômeno porque
as pessoas o provam e não conseguem acreditar que custe apenas
1,99 dólar", diz Eileen Fredrickson, da empresa de consultoria
especializada em vinicultura Gomberg-Fredrickson & Associates. Três
vinhos diferentes são vendidos sob o rótulo Charles Shaw.
O branco, produzido com uva Chardonnay, foi o tipo que recebeu boa nota
dos provadores na comparação com o concorrente mais caro.
Os outros dois são tintos, um feito com uva Cabernet Sauvignon
e outro com Merlot, ambas cepas de origem francesa tradicionalmente cultivadas
com êxito na Califórnia. Esses não obtiveram o mesmo
sucesso de crítica do Chardonnay. O Cabernet e o Merlot chamaram
a atenção dos provadores profissionais depois de seu estrondoso
sucesso comercial. Um desses provadores registrou, no jargão característico,
"a aparência cor de rubi, o aroma frutado e o sabor de cerejas"
do Charles Shaw Cabernet. Deu-lhe duas estrelas e meia e anotou, com severidade:
"não recomendado mesmo a um preço tão baixo".
Como era
de esperar, a carreira vitoriosa do Charles Shaw provocou revolta nos
demais fabricantes, que chegaram a processar a produtora do vinho de 1,99,
a Bronco, a terceira maior vinícola da Califórnia. Uma das
argumentações era que a Bronco estaria prejudicando a reputação
dos vinhos da região do Vale do Napa, pois na composição
do Charles Shaw são usadas também uvas do Vale Central,
reconhecidamente inferiores. A vinícola foi acusada ainda de estar
perdendo dinheiro na operação de modo a ganhar espaço
no mercado ilegalmente. "Tenham certeza de que, mesmo a esse preço,
o Charles Shaw é rentável", disse a VEJA Harvey Posert,
diretor de comunicação da Bronco. Os fabricantes do Charles
Shaw acreditam prestar um serviço aos demais produtores americanos
ao ajudar a tornar o vinho uma bebida popular nos Estados Unidos, cujos
habitantes, comparativamente com os europeus, bebem pouco. Na França,
o consumo per capita anual de vinho é de 56 litros. Na Itália
chega a 49 litros. Os americanos bebem aproximadamente 7 litros de vinho
por ano. No Brasil, esse número é de 1,8 litro. Segundo
a Bronco, é possível lucrar vendendo uma garrafa de vinho
a 1,99 dólar graças aos ganhos de escala. Para produzir
o Charles Shaw, oferecido em garrafas de qualidade mas com rolha sintética,
a vinícola gasta cerca de 1 dólar e paga 25 centavos de
impostos. Sobram de margem de lucro 66 centavos por garrafa. Um vinho
californiano de qualidade artesanal como o Paul Hobbs custa a seus produtores
6 dólares por garrafa. No preço de rótulos mais nobres
e raros, como o francês de sobremesa Château d'Yquem, o custo
de produção é irrelevante em comparação
com o valor de sua tradição. Uma garrafa de Yquem 1931 foi
vendida há alguns anos por 37.000 dólares
na casa de leilões Sotheby's de Londres. É quase inacreditável
que o Château d'Yquem e o Charles Shaw sejam ambos, no fundo, a
mesma coisa: suco de uva fermentado e engarrafado.
|
|
 |
|
 |

|
 |