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A
classe do bilhão
Doze
anos depois do comunismo,
a Rússia já tem 17 nomes na lista
dos mais ricos do mundo
Juliana Simão
O
russo Mikhail Khodorkovsky tem 39 anos e na semana passada, depois de
comprar uma concorrente, tornou-se o dono da quarta maior companhia petrolífera
do mundo. Sua fortuna pessoal é estimada em 8 bilhões de
dólares, o que faz dele o homem mais rico da Rússia e o
coloca em 26º lugar no ranking global dos endinheirados. A Rússia
tem dezessete representantes na lista de 2003 dos mais ricos do mundo,
preparada pela revista americana Forbes. Em 2000 não havia
um sequer. Em quantidade, a nova classe dos bilionários russos
só perde para Estados Unidos, Alemanha e Japão. O Brasil
tem apenas quatro nomes na lista. A maior parte dos ricaços russos
está na faixa dos 30 e 40 anos. A explicação para
a acumulação tão rápida de fortunas dessa
magnitude é a seguinte: os jovens estavam mais bem preparados para
o mundo moderno que os velhos apparatchik do Partido Comunista.
Assim, souberam tirar proveito das oportunidades de negócios
nem todos inteiramente lícitos surgidas na caótica
transição para o capitalismo nos anos 90.
Quando a União Soviética agonizava, no fim da década
de 80, Khodorkovsky era funcionário do Partido Comunista. Seu único
patrimônio era um Lada velho e uma vasta rede de amigos influentes.
Com a ajuda dessas amizades, ele conseguiu levantar empréstimos
oficiais a baixo custo, abriu um banco, o Menatep, e especulou durante
os anos de hiperinflação. Seu principal cliente era o Estado
russo. "Os bancos emprestavam dinheiro ao presidente Boris Ieltsin e,
quando as dívidas não eram pagas, levavam estatais como
compensação", disse a VEJA Vladimir Popov, professor do
Instituto de Estudos Russos da Universidade de Carleton, no Canadá.
Em 1995, com seus primeiros milhões de dólares em caixa,
Khodorkovsky comprou, num leilão, a Yukos, uma petroleira estatal
falida. Com o auxílio de administradores ocidentais, ele tornou
a empresa competitiva. Contratou também uma relações-públicas
para polir sua imagem pessoal. Em vez de exibir amantes e carros, como
é do feitio dos novos-ricos pós-soviéticos, lançou
a fundação Open Russia, que educa jovens carentes. O estilo
discreto agradou aos investidores estrangeiros, e as ações
da Yukos subiram 2 850% em dois anos.
A nova classe de bilionários é a segunda leva de ricaços
do pós-comunismo. A primeira era formada por oligarcas ligados
ao então presidente Ieltsin. Viviam de forma nababesca. Tinham
dachas magníficas, iates na Itália e loiras lindas a tiracolo.
O colapso financeiro de 1998 fez todos acordarem de um dia para o outro
70% mais pobres. A quebradeira foi geral e os sobreviventes compraram
a concorrência por ninharias. Desde 1999, a inflação
está sob controle e a economia russa cresce em média 6%
ao ano. Discrição é a palavra de ordem entre a nova
elite russa. O segundo homem mais rico da Rússia, Roman Abramovich
(fortuna de 5,7 bilhões de dólares), jamais se deixa fotografar.
Proprietário de um império de comunicações
e amigo íntimo da filha de Ieltsin, ele nunca explicou direito
como ficou tão rico. A vida dos outros é menos obscura.
Dono de um oitavo da produção mundial de alumínio,
Oleg Deripaska, de 34 anos, foge da mídia desde que se casou com
uma neta do ex-presidente Ieltsin, em 2000. Sua festa de casamento foi
em lugar secreto, ninguém sabe onde passou a lua-de-mel e seu único
filho nasceu em uma clínica particular em Londres.
Se sua vida pessoal é cercada de mistérios, sua estratégia
empresarial vazou no ano passado. Ex-sócios foram à Justiça
européia acusá-lo de práticas "desleais e violentas"
para ganhar mercado. Os advogados de Deripaska ainda lutam para provar
sua inocência. O empresário, entretanto, perdeu não
só o título de Jovem Liderança que lhe havia
sido dado pelo Fórum Econômico Mundial de Davos como
foi desconvidado de participar do último evento na Suíça.
Andrei Melnichenko aparece um pouco mais na imprensa afinal, ele
tem 1 bilhão de dólares e apenas 31 anos. Começou
a ganhar dinheiro quando ainda era estudante e transformou seu dormitório
da Universidade Estatal de Moscou em uma casa de câmbio que trocava
rublos por dólares. Mais tarde, ele fundou o MDM Group, um banco
que encheu os cofres com o colapso do rublo, em 1998. Vez ou outra, especula-se
como o solteiro mais cobiçado do país estaria gastando seus
dólares. Em festas, dizem as más línguas. A última
delas, para 500 convidados, custou 2 milhões de dólares
a bagatela de 4.000 dólares por pessoa. Melnichenko não
poupou nos detalhes. Fechou o badalado restaurante Le Baoli, no balneário
francês de Cannes, ofereceu um jantar regado a vinhos Petrus 1982
e Latour 1961, de 9.000 dólares a garrafa, serviu champanhe durante
toda a madrugada e contratou o grupo francês Gipsy Kings para animar
a festa.
A maioria dos grandes conglomerados russos surgiu da união de um
grupo de amigos da universidade. Como o sistema financeiro é recente
na Rússia, os empreendedores tiveram de aprender a se autofinanciar.
Por esse motivo, a maior parte dos impérios começou como
um banco. Foi assim que Mikhail Fridman ganhou os primeiros trocados de
sua fortuna, que hoje é estimada em 4,3 bilhões de dólares,
a terceira maior da Rússia. Ele fundou seu banco em 1988 com um
grupo de amigos da universidade. Amizades influentes garantiram a prosperidade
e atualmente ele é dono de um conglomerado que inclui o maior banco
privado do país, companhias de telecomunicações,
supermercados e fábricas de vodca.
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Mikhail
Khodorkovsky
39 anos
Fortuna
pessoal: 8 bilhões de dólares
Negócios:
dono da quarta maior companhia petrolífera do mundo
Como
começou: fundou um banco em 1990 com a ajuda e
o dinheiro da burocracia soviética
Oleg
Deripaska
34 anos
Fortuna
pessoal: 1,5 bilhão de dólares
Negócios:
controla um oitavo da produção mundial de alumínio,
fabrica ônibus, carros e aviões
Como
começou: lobista na privatização de uma
siderúrgica, saiu do negócio com dinheiro para montar
a própria indústria
Mikhail
Fridman
38 anos
Fortuna
pessoal: 4,3 bilhões
Negócios:
dono do maior banco privado da Rússia, de empresas de telecomunicações,
supermercados e também grande produtor de vodca
Como
começou: criou o banco com colegas da universidade ainda
na União Soviética, em 1988
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