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Edição 1 801 - 7 de maio de 2003
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A classe do bilhão

Doze anos depois do comunismo,
a Rússia já tem 17 nomes na lista
dos mais ricos do mundo

Juliana Simão

O russo Mikhail Khodorkovsky tem 39 anos e na semana passada, depois de comprar uma concorrente, tornou-se o dono da quarta maior companhia petrolífera do mundo. Sua fortuna pessoal é estimada em 8 bilhões de dólares, o que faz dele o homem mais rico da Rússia e o coloca em 26º lugar no ranking global dos endinheirados. A Rússia tem dezessete representantes na lista de 2003 dos mais ricos do mundo, preparada pela revista americana Forbes. Em 2000 não havia um sequer. Em quantidade, a nova classe dos bilionários russos só perde para Estados Unidos, Alemanha e Japão. O Brasil tem apenas quatro nomes na lista. A maior parte dos ricaços russos está na faixa dos 30 e 40 anos. A explicação para a acumulação tão rápida de fortunas dessa magnitude é a seguinte: os jovens estavam mais bem preparados para o mundo moderno que os velhos apparatchik do Partido Comunista. Assim, souberam tirar proveito das oportunidades de negócios – nem todos inteiramente lícitos – surgidas na caótica transição para o capitalismo nos anos 90.

Quando a União Soviética agonizava, no fim da década de 80, Khodorkovsky era funcionário do Partido Comunista. Seu único patrimônio era um Lada velho e uma vasta rede de amigos influentes. Com a ajuda dessas amizades, ele conseguiu levantar empréstimos oficiais a baixo custo, abriu um banco, o Menatep, e especulou durante os anos de hiperinflação. Seu principal cliente era o Estado russo. "Os bancos emprestavam dinheiro ao presidente Boris Ieltsin e, quando as dívidas não eram pagas, levavam estatais como compensação", disse a VEJA Vladimir Popov, professor do Instituto de Estudos Russos da Universidade de Carleton, no Canadá. Em 1995, com seus primeiros milhões de dólares em caixa, Khodorkovsky comprou, num leilão, a Yukos, uma petroleira estatal falida. Com o auxílio de administradores ocidentais, ele tornou a empresa competitiva. Contratou também uma relações-públicas para polir sua imagem pessoal. Em vez de exibir amantes e carros, como é do feitio dos novos-ricos pós-soviéticos, lançou a fundação Open Russia, que educa jovens carentes. O estilo discreto agradou aos investidores estrangeiros, e as ações da Yukos subiram 2 850% em dois anos.

A nova classe de bilionários é a segunda leva de ricaços do pós-comunismo. A primeira era formada por oligarcas ligados ao então presidente Ieltsin. Viviam de forma nababesca. Tinham dachas magníficas, iates na Itália e loiras lindas a tiracolo. O colapso financeiro de 1998 fez todos acordarem de um dia para o outro 70% mais pobres. A quebradeira foi geral e os sobreviventes compraram a concorrência por ninharias. Desde 1999, a inflação está sob controle e a economia russa cresce em média 6% ao ano. Discrição é a palavra de ordem entre a nova elite russa. O segundo homem mais rico da Rússia, Roman Abramovich (fortuna de 5,7 bilhões de dólares), jamais se deixa fotografar. Proprietário de um império de comunicações e amigo íntimo da filha de Ieltsin, ele nunca explicou direito como ficou tão rico. A vida dos outros é menos obscura. Dono de um oitavo da produção mundial de alumínio, Oleg Deripaska, de 34 anos, foge da mídia desde que se casou com uma neta do ex-presidente Ieltsin, em 2000. Sua festa de casamento foi em lugar secreto, ninguém sabe onde passou a lua-de-mel e seu único filho nasceu em uma clínica particular em Londres.

Se sua vida pessoal é cercada de mistérios, sua estratégia empresarial vazou no ano passado. Ex-sócios foram à Justiça européia acusá-lo de práticas "desleais e violentas" para ganhar mercado. Os advogados de Deripaska ainda lutam para provar sua inocência. O empresário, entretanto, perdeu não só o título de Jovem Liderança – que lhe havia sido dado pelo Fórum Econômico Mundial de Davos – como foi desconvidado de participar do último evento na Suíça. Andrei Melnichenko aparece um pouco mais na imprensa – afinal, ele tem 1 bilhão de dólares e apenas 31 anos. Começou a ganhar dinheiro quando ainda era estudante e transformou seu dormitório da Universidade Estatal de Moscou em uma casa de câmbio que trocava rublos por dólares. Mais tarde, ele fundou o MDM Group, um banco que encheu os cofres com o colapso do rublo, em 1998. Vez ou outra, especula-se como o solteiro mais cobiçado do país estaria gastando seus dólares. Em festas, dizem as más línguas. A última delas, para 500 convidados, custou 2 milhões de dólares – a bagatela de 4.000 dólares por pessoa. Melnichenko não poupou nos detalhes. Fechou o badalado restaurante Le Baoli, no balneário francês de Cannes, ofereceu um jantar regado a vinhos Petrus 1982 e Latour 1961, de 9.000 dólares a garrafa, serviu champanhe durante toda a madrugada e contratou o grupo francês Gipsy Kings para animar a festa.

A maioria dos grandes conglomerados russos surgiu da união de um grupo de amigos da universidade. Como o sistema financeiro é recente na Rússia, os empreendedores tiveram de aprender a se autofinanciar. Por esse motivo, a maior parte dos impérios começou como um banco. Foi assim que Mikhail Fridman ganhou os primeiros trocados de sua fortuna, que hoje é estimada em 4,3 bilhões de dólares, a terceira maior da Rússia. Ele fundou seu banco em 1988 com um grupo de amigos da universidade. Amizades influentes garantiram a prosperidade e atualmente ele é dono de um conglomerado que inclui o maior banco privado do país, companhias de telecomunicações, supermercados e fábricas de vodca.

 

Mikhail Khodorkovsky
39 anos

Fortuna pessoal: 8 bilhões de dólares

Negócios: dono da quarta maior companhia petrolífera do mundo

C
omo começou: fundou um banco em 1990 com a ajuda – e o dinheiro – da burocracia soviética

Oleg Deripaska
34 anos

Fortuna pessoal: 1,5 bilhão de dólares

Negócios: controla um oitavo da produção mundial de alumínio, fabrica ônibus, carros e aviões

Como começou: lobista na privatização de uma siderúrgica, saiu do negócio com dinheiro para montar a própria indústria

Mikhail Fridman
38 anos

Fortuna pessoal: 4,3 bilhões  

Negócios: dono do maior banco privado da Rússia, de empresas de telecomunicações, supermercados e também grande produtor de vodca

Como começou: criou o banco com colegas da universidade ainda na União Soviética, em 1988

 

   
 
   
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