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Edição 1 801 - 7 de maio de 2003
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Entre Perón e Perón

Argentinos vão escolher entre dois
peronistas no segundo turno

Raul Juste Lores, de Buenos Aires


AP
Kirchner e Cristina: ela é a senadora mais popular do país

A Argentina é mesmo um caso único. Os peronistas, que dominam o cenário político desde os anos 50, concorreram com três candidatos no primeiro turno das eleições presidenciais e, dessa forma, transformaram o pleito, realizado no domingo 27, numa espécie de primária do partido. Para tornar essas eleições ainda mais estranhas, os candidatos que vão disputar o segundo turno, no dia 18, são ambos peronistas. Como os argentinos devem fazer para escolher entre dois políticos do mesmo partido? Seria fácil se as diferenças ideológicas entre os dois fossem profundas como as que separam moderados e radicais no PT brasileiro. Não é assim. Na Argentina, a escolha é sobretudo entre personalidades e estilos. Carlos Menem, presidente entre 1989 e 1999, é um político que lembra os bons tempos em que 1 peso valia 1 dólar, mas também o que há de mais populista na velha-guarda peronista. Seu adversário, Néstor Kirchner, é um obscuro governador de uma província com apenas 200.000 habitantes na Patagônia. Mas é mais jovem (53 contra 72 anos) e tem o passado mais leve. Nas primeiras pesquisas, Kirchner ganha fácil no segundo turno.

O candidato mais jovem tem duas coisas a seu favor. A primeira é o apoio do presidente Eduardo Duhalde, dono de um formidável curral eleitoral na província de Buenos Aires. A segunda é que ele inspira menos amor e menos ódio que Menem, cuja taxa de rejeição beira os 60%. Como presidente, Menem realizou reformas importantes que permitiram quase dez anos de bonança econômica. Mas os argentinos não perdoam os escândalos de corrupção que marcaram seu governo. Em 2001, Menem esteve seis meses em prisão domiciliar, acusado de tráfico de armas. O pior de tudo é sua parcela de responsabilidade no colapso econômico que ocorreu no governo de seu sucessor, Fernando de la Rúa. Eleito pelo voto de rejeição a Menem, De la Rúa foi um fiasco e renunciou em meio a protestos populares. Kirchner apresenta-se como representante da ala social-democrata do peronismo – em oposição a Menem, que foi um dos porta-bandeiras das reformas neoliberais da década passada e hoje seria o candidato conservador. É difícil dizer o que significa exatamente ser social-democrata nesse caso. Com certeza não se trata do socialismo light, comprometido com as regras do capitalismo moderno que existe na Europa. O partido criado pelo ditador Domingo Perón tem como base de sua estrutura de poder um enorme aparato assistencialista, que sobrecarrega o Tesouro nacional e facilita a corrupção e o populismo.


AP
Menem e Cecilia Bolocco: ela foi miss Universo

É difícil acreditar que caudilhos peronistas tão comprometidos com as regras do jogo possam mudar de hábitos. Kirchner é um político de pouco carisma, mas tem fama de ser honesto e bom administrador. Nisso é bem diferente de Menem. Em outros aspectos, contudo, é bem parecido com o ex-presidente. Ambos vêm de províncias minúsculas, recordistas em número de funcionários públicos (em Santa Cruz, onde Kirchner governa, os servidores são 10% dos habitantes). Nas duas, o Estado é tudo: o empregador, o empresário, a fonte de bem-estar. Como ocorria no governo Menem, a família de Kirchner ocupa postos-chave na administração. Santa Cruz é uma província rica em petróleo, com renda per capita que é o dobro da média argentina. O governador mantém mais de 500 milhões de dólares de dinheiro público em contas num banco americano com sede em Luxemburgo. Apesar de poder manter as contas em dia e fazer investimento usando apenas os juros dessas aplicações, ele não conseguiu cumprir a promessa de diversificar a economia local.

O próximo presidente argentino terá uma série de enormes desafios. A situação econômica do país parou de piorar, mas está longe de ser saudável. Ele vai precisar conquistar a confiança dos investidores estrangeiros e renegociar o acordo com o Fundo Monetário Internacional – isso só para começar a pensar em reverter o empobrecimento vertiginoso de mais da metade da população. Também precisará reformar as instituições, incluindo o sistema judiciário. Vai ter, ainda, de dar um jeito nas regras do jogo político, que foram tão remendadas ao bel-prazer dos caudilhos que hoje permitem absurdos, como dois candidatos presidenciais do mesmo partido. Uma preocupação brasileira é a atitude do próximo presidente em relação ao Mercosul. Seja qual for o eleito, é quase certo que o Brasil terá um sócio problemático.

Menem dá prioridade às relações com os Estados Unidos. Se for preciso escolher, pula fora do Mercosul para entrar na Alca, a zona de livre comércio das Américas. Não seria surpresa se ele aproveitasse eventuais deslizes da política externa petista, como os flertes com o venezuelano Hugo Chávez, a omissão diante da ditadura cubana e da guerrilha colombiana, para se apresentar em Washington como o legítimo defensor dos interesses de George W. Bush na América do Sul. Mas nem tudo é preto no branco nesse assunto. A experiência mostra que Menem é pragmático em relações internacionais – se o alinhamento automático com os Estados Unidos não der boas recompensas, é quase certo que ele aparecerá em Brasília com planos para fortalecer o comércio bilateral. Kirchner, por sua vez, diz que revitalizará o Mercosul. Mas também promete uma política supernacionalista de proteção do mercado interno, o que pode muito bem acabar em conflito com os interesses comerciais do Brasil. "Ainda que defenda o Mercosul, Kirchner perdeu várias oportunidades de conhecer Lula e já se manifestou contra a venda de empresas de setores 'estratégicos', especificamente em relação aos investimentos da Petrobras na Argentina", observa o analista político argentino Rosendo Fraga.

Com a apatia gerada pela falta de uma verdadeira disputa de idéias, a imprensa tem concentrado suas atenções nas candidatas a primeira-dama. Desde Evita Perón, que depois de morta virou santa do peronismo, esse é um assunto político na Argentina. A disputa desta vez envolve duas mulheres muito bonitas. A esposa de Kirchner, Cristina, é a senadora mais popular do país. Bem articulada e briguenta, possui carisma incomparavelmente maior que o do marido. A rival, Cecilia Bolocco, foi miss Universo e sobe nos palanques com Menem. As primeiras-damas ocupam as capas das revistas. Já as listas de best-sellers são dominadas por livros sobre a história da Argentina e ensaios que tentam explicar desde a crise econômica até a psicologia no país. Os argentinos procuram entender por que, apesar de tantos governos desastrados, continuam a eleger o mesmo tipo de político.

 
 
   
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