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Entre Perón
e Perón
Argentinos
vão escolher entre dois
peronistas no segundo turno

Raul Juste
Lores, de Buenos Aires
AP
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| Kirchner
e Cristina: ela é a senadora mais popular do país |
A Argentina
é mesmo um caso único. Os peronistas, que dominam o cenário
político desde os anos 50, concorreram com três candidatos
no primeiro turno das eleições presidenciais e, dessa forma,
transformaram o pleito, realizado no domingo 27, numa espécie de
primária do partido. Para tornar essas eleições ainda
mais estranhas, os candidatos que vão disputar o segundo turno,
no dia 18, são ambos peronistas. Como os argentinos devem fazer
para escolher entre dois políticos do mesmo partido? Seria fácil
se as diferenças ideológicas entre os dois fossem profundas
como as que separam moderados e radicais no PT brasileiro. Não
é assim. Na Argentina, a escolha é sobretudo entre personalidades
e estilos. Carlos Menem, presidente entre 1989 e 1999, é um político
que lembra os bons tempos em que 1 peso valia 1 dólar, mas também
o que há de mais populista na velha-guarda peronista. Seu adversário,
Néstor Kirchner, é um obscuro governador de uma província
com apenas 200.000 habitantes na Patagônia.
Mas é mais jovem (53 contra 72 anos) e tem o passado mais leve.
Nas primeiras pesquisas, Kirchner ganha fácil no segundo turno.
O candidato
mais jovem tem duas coisas a seu favor. A primeira é o apoio do
presidente Eduardo Duhalde, dono de um formidável curral eleitoral
na província de Buenos Aires. A segunda é que ele inspira
menos amor e menos ódio que Menem, cuja taxa de rejeição
beira os 60%. Como presidente, Menem realizou reformas importantes que
permitiram quase dez anos de bonança econômica. Mas os argentinos
não perdoam os escândalos de corrupção que
marcaram seu governo. Em 2001, Menem esteve seis meses em prisão
domiciliar, acusado de tráfico de armas. O pior de tudo é
sua parcela de responsabilidade no colapso econômico que ocorreu
no governo de seu sucessor, Fernando de la Rúa. Eleito pelo voto
de rejeição a Menem, De la Rúa foi um fiasco e renunciou
em meio a protestos populares. Kirchner apresenta-se como representante
da ala social-democrata do peronismo em oposição
a Menem, que foi um dos porta-bandeiras das reformas neoliberais da década
passada e hoje seria o candidato conservador. É difícil
dizer o que significa exatamente ser social-democrata nesse caso. Com
certeza não se trata do socialismo light, comprometido com as regras
do capitalismo moderno que existe na Europa. O partido criado pelo ditador
Domingo Perón tem como base de sua estrutura de poder um enorme
aparato assistencialista, que sobrecarrega o Tesouro nacional e facilita
a corrupção e o populismo.
AP
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| Menem
e Cecilia Bolocco: ela foi miss Universo |
É
difícil acreditar que caudilhos peronistas tão comprometidos
com as regras do jogo possam mudar de hábitos. Kirchner é
um político de pouco carisma, mas tem fama de ser honesto e bom
administrador. Nisso é bem diferente de Menem. Em outros aspectos,
contudo, é bem parecido com o ex-presidente. Ambos vêm de
províncias minúsculas, recordistas em número de funcionários
públicos (em Santa Cruz, onde Kirchner governa, os servidores são
10% dos habitantes). Nas duas, o Estado é tudo: o empregador, o
empresário, a fonte de bem-estar. Como ocorria no governo Menem,
a família de Kirchner ocupa postos-chave na administração.
Santa Cruz é uma província rica em petróleo, com
renda per capita que é o dobro da média argentina. O governador
mantém mais de 500 milhões de dólares de dinheiro
público em contas num banco americano com sede em Luxemburgo. Apesar
de poder manter as contas em dia e fazer investimento usando apenas os
juros dessas aplicações, ele não conseguiu cumprir
a promessa de diversificar a economia local.
O próximo
presidente argentino terá uma série de enormes desafios.
A situação econômica do país parou de piorar,
mas está longe de ser saudável. Ele vai precisar conquistar
a confiança dos investidores estrangeiros e renegociar o acordo
com o Fundo Monetário Internacional isso só para
começar a pensar em reverter o empobrecimento vertiginoso de mais
da metade da população. Também precisará reformar
as instituições, incluindo o sistema judiciário.
Vai ter, ainda, de dar um jeito nas regras do jogo político, que
foram tão remendadas ao bel-prazer dos caudilhos que hoje permitem
absurdos, como dois candidatos presidenciais do mesmo partido. Uma preocupação
brasileira é a atitude do próximo presidente em relação
ao Mercosul. Seja qual for o eleito, é quase certo que o Brasil
terá um sócio problemático.
Menem dá
prioridade às relações com os Estados Unidos. Se
for preciso escolher, pula fora do Mercosul para entrar na Alca, a zona
de livre comércio das Américas. Não seria surpresa
se ele aproveitasse eventuais deslizes da política externa petista,
como os flertes com o venezuelano Hugo Chávez, a omissão
diante da ditadura cubana e da guerrilha colombiana, para se apresentar
em Washington como o legítimo defensor dos interesses de George
W. Bush na América do Sul. Mas nem tudo é preto no branco
nesse assunto. A experiência mostra que Menem é pragmático
em relações internacionais se o alinhamento automático
com os Estados Unidos não der boas recompensas, é quase
certo que ele aparecerá em Brasília com planos para fortalecer
o comércio bilateral. Kirchner, por sua vez, diz que revitalizará
o Mercosul. Mas também promete uma política supernacionalista
de proteção do mercado interno, o que pode muito bem acabar
em conflito com os interesses comerciais do Brasil. "Ainda que defenda
o Mercosul, Kirchner perdeu várias oportunidades de conhecer Lula
e já se manifestou contra a venda de empresas de setores 'estratégicos',
especificamente em relação aos investimentos da Petrobras
na Argentina", observa o analista político argentino Rosendo Fraga.
Com a apatia
gerada pela falta de uma verdadeira disputa de idéias, a imprensa
tem concentrado suas atenções nas candidatas a primeira-dama.
Desde Evita Perón, que depois de morta virou santa do peronismo,
esse é um assunto político na Argentina. A disputa desta
vez envolve duas mulheres muito bonitas. A esposa de Kirchner, Cristina,
é a senadora mais popular do país. Bem articulada e briguenta,
possui carisma incomparavelmente maior que o do marido. A rival, Cecilia
Bolocco, foi miss Universo e sobe nos palanques com Menem. As primeiras-damas
ocupam as capas das revistas. Já as listas de best-sellers são
dominadas por livros sobre a história da Argentina e ensaios que
tentam explicar desde a crise econômica até a psicologia
no país. Os argentinos procuram entender por que, apesar de tantos
governos desastrados, continuam a eleger o mesmo tipo de político.
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