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"Os policiais que produzem bons resultados devem ser premiados, receber bônus gordos em dinheiro" |
Depois de uma carreira brilhante de promotor em que acabou com o poder da Máfia em Nova York, Rudolph ("Rudy") W. Giuliani, 58 anos, tornou-se prefeito da cidade em 1994. Tomou posse à meia-noite de 1º de janeiro e, às 3 da madrugada, já estava num hospital visitando dois policiais feridos em confrontos com bandidos. O que parecia demagogia de prefeito recém-eleito transformou-se na marca registrada de um dos mais bem-sucedidos homens públicos dos Estados Unidos em todos os tempos. Reeleito em 1997, Giuliani foi durante oito anos um líder onipresente, vigilante e autoritário na maior metrópole americana. Sob seu comando o crime desabou, áreas antes dominadas pelo tráfico de drogas e pela prostituição, como a famosa Times Square, foram saneadas, iluminadas e devolvidas à cidade como pontos de atração turística. A mística de Giuliani, cujo novo livro, O Líder, foi recentemente publicado no Brasil, chegou a seu ponto máximo após os ataques terroristas às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001. Sua firmeza e sua serenidade renderam-lhe uma comparação com o primeiro-ministro britânico Winston Churchill na Londres bombardeada pelos nazistas. Giuliani falou a VEJA no escritório da Giuliani Partners, empresa de consultoria em segurança e administração de crise que criou depois de sair da prefeitura de Nova York.
Veja
Como promotor e prefeito o senhor fez uma bela faxina em Nova York.
Sua receita de tolerância zero contra o crime, as drogas e a prostituição
é aplicável nas capitais pobres do Terceiro Mundo?
Giuliani Sim.
O primeiro passo é ter em mente que a cidade pode melhorar. A pior
atitude de uma sociedade é dizer que "não podemos fazer
nada para sair dessa situação". O segundo passo é
saber que não é possível acabar totalmente com todos
os tipos de crime. A filosofia que adotamos foi que os pequenos crimes
não podem ser tolerados para que não sirvam de terreno fértil
para os grandes criminosos. Decidimos simplesmente que não deixaríamos
nossa cidade nas mãos de traficantes, ladrões e prostitutas.
A expressão "tolerância zero" não se aplica muito
ao que fizemos em Nova York. Prefiro a teoria que chamamos de "janela
quebrada" ou seja, uma casa com um rombo na vidraça é
convite para que seja alvo de crimes mais graves. Portanto, decidimos
que tentaríamos sempre, em qualquer ocasião, impedir as
"janelas quebradas", ou seja, prevenir os crimes menos perigosos mas muito
visíveis.
Veja
Como passar da teoria à prática?
Giuliani Cobrar
resultados dos policiais é essencial. Deve-se computar não
o número de prisões feitas, mas quanto cada policial conseguiu
reduzir os crimes em sua área geográfica de atuação.
Caso não se obtenha o resultado esperado, é preciso investigar
a razão do fracasso. A resposta pode ser que os policiais não
estão fazendo o que devem por incompetência ou corrupção,
o que do ponto de vista de prejuízo ao cidadão dá
no mesmo. Se for corrupção, o que se tem a fazer é
tirar o corrupto do sistema policial. Se for incompetência, é
necessário afastá-lo das ruas.
Veja
No Brasil, o policial tende a ser uma pessoa excluída de outros
mercados de trabalho, que recebe salários que não compensam
os riscos impostos pela profissão. Como resolver isso?
Giuliani
Na Cidade do México, para a qual estou dando consultoria atualmente,
a melhor resposta que estamos obtendo é com o pagamento de incentivo
aos bons policiais. Isso deve funcionar também no Brasil. Paguem
mais àqueles que estejam exercendo bem sua tarefa. Ao mesmo tempo,
esforcem-se em descobrir quais são os corruptos. Eles precisam
ser eliminados da corporação. Por mais disseminada que esteja
a corrupção, sempre haverá policiais honestos. É
fácil identificá-los. Eles são os que produzem melhores
resultados práticos. É preciso criar prêmios para
esses bons soldados. Eles devem receber bônus gordos em dinheiro.
Veja
Mas como combater a corrupção quando a maioria dos policiais
e de seus chefes é de corruptos?
Giuliani Montamos
uma "operação de negócios internos" na própria
polícia com os indivíduos que sabemos ser honestos na Cidade
do México. Essa força monitora a operação
dos demais policiais. Em Nova York tínhamos uma equipe de monitoramento
com centenas deles. Um grupo desses talvez não seja capaz de eliminar
a corrupção, mas poderá reduzi-la drasticamente ao
restringir o número de policiais corruptos em ação.
Veja
O presidente Lula reconheceu publicamente, há duas semanas,
que o crime organizado se infiltrou no sistema judiciário, entre
políticos e empresários brasileiros. O que fazer em uma
situação assim?
Giuliani
Quando se chega a esse ponto a saída é desenvolver uma nova
força policial especializada em atacar o crime organizado. Um bom
modelo é o que o FBI fez nos Estados Unidos há vinte anos.
Um exemplo ainda mais adequado talvez seja o adotado pela Itália
para desmantelar a Máfia na década de 80. O governo italiano
teve de reconstituir a força policial, adotar novas diretrizes,
trazer gente nova e, além disso, contou com a adesão de
um grupo de magistrados honestos. O fundamental é identificar as
pessoas honestas e trabalhar com elas.
Veja
Como evitar a violência policial?
Giuliani
Condenando os infratores. Policiais que em minha administração
foram acusados de torturar um imigrante estão na cadeia cumprindo
longa sentença. Para evitar erros terríveis como esse é
preciso treinar a polícia da melhor maneira possível. Isso
é crucial para reduzir negligências, erros e acidentes. Em
um grupo de 41 000 policiais, sempre haverá, no entanto, pessoas
más. Isso faz parte da natureza humana.
Veja
Como os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 modificaram o
senhor pessoalmente?
Giuliani Eu
fiquei muito mais consciente da fragilidade da vida humana, da importância
dos relacionamentos e da necessidade de ter e cultivar amizades sólidas.
Também me conscientizei da necessidade de defender a democracia.
Não podemos mais acreditar que a democracia exista naturalmente.
Ela precisa ser defendida. A liberdade política e religiosa e as
oportunidades econômicas que as pessoas desfrutam nos Estados Unidos
são conquistas pelas quais temos de estar dispostos a lutar. Pelo
que vimos em 11 de setembro, sempre haverá gente disposta a destruir
essas conquistas.
Veja
O senhor já disse que a batalha contra o câncer
de próstata teve mais impacto sobre sua vida que os ataques terroristas.
De que maneira?
Giuliani
O câncer veio primeiro. Lidar com a doença me colocou num
enquadramento filosófico que me deu suporte para lidar com o 11
de setembro fui obrigado a encarar a mortalidade. Tive câncer,
meu pai morreu de câncer. Quando passamos por isso, vivemos todos
os medos. A doença me fortaleceu. Então, quando veio o 11
de setembro e passei por tudo aquilo, eu já possuía uma
compreensão maior da mortalidade, o que me ajudou a ter uma empatia
maior pelas vítimas dos eventos que presenciei.
Veja
Após uma breve onda de compaixão pelos Estados Unidos
em seguida aos ataques, o sentimento antiamericano tem crescido em diversas
partes do mundo. A que o senhor atribui esse sentimento?
Giuliani
O antiamericanismo é fruto de preconceito, de estereótipos.
Somos um país com enorme devoção à liberdade
e à democracia. Não temos intenção de controlar
o mundo. Não temos colônias, nunca as tivemos e não
queremos tê-las agora. Não podemos ser descritos como imperialistas
porque nossas ações externas resultam em garantir a autodeterminação
dos povos. Isso para nós é uma garantia de paz. A multiplicação
das democracias pelo mundo serve a nossos interesses nacionais. As democracias
se estruturam de maneira ordenada, são capazes de suportar a discordância
e de chegar à conciliação. O risco real para o mundo
são os regimes totalitários, absolutistas, com líderes
que oprimem seus povos e patrocinam o terrorismo. Os Estados Unidos são
um experimento social aberto que atrai mais imigrantes que qualquer outra
nação do planeta.
Veja
Por quê?
Giuliani As
pessoas vêm em busca de liberdade, oportunidades econômicas
e respeito pelos direitos individuais. Eram esses valores que meu avô
buscava quando veio da Itália para os Estados Unidos. Na virada
do século XIX para o XX, dizia-se com exagero que os Estados Unidos
tinham ruas pavimentadas com ouro. Quando desembarcaram aqui, os imigrantes
viam que a situação não era bem assim. Mas, com o
passar do tempo e as oportunidades de trabalho, milhões deles alcançaram
o sucesso que tanto almejavam. E continua sendo assim.
Veja
O senhor acredita que as relações dos Estados Unidos
com França, Alemanha e Rússia, abaladas por causa da guerra
no Iraque, voltarão ao normal?
Giuliani
Nossas alianças e amizades com esses países são mais
fortes que a discordância sobre um aspecto em particular. A relação
com a França é bastante antiga. Compartilhamos uma longa
história de democracia, o que nos dá o direito de discordar
um do outro. Até nos Estados Unidos discordamos entre nós.
As pessoas enxergam o mundo de maneiras distintas. Fui a favor da guerra
no Iraque, achei-a necessária e acredito que ela teve um resultado
muito bom. O presidente George W. Bush lidou com essa situação
melhor do que qualquer pessoa pudesse antecipar. Nossos amigos no mundo
têm todo o direito de discordar da maneira como Bush agiu e ainda
assim continuar sendo nossos amigos. Acho que logo, na nossa relação
com a França, a Alemanha e a Rússia, vão predominar
as questões sobre as quais concordamos.
Veja
Os Estados Unidos podem ser tão bem-sucedidos na tarefa de reconstruir
o Iraque quanto o foram na invasão militar?
Giuliani
Temos um ótimo histórico como construtores de nações.
Basta lembrar o exemplo do Japão e da Alemanha depois da II Guerra
Mundial. Ajudamos muito esses países a desenvolver democracias,
governos fortes e bem-sucedidos.
Veja
Qual o desafio imediato dos americanos no Iraque agora que a etapa
militar foi superada?
Giuliani
Desenvolver instituições democráticas. Uma vez que
elas estejam estabelecidas, será imperativo colocar o poder nas
mãos dos iraquianos. Isso é o que entendemos por democracia,
o regime em que as pessoas decidem como querem ser governadas. Quanto
ao tempo em que devemos permanecer por lá, a questão é
mais complexa. Não podemos ficar além do necessário,
mas permanecer o suficiente para que as instituições democráticas
se consolidem e afastem o fantasma do passado totalitário. Isso
vai exigir sabedoria e um apurado senso de cálculo de nossa parte
para saber o exato momento da retirada.
Veja
Logo depois dos ataques terroristas de 2001, o senhor disse que Nova
York sairia da crise como uma cidade ainda melhor. Nova York é
uma cidade melhor hoje?
Giuliani
Nova York está espiritualmente mais forte. Foi isso que eu quis
dizer naqueles dias. A cidade teve de lidar com o pior ataque da história
do país e precisou buscar maneiras de sobreviver. Ao não
se deixar destruir, Nova York sobreviveu, cresceu e vai continuar a crescer
em todos os sentidos. A força de espírito das pessoas desta
cidade é incrível. Os nova-iorquinos ainda estão
feridos por causa do ataque terrorista. As pessoas na cidade sabem avaliar
a monstruosidade do episódio. Mas sabem também que devem
ser fortes, seguir em frente e garantir uma vida melhor para elas e para
seus filhos.
Veja
Os Estados Unidos voltarão a ser o mesmo país de antes
dos ataques terroristas?
Giuliani Não.
Este país nunca mais será o mesmo. A consciência dos
perigos a que estamos expostos não vai se dissipar nunca mais.
Veja
Até que ponto o governo americano pode interferir na privacidade
das pessoas para combater o terrorismo sem sacrificar a tolerância
e a liberdade, justamente as qualidades que fizeram dos Estados Unidos
um grande país?
Giuliani
Não acho que a liberdade tenha de ser afetada em nenhum aspecto
essencial em benefício de nossa segurança. Acredito que
a liberdade de eleger nossos governantes, de seguir uma religião,
a liberdade de expressão e o respeito pelos direitos humanos continuarão
intactos. Por outro lado, admito que tentaremos saber tudo o que pudermos
sobre as pessoas que chegam a este país. De fato, isso terá
algum impacto sobre a liberdade dos visitantes e imigrantes. Mas essas
ações são necessárias e não vão
afetar fundamentalmente a vida das pessoas. A orientação
geral dos Estados Unidos também não muda. Continuamos querendo
atrair imigrantes e visitantes, desejamos que os americanos permaneçam
abertos e receptivos. Mas isso não significa que estaremos desprevenidos.
Veja
Como foi ser prefeito de uma cidade com a diversidade étnica,
cultural, religiosa e social de Nova York?
Giuliani
A diversidade nos força a aprender mais sobre os variados grupos.
Temos de gostar de gente de todo tipo e não temer as diferenças.
Numa cidade como Nova York, onde a todo momento lidamos com pessoas de
origens distintas, acabamos descobrindo que nas relações
humanas existem mais similaridades que diferenças. Os indivíduos,
no fundo, seja de que nacionalidade forem, são movidos pelas mesmas
necessidades básicas.
Veja
Além de assistir às partidas dos Yankees (time de beisebol
de Nova York), o que o senhor mais gosta de fazer na cidade?
Giuliani Adoro
andar pelas ruas. Temos a melhor cidade do mundo para caminhar. Você
é capaz de dar uma volta ao mundo somente andando a pé por
Nova York. A cidade exerce sobre mim um fascínio sem fim. A ópera
é outra paixão. Já sonhei em ser o dirigente do Metropolitan
Opera.
Veja
O senhor ainda tem planos na política, como concorrer à
Presidência dos Estados Unidos?
Giuliani
Não tenho planos políticos, mas certamente tenho opções
políticas. Talvez eu queira concorrer no futuro, mas não
tenho nenhum plano concreto no presente.
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