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Sérgio
Abranches
Fratura
exposta
"Capaz
de conquistar 60,4% dos
votos soma da votação de Menem,
Kirchner e Saá , o peronismo não
conseguiu unir-se em torno de uma
liderança só. Uma
divisão de
tal
proporção que as partes podem
não conseguir soldar-se novamente"
A maioria dos analistas políticos argentinos abandonou as probabilidades
e dá como certa a vitória de Néstor Kirchner no segundo
turno das eleições presidenciais, no próximo dia
18. As pesquisas de intenção de voto para o segundo turno
parecem confirmar essa convicção: dão a ele vantagem
de 60% contra 30% de Carlos Menem.
Ilustração Ale Setti
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A imprensa argentina se pergunta se Menem repetirá o ultradireitista
Jean-Marie Le Pen, na França. Ele foi para o segundo turno à
frente de Jacques Chirac (19,9% a 16,4%) e levou uma surra. Chirac ganhou
com 82,2% dos votos. Quem fala de "lepenização" acredita
que o segundo turno será um plebiscito sobre Menem, e não
só a decisão da interna peronista, que terminou inconclusa.
Por isso, três candidatos do Partido Justicialista (PJ) estavam
no primeiro turno. Com uma rejeição que beira os 60%, o
ex-presidente teria poucas chances de aprovação nesse plebiscito.
A votação que obteve, 24,36%, contra 22% para Kirchner,
não lhe augura bem: em 1995, garantiu 49,5% dos votos.
O país se dividiu, para além do bipartidarismo que opunha
historicamente o Partido Justicialista e a União Cívica
Radical. Menem e Kirchner não obtiveram mais que 46% dos votos.
Significa dizer que não conseguiram o apoio de 54% do eleitorado.
O peronismo, entretanto, obteve a primeira colocação nas
23 províncias, só perdendo, para o ex-ministro López
Murphy, na capital federal. Menem ficou na frente em onze províncias,
no centro e no norte do país. Kirchner, apoiado pelo presidente
Eduardo Duhalde, foi o mais votado em sete, quatro no sul, duas no norte
e a decisiva Grande Buenos Aires, que controla 38% dos votos do país.
Nas demais, deu Rodriguez Saá. Nenhum presidente se elegeu, até
hoje, sem ter ganhado na província dominante. Outra vantagem para
Kirchner. Embora nenhum dos dois candidatos seja de Buenos Aires, Duhalde,
padrinho de Kirchner, é.
O peronismo sofre de fratura exposta de grande gravidade. Capaz de conquistar
60,4% dos votos soma da votação de Menem, Kirchner
e Saá , não conseguiu unir-se em torno de uma liderança
só. Uma divisão de tal proporção que as partes
podem não conseguir soldar-se novamente. Pior ainda: além
de um plebiscito sobre Menem, o segundo turno será uma disputa
pelo controle do partido entre ele e Duhalde, os dois caudilhos do justicialismo
contemporâneo. Caberá ao vencedor tentar juntar os cacos
do peronismo, de novo, porque o peronismo parece ser, como Juan Domingo
Perón, seu fundador, uma legenda imortal: sempre a ressurgir para
assombrar ou resgatar a governabilidade argentina. Em 1999, não
conseguiu mais que 40% dos votos. Agora virou o jogo, e os não-peronistas
é que não passaram dos 40%.
A máquina peronista, ainda que disparatada, segue sendo eficiente.
Foi ela que paralisou as greves, dando ao presidente Duhalde a trégua
de que precisava para realizar eleições em clima de paz
e sem o voto bronca, que foi irrisório. De quebra, rendeu-lhe a
popularidade necessária para alavancar a pálida candidatura
de Kirchner. Foi ela, também, que levou os dois peronistas ao segundo
turno. O ex-presidente contou com a máquina do interior, dos grotões
argentinos, exceto os da Patagônia, que ficaram com Kirchner. Este
teve a seu favor a máquina da província de Buenos Aires,
controlada por Duhalde. Foi nela que conseguiu reduzir a diferença
entre eles para meros 2 pontos porcentuais. Agora, ele ganhou o apoio
da "CGT oficial" existe a não-oficial , que controla
a maioria do aparato sindical peronista.
Se Kirchner vencer, manterá o ministro da Economia, Roberto Lavagna,
e Duhalde continuará a exercer poder no peronismo e influência
no governo. O "Negro", seu apelido na Argentina todos têm
apelido , tentará tomar de Menem a parcela da máquina
que o ex-presidente controla. Pode aprofundar a fratura do peronismo e,
no futuro, entrar em concorrência com o novo presidente. A governabilidade
dependerá, crucialmente, dos efeitos desse conflito no comportamento
do PJ no Congresso e no alinhamento dos governadores peronistas em relação
aos rivais em disputa. Menem está prometendo equipe nova e conversa
com o consultor econômico Carlos Melconian, que defende um "capitalismo
progressista", expressão que não esconde os tons nitidamente
neoliberais de sua visão econômica. Pode ser seu ministro
da Economia.
Economicamente, o fato de o país estar no fundo do poço
vai ajudar. O desempenho, em condições normais, não
pode ser pior do que nos últimos dois anos. A principal tarefa
do próximo presidente e de seu ministro da Economia será
tirar a Argentina da moratória e iniciar a penosa trajetória
de reconstrução da confiança. Para isso, precisará
eliminar os obstáculos à mudança no Congresso, coisa
que Menem e o ex-presidente Fernando de la Rúa não conseguiram
e Duhalde nem sequer tentou. Um desafio radical.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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