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Edição 1 801 - 7 de maio de 2003
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Sérgio Abranches

Fratura exposta

"Capaz de conquistar 60,4% dos
votos – soma da votação de Menem,
Kirchner e Saá –, o peronismo não
conseguiu unir-se em torno de
uma
liderança só.
Uma divisão de tal
proporção que as partes podem
não conseguir soldar-se
novamente"

A maioria dos analistas políticos argentinos abandonou as probabilidades e dá como certa a vitória de Néstor Kirchner no segundo turno das eleições presidenciais, no próximo dia 18. As pesquisas de intenção de voto para o segundo turno parecem confirmar essa convicção: dão a ele vantagem de 60% contra 30% de Carlos Menem.

Ilustração Ale Setti


A imprensa argentina se pergunta se Menem repetirá o ultradireitista Jean-Marie Le Pen, na França. Ele foi para o segundo turno à frente de Jacques Chirac (19,9% a 16,4%) e levou uma surra. Chirac ganhou com 82,2% dos votos. Quem fala de "lepenização" acredita que o segundo turno será um plebiscito sobre Menem, e não só a decisão da interna peronista, que terminou inconclusa. Por isso, três candidatos do Partido Justicialista (PJ) estavam no primeiro turno. Com uma rejeição que beira os 60%, o ex-presidente teria poucas chances de aprovação nesse plebiscito. A votação que obteve, 24,36%, contra 22% para Kirchner, não lhe augura bem: em 1995, garantiu 49,5% dos votos.

O país se dividiu, para além do bipartidarismo que opunha historicamente o Partido Justicialista e a União Cívica Radical. Menem e Kirchner não obtiveram mais que 46% dos votos. Significa dizer que não conseguiram o apoio de 54% do eleitorado. O peronismo, entretanto, obteve a primeira colocação nas 23 províncias, só perdendo, para o ex-ministro López Murphy, na capital federal. Menem ficou na frente em onze províncias, no centro e no norte do país. Kirchner, apoiado pelo presidente Eduardo Duhalde, foi o mais votado em sete, quatro no sul, duas no norte e a decisiva Grande Buenos Aires, que controla 38% dos votos do país. Nas demais, deu Rodriguez Saá. Nenhum presidente se elegeu, até hoje, sem ter ganhado na província dominante. Outra vantagem para Kirchner. Embora nenhum dos dois candidatos seja de Buenos Aires, Duhalde, padrinho de Kirchner, é.

O peronismo sofre de fratura exposta de grande gravidade. Capaz de conquistar 60,4% dos votos – soma da votação de Menem, Kirchner e Saá –, não conseguiu unir-se em torno de uma liderança só. Uma divisão de tal proporção que as partes podem não conseguir soldar-se novamente. Pior ainda: além de um plebiscito sobre Menem, o segundo turno será uma disputa pelo controle do partido entre ele e Duhalde, os dois caudilhos do justicialismo contemporâneo. Caberá ao vencedor tentar juntar os cacos do peronismo, de novo, porque o peronismo parece ser, como Juan Domingo Perón, seu fundador, uma legenda imortal: sempre a ressurgir para assombrar ou resgatar a governabilidade argentina. Em 1999, não conseguiu mais que 40% dos votos. Agora virou o jogo, e os não-peronistas é que não passaram dos 40%.

A máquina peronista, ainda que disparatada, segue sendo eficiente. Foi ela que paralisou as greves, dando ao presidente Duhalde a trégua de que precisava para realizar eleições em clima de paz e sem o voto bronca, que foi irrisório. De quebra, rendeu-lhe a popularidade necessária para alavancar a pálida candidatura de Kirchner. Foi ela, também, que levou os dois peronistas ao segundo turno. O ex-presidente contou com a máquina do interior, dos grotões argentinos, exceto os da Patagônia, que ficaram com Kirchner. Este teve a seu favor a máquina da província de Buenos Aires, controlada por Duhalde. Foi nela que conseguiu reduzir a diferença entre eles para meros 2 pontos porcentuais. Agora, ele ganhou o apoio da "CGT oficial" – existe a não-oficial –, que controla a maioria do aparato sindical peronista.

Se Kirchner vencer, manterá o ministro da Economia, Roberto Lavagna, e Duhalde continuará a exercer poder no peronismo e influência no governo. O "Negro", seu apelido – na Argentina todos têm apelido –, tentará tomar de Menem a parcela da máquina que o ex-presidente controla. Pode aprofundar a fratura do peronismo e, no futuro, entrar em concorrência com o novo presidente. A governabilidade dependerá, crucialmente, dos efeitos desse conflito no comportamento do PJ no Congresso e no alinhamento dos governadores peronistas em relação aos rivais em disputa. Menem está prometendo equipe nova e conversa com o consultor econômico Carlos Melconian, que defende um "capitalismo progressista", expressão que não esconde os tons nitidamente neoliberais de sua visão econômica. Pode ser seu ministro da Economia.

Economicamente, o fato de o país estar no fundo do poço vai ajudar. O desempenho, em condições normais, não pode ser pior do que nos últimos dois anos. A principal tarefa do próximo presidente e de seu ministro da Economia será tirar a Argentina da moratória e iniciar a penosa trajetória de reconstrução da confiança. Para isso, precisará eliminar os obstáculos à mudança no Congresso, coisa que Menem e o ex-presidente Fernando de la Rúa não conseguiram e Duhalde nem sequer tentou. Um desafio radical.

 

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)


 
 
   
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