Carrascos da mata

O Ibama identifica os dez maiores
desmatadores da Amazônia,
líderes de um processo que,
em trinta anos, devastou na região
uma área de floresta
equivalente à da França

Klester Cavalcanti, de Alta Floresta, e Alexandre Mansur, de Redenção

Fotos: Janduari Simões

O bote mortal contra a Amazônia é armado na moita. Primeiro, o fazendeiro contrata uma madeireira para arrancar o mogno de suas terras. Depois, vende outras árvores nobres, como a castanheira, o ipê e o cedro. A motosserra abre grandes clareiras na mata. Enfraquecida, a floresta sofre. A vegetação das bordas morre. Alguns fazendeiros mandam cortar também as madeiras brancas, usadas na fabricação de compensados e tábuas para a construção civil. Quando a floresta está esgotada, o fazendeiro dá o golpe final. Acende tochas feitas com pneus velhos e bota fogo. A mata arde por alguns dias. No momento em que o fogo se apaga, só restam cinzas e poucos troncos teimosos fincados como palitos na paisagem calcinada. À primeira chuva, o fazendeiro semeia o capim.

O que era Floresta Amazônica vira pastagem. A cena acima se repete aos milhares na Amazônia. É dessa maneira, com ligeiras variações, que a cada ano uma faixa de floresta equivalente a metade do Estado de Alagoas é exterminada. Foi assim que, nas três últimas décadas, o exuberante patrimônio vegetal brasileiro perdeu principalmente para o boi uma área maior que a da França.

Até bem pouco tempo atrás esse processo, embora conhecido, não tinha pai. Era visto como a ação de um formigueiro de sabotadores anônimos do futuro da floresta. Com a ajuda de fotos de satélites, mapas e batidas nas fazendas, o Ibama, órgão federal encarregado do meio ambiente, começa a produzir uma lista com o nome dos maiores agressores da mata (veja quadro ao lado). Na semana passada, os fiscais conseguiram identificar os dez donos das fazendas com as maiores áreas desmatadas entre meados de 1997 e meados de 1998. Todos ilegais. O Ibama ganhou um instrumento poderoso. Já não depende apenas de denúncias ou de raros flagrantes. Agora é possível deslocar uma equipe até o local indicado pelas fotos feitas do espaço, identificar o proprietário e autuá-lo. "A novidade nos permite ser muito mais eficazes. Tem início uma nova etapa na fiscalização dos desmatamentos", diz Rodolfo Lobo, chefe do departamento de fiscalização nacional do Ibama.

Estava passando da hora de virar o jogo. Nas últimas décadas a natureza na Amazônia vem colecionando derrotas para as queimadas, para a voracidade das serrarias, para a imensidão dos lagos das hidrelétricas e para as grandes pastagens. A Bacia Amazônica, regada por mais de 1.000 rios, resistiu relativamente bem às agressões até agora. Mas os analistas começam a achar que a imensa biodiversidade da Amazônia já emite os primeiros sinais de fadiga. Atacados por todos os lados, os milhões de espécies de pássaros, peixes, mamíferos, insetos e principalmente de plantas, que em variedade não têm rival no planeta, correm risco real. Segundo um levantamento internacional, de cada dez árvores que tombam pela ação do homem no planeta, uma está na Amazônia.

As investigações recentes do Ibama atacam o mal onde ele é mais resistente, a pecuária extensiva, aquela em que o boi é engordado solto na imensidão das pastagens, criado quase como animal selvagem. Nos municípios de Cumaru do Norte e Santana do Araguaia, no Pará, os grandes proprietários estão ampliando as pastagens para alimentar os abatedouros vizinhos. Foi essa demanda crescente que inspirou o oftalmologista goiano Canrobert Domingos da Costa, proprietário da Fazenda Sonho Meu, em Cumaru do Norte, a abrir no ano passado um quadrado de 2.770 hectares no meio da floresta e despejar ali 4.000 cabeças de gado. "Estamos tentando melhorar a vida da população", defende o fazendeiro, que não se lembrou de pedir autorização ao Ibama para derrubar a floresta. "A imprensa geralmente nos coloca como vilões. Mas quem está gerando empregos por aqui?", pergunta. Dono de uma clínica de cirurgia de olhos e funcionário de um hospital em Goiânia, o médico raramente vai à fazenda. Ele é o segundo colocado no Oscar da destruição produzido pelo Ibama.

O fazendeiro da foto acima, Sadi Bortolotti, transformou, em apenas um ano, a exuberante floresta que cobria sua propriedade na paisagem ressequida que se vê na foto acima. Ao devastar 2724 hectares, ele conquistou o terceiro lugar no ranking dos maiores desmatamentos do ano passado

Não é por acaso que oito dos dez maiores desmatadores flagrados pelo Ibama na investigação que terminou na semana passada são pecuaristas. Dos outros dois, um vai plantar arroz onde antes existia floresta. O outro ainda não sabe bem o que fazer com o deserto particular que produziu na região. Parte da madeira ele usou como matéria-prima de sua indústria de portas. Os devastadores têm enorme auto-indulgência. Não possuem noção de que são peças de uma gigantesca engrenagem de destruição que, imperturbavelmente, vai moendo a mata da mais rica floresta de clima tropical do mundo. Com tranqüilidade intrigante, o paranaense Sadi Bortolotti, ocupante do terceiro lugar na lista do Ibama, afirma que nada fez de errado. "Nunca derrubei uma árvore sequer", disse Bortolotti a VEJA. Ele se tornou conhecido na cidade de Tapurah, no norte do Mato Grosso, por ser ávido exterminador de florestas. Em catorze anos de atividade na selva, dizimou de tal forma a vida vegetal de sua fazenda que as fotos do satélite Landsat não conseguiram identificar uma única nesga de floresta na propriedade. Lá só tem troncos queimados.

Bortolotti e seus nove companheiros no ranking dos dez mais do Ibama são a ponta-de-lança de um processo que se espalha com regularidade espantosa por toda a Bacia Amazônica. Em Rondônia, investidas semelhantes no passado devastaram tanto o meio ambiente que o satélite não encontrou por lá, em 1998, nenhum sinal de desmatamento com mais de 1000 hectares. A razão é simples. As áreas contínuas de 1.000 hectares cerca de 1.000 campos de futebol cobertas de floresta que possam ser derrubadas e economicamente aproveitadas como pastagem são cada vez mais raras. O Estado teve 21% da superfície desmatada. Tudo que resta de floresta está em regiões montanhosas de difícil acesso ou tão distantes das cidades que não compensa criar boi ou plantar por lá.

A lista do Ibama mostra que o foco dos novos desmatamentos se deslocou para o norte de Mato Grosso e o sul do Pará, regiões onde a população cresce nas cidades e os meios de transporte são relativamente abundantes. Ou seja, o desmatamento ali pode tornar-se ainda pior do que a rapina de Rondônia. Tomada apenas como amostra do que se passa em toda a Amazônia, a atuação dos dez mais do Ibama é ainda mais preocupante. Juntos eles devastaram, em um ano, uma área de cerca de 270 quilômetros quadrados, cerca de 2% do total de floresta derrubada na Amazônia. O batalhão de fazendeiros, posseiros e madeireiros que ganha a vida à custa da natureza na região derrubou 13.000 quilômetros quadrados de árvores em apenas um ano. Isso significa que um latifúndio florestal equivalente à metade do Estado de Alagoas sucumbiu à motosserra e ao fogo. Tudo em apenas doze meses. A Amazônia merece destino mais grandioso.

Com apenas uma queimada, em 1997, o engenheiro agrônomo goiano Sérgio Seroni devastou 6500 hectares, 65% do total de sua fazenda. A área, onde hoje pastam 5000 bois, equivale ao tamanho da cidade paulista de Osasco, onde moram 622000 pessoas. Foi o maior desmatamento dos últimos três anos na Amazônia

A continuar o ritmo de destruição marcado pela cadência de seus dez maiores desmatadores, a floresta brasileira, um patrimônio universal, apressará sua marcha rumo ao colapso. Um bebê que nasça neste ano, quando se aposentar, poderá viver num mundo onde a Amazônia seja uma floresta em degeneração. Em cinqüenta anos, segundo os especialistas, a cobertura vegetal amazônica pode ter o tamanho reduzido em um quarto. Ocorre que não se arranca uma fatia desse tamanho da floresta sem que todo o complexo e frágil conjunto biológico sofra um baque. Cada árvore que vai leva junto um pedaço irrecuperável do ecossistema.

Essa é a hipótese catastrófica. Felizmente, a reação à devastação cresce na sociedade brasileira num ritmo ainda maior que o da derrubada das árvores. Ações como a do Ibama e a repulsa que gera no país o descaso com a Amazônia podem sobrepujar a tragédia. Antes que o declínio da floresta se torne irreversível, o país terá se levantado contra a destruição. Por enquanto a luta é desigual, mesmo porque justamente onde a consciência ecológica é mais necessária, na própria Amazônia, ela é mais rarefeita. Políticos, fiscais corruptos, grandes fazendeiros manipulam a opinião pública local para defender as práticas atrasadas da pecuária extensiva.

Enquanto todo o resto do Brasil condena a destruição da Floresta Amazônica, nos municípios em que fazendeiros e madeireiros dão as ordens a população vai às ruas em favor do desmatamento. Políticos, empresários e bóias-frias compartilham a mesma opinião. A portaria do Ibama que declarou moratória nos desmatamentos até o final de junho acirrou os ânimos até em Brasília. Mesmo sendo fácil burlá-la, a medida incomodou. O suplente de senador Eloi de Almeida (PMDB-MT) vocalizou o estado de ânimo predominante. "Se nosso desenvolvimento exige a derrubada da floresta, vamos derrubá-la", disse Almeida, durante um protesto realizado em Alta Floresta, há duas semanas. Instigados pelos vereadores e deputados, cerca de 5.000 agricultores e peões invadiram o aeroporto da cidade e impediram pousos e decolagens durante três horas. Apesar do tumulto, o movimento foi pacífico. Nem sempre é assim. Em agosto do ano passado, duas equipes do Ibama estavam em Tucumã, no Pará, fiscalizando o trabalho das serrarias. Como a madeira sustenta a economia do município, empresários e políticos incentivaram a população a expulsar o Ibama da cidade. Os fiscais só conseguiram sair dali escoltados por duas viaturas da Polícia Militar, depois de passar quatro horas escondidos na delegacia.

Fotos: Antonio Milena
Dono de uma clínica e oftalmologista de um hospital em Goiânia, Canrobert Domingos da Costa derrubou 2770 hectares de floresta para criar gado como investimento em sua fazenda no Pará. Tornou-se o segundo maior desmatador de 1998

A hostilidade contra o Ibama é generalizada nas regiões do desmatamento. Em várias cidades, hotéis e restaurantes se recusam a receber as equipes de fiscalização. Durante a Operação Macauã, no ano passado, oito agentes do órgão não foram aceitos nos hotéis de Redenção, no Pará, e os restaurantes se negaram a servi-los. A equipe abortou a operação, mas voltou duas semanas mais tarde com o reforço de vinte homens. "Mesmo assim, o trabalho foi realizado sob um clima muito tenso", conta o fiscal do Ibama Antônio Carlos Martins dos Santos. Para quem tenta impedir a devastação, as ameaças fazem parte da rotina. Rodolfo Lobo, do Ibama, já recebeu sessenta ameaças de morte. Constantemente ele muda o número do telefone. Em março do ano passado, o fiscal Isaías Coelho, de Marabá, foi morto por um pistoleiro numa tocaia. As primeiras investigações indicam que o matador foi contratado por um madeireiro. Dois meses depois, outro fiscal foi baleado na barriga durante uma operação em Roraima.

Fotos: Janduari Simões/Claudio Rossi

No norte de Mato Grosso desde o início dos anos 70, o paulista Edras Soares é um dos pioneiros do desmatamento na região. Apenas em 1998, derrubou 2590 hectares de árvores, o equivalente a 3000 campos de futebol. "Nosso trabalho é racional e consciente", afirma

Mesmo quando não enfrentam resistência a bala os fiscais têm dificuldade em chegar às glebas suspeitas. A BR-158, que liga a Fazenda Santa Maria da Boca do Monte ao resto do mundo, é uma sucessão de buracos cheios de lama por onde veículos comuns não passam na estação das chuvas. Para alcançar a sede da fazenda é preciso pegar uma estradinha secundária e trilhar 58 quilômetros de atoleiros e pontes de tábua no meio da selva. É uma propriedade isolada do município de Santana do Araguaia, no sul do Pará, quase na divisa com Mato Grosso. Ali naquele ermo, para expandir suas pastagens, no início de 1997, o dono da fazenda, Sérgio Seroni, não pensou duas vezes antes de mandar derrubar 6.500 hectares de floresta. É uma superfície maior que toda a Zona Sul do Rio de Janeiro coberta por árvores queimadas e troncos caídos. Seroni não sabia que estava fazendo o maior desmatamento dos últimos quatro anos na Amazônia. A história da Fazenda Santa Maria se repete em toda a região.

Foto: Antonio Milena

Manifestação a favor do desmatamento no aeroporto de
Alta
Floresta: unanimidade, do
senador ao peão

O ciclo da destruição começa em abril e maio, quando os fazendeiros procuram os empreiteiros, chamados "gatos", que contratam os trabalhadores para derrubar a floresta. No sul do Pará, um gato cobra 100 reais por hectare derrubado. O trabalho é organizado. Primeiro, os trabalhadores entram na floresta com foices, facões e motosserras para fazer o que chamam de brocagem. Eles cortam arbustos, cipós, galhos baixos e árvores pequenas, formando a chamada cama, uma camada de matéria orgânica seca de 2 a 3 metros de altura que vai ajudar a alimentar o fogo. Essa fase leva tempo. Depois que o terreno está pronto, é só esperar a estação da seca, de junho a setembro, para tocar fogo na mata. Aproveitando que o solo está coberto pelas cinzas, em outubro, os fazendeiros preparam o primeiro pasto, despejando de avião sementes de capim. No ano seguinte, em maio, o capim brota viçoso.

Um desmatamento clandestino grande é como uma operação de guerra. Na Fazenda Mata Verde, no município mato-grossense de Vila Rica, centenas de homens começaram a desmatar uma porção de floresta no final de fevereiro. Tudo é planejado. Os trabalhadores ficam internados no mato duas semanas. Comida, equipamentos, armas e munição ficam guardados em um armazém construído no meio da selva. "Fazemos até exames regulares para evitar que entre alguém contaminado por malária", conta o empreiteiro Carlos Gomes Paixão, o gato que organiza a operação. No mês passado, uma equipe de fiscais descobriu a operação, autuou o fazendeiro Laudemiro de Souza Santos e apreendeu 25 motosserras, mas não conseguiu interromper a operação de destruição.

Foto: Antonio Milena

Motosserras ilegais,
prova da fiscalização ineficiente: 22000 quilômetros quadrados para cada fiscal

Autuações e multas nada significam para os fazendeiros. Eles simplesmente ignoram as punições. Alguns apresentam em sua defesa papéis flagrantemente adulterados. Um antigo chefe do Ibama em Sinop, em Mato Grosso, Antônio Carlos da Silva, antes de ser demitido emitiu documentos que valiam como dinheiro entre os fazendeiros. Eram autorizações de desmatamento em que o nome da propriedade e a cidade onde ela se localiza simplesmente não foram preenchidos, sendo substituídos pela expressão "sem denominação." "Com uma autorização assim, o proprietário da fazenda pode desmatar onde quiser e quantas vezes achar necessário", observa Rodolfo Lobo, do Ibama. A única maneira de garantir um mínimo de independência com relação ao poder dos fazendeiros é substituir os chefes regionais do Ibama a intervalos regulares. Mesmo assim, os casos estranhos se repetem. Edras Soares, dono da Fazenda Telles Pires e sétimo colocado na lista do Ibama, foi multado por desmatar sem autorização. Curiosamente, depois de pagar multa pelo crime ambiental, Soares recebeu quatro novas autorizações para arrancar florestas.

A sucessão de confusões com essa questão, a do direito de desmatar, mostra que a Amazônia continua sendo vista como uma grande terra devoluta, aonde as leis que regem o resto do Brasil não chegam. Com alguma disciplina e poder de polícia, o governo poderia ordenar a ocupação econômica do gigantesco território verde. Não basta uma portaria ou uma lei proibindo o desmatamento. Está cada vez mais claro que é preciso apresentar alternativas econômicas. Uma das opções é a criação de créditos e orientação técnica para melhorar o aproveitamento das pastagens já existentes, além de estimular a extração sustentável de madeira. Estudos feitos em Paragominas, no Pará, indicam que pastos bem manejados podem produzir três vezes mais do que a média amazônica. "Já foi desmatada uma área do tamanho da França na Amazônia. Não há necessidade de derrubar mais floresta para aumentar a produção", argumenta Adalberto Veríssimo, biólogo do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, Imazon. Em outras palavras, é preciso que o governo dê um basta na cultura do desperdício que impera na Amazônia. Por sua vastidão territorial, imagina-se que tudo ali seja inesgotável. É um engano. Com toda sua beleza e diversidade, a Amazônia assenta-se sobre um equilíbrio ecológico muito frágil. Toda a riqueza ali é fruto de uma combinação de água em excesso com solos pobres. Esse equilíbrio, dizem os especialistas, pode romper-se muito antes que a cobertura florestal chegue ao limite máximo de tolerância. O risco é permanente.

Uma das primeiras impressões que se tem ao caminhar pelas fazendas da região é a de desperdício. Gigantescas áreas de floresta são derrubadas e queimadas para dar espaço ao gado. Alguns fazendeiros contratam uma madeireira para avaliar a propriedade antes de atear fogo às árvores e vendem a madeira nobre. Outros nem se preocupam com isso e queimam tudo. Mogno, cedro, angelim, castanheiras e outras espécies valiosas são reduzidos a cinzas. Como nenhum fazendeiro tem boi suficiente para ocupar fazendas, o que se vê é muito mato para pouco gado. Em algumas propriedades, um único animal ocupa 10.000 metros quadrados. Em países como a Inglaterra ou a França, cria-se uma boiada numa área de mesmo tamanho. Espera-se que o ranking dos destruidores da mata produzido pelo Ibama seja um passo decisivo para conter as agressões à ecologia. Mesmo a Floresta Amazônica tem seu limite. Ele está sendo atingido.

Flagrante via satélite

O desmatamento da Amazônia sempre foi uma vergonha nacional sem rosto. Há duas décadas, quando satélites começaram a cruzar o espaço acima das árvores e fotografar, a cada quinze dias, o panorama da floresta, se sabe que a Amazônia está sendo devorada em grandes nacos. O ritmo da destruição flagrada pelas fotos mostra que por ano, em média, desaparece a cobertura vegetal de uma área equivalente a metade do Estado de Alagoas. São medições muito precisas e inquestionáveis. O levantamento feito do espaço, porém, nunca pôde responder à pergunta crucial: quem são os responsáveis pelos focos de destruição? Na semana passada, pela primeira vez desde que a devastação sistemática da província ecológica mais rica do planeta começou a tirar o sono do mundo, as autoridades brasileiras puderam localizar os culpados. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis já tem em mãos o nome dos dez maiores desmatadores do ano passado. "De agora em diante será possível identificar e responsabilizar individualmente os grandes agressores da floresta", diz Rodolfo Lobo, chefe do Departamento Nacional de Fiscalização do Ibama.

Foto: Antonio Milena

Equipe do Ibama com
as fotos, os mapas e
GPS: pela primeira
vez, nome e endereço

Para fazer esse cadastro dos destruidores da mata, o Ibama teve de cruzar dados de diversas fontes. Foi uma operação em três fases. Na primeira, o Centro de Sensoriamento do órgão analisou as fotos do satélite Landsat e identificou nelas as áreas desmatadas com mais de 1000 hectares, equivalentes a 1200 campos de futebol. Como não tiveram acesso integral aos levantamentos mais antigos, os técnicos se fixaram sobre as glebas desmatadas mais recentemente, entre 1997 e 1998. O tamanho de 1000 hectares foi escolhido porque todo desmatamento dessa dimensão ou maior só pode ser feito com um relatório de impacto no meio ambiente, Rima.

A segunda etapa foi sobrepor as fotos do satélite aos mapas locais das regiões onde foram encontradas as áreas desmatadas. Isso permitiu saber em que municípios estão localizadas as fazendas. A terceira e última foi a fase mais complexa. Com as imagens e mapas na mão os técnicos do Ibama foram a campo descobrir os fazendeiros responsáveis pelo corte ilegal de árvores. A partir dos dados de latitude e longitude das áreas desmatadas, fornecidos pelo cruzamento das fotos de satélite com os mapas locais, os fiscais foram para o corpo-a-corpo. Essa última etapa do levantamento foi acompanhada pelos repórteres de VEJA. Equipados com GPS, instrumentos de navegação via satélite, os fiscais checaram cada um dos pontos indicados pelas coordenadas geográficas das fotos feitas do espaço. Só assim foi possível descobrir o nome das fazendas e de seus proprietários. "Inauguramos uma revolução na fiscalização", comemora Rodolfo Lobo.

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