Panorama
• Imagem da SemanaBrasil
• Sucessão: Serra deixa o governo e vai à lutaGeral
• Especial: O sofrimento dos brasileiros que viajam de aviãoGuia
• Conforto: Análise: cadeiras de escritório para usar em casaArtes e Espetáculos
• Televisão: A volta do foco na família nos seriados americanosCinemaVários personagens em um diretorCom Os Famosos e os Duendes da
Morte, o novato Esmir Filho
|
![]() |
| É RELATIVO A menina Jingle Jangle e o homem com quem ela contempla o suicídio (interpretado pelo autor Caneppele): imagens que devem ser sentidas, mais do que compreendidas |
É frequente
dizer-se de um ator que ele entrou dentro do personagem. Já a respeito
de um diretor essa é uma afirmação bem mais incomum. E, no
entanto, é esse o efeito que o estreante em longa-metragem Esmir Filho
atinge, com força notável, em Os Famosos e os Duendes da Morte (Brasil, 2010), desde sexta-feira em cartaz no país: a sensação
de que ele entrou sob a pele não de um, mas de todos os personagens em
cena, e de que os está expondo assim pelo seu avesso ao espectador e também
a si mesmos. A rigor, aliás, o espectador nem pertence de fato a essa equação.
Calha de ele estar observando essa jornada; mas ela não é encenada
para ele. É para os próprios personagens, e no interesse deles,
que ela se desenrola.
A saber: durante um inverno em uma pequena cidade do interior gaúcho, um adolescente (Henrique Larré) passa horas do dia e da noite trocando mensagens na internet sob o nome de tela Mr. Tambourine Man, como na canção de Bob Dylan. Está particularmente obcecado pelo blog da menina Jingle Jangle apelido tirado da mesma música. Nele, assiste a vídeos em que Jingle Jangle e um homem aparecem juntos e, pelo que se depreende, flertam com a ideia de suicídio. Aos poucos, vê-se que muitas outras pessoas do lugar vivem angústias profundas. Mr. Tambourine só pensa em escapar dali. Sua mãe enfrenta a ausência do marido. O sujeito que aparecia nos vídeos de Jingle Jangle está sempre por perto, mas permanece à margem: é um pária, e sua simples presença desperta reações de suspeita ou aversão. Tudo, de alguma forma, converge para a ponte de madeira que é uma feição marcante da cidade. Várias pessoas se jogaram dali, e a certa altura outra pessoa ainda se matará atirando-se dela.
A maneira pela qual esse enredo é deslindado desafia categorizações. O paulista Esmir Filho, de 27 anos, primeiro ficou conhecido com o sucesso no YouTube do vídeo Tapa na Pantera, em que a atriz Maria Alice Vergueiro discorria sobre a maconha. Fez também curtas-metragens que evidenciavam ser ele uma promessa, como Alguma Coisa Assim e Saliva. Em Os Famosos, porém, ele indica que pode ser algo de envergadura maior: um talento verdadeiro e, em certos aspectos, extraordinário. Trabalhando em conjunto com jovens artistas gaúchos (como Ismael Caneppele, autor do romance em que o filme se baseia, e Nelo Johann, que faz da trilha sonora uma peça essencial da trama), Esmir cunha uma narrativa em que tudo é subjetivo, da textura das imagens ao modo como a montagem é encadeada. Quase não há diálogos, também; este é um filme para ser percebido mais do que propriamente compreendido. Está longe de ser uma proposta comercial (e é encorajador que, apesar disso, o estúdio Warner tenha cofinanciado o projeto). Para parte do público, também, é possível que o filme soe pretensioso. Mas, a julgar pela acolhida de uma parcela da plateia em mostras e festivais, pode-se arriscar que Esmir tem pela frente não apenas uma carreira, mas uma das evoluções mais instigantes do cinema nacional.
TrailerVideo
|