Maílson da Nóbrega
Lula foi o culpado
"O governo não tinha estratégia para neutralizar
o apetite
dos parlamentares. Lula preferiu ignorar a história. Guiou-se
pela ideologia estatizante e por objetivos eleitorais"
A decisão da Câmara de distribuir os royalties do
petróleo com todos os estados e municípios, em detrimento das
regiões produtoras, foi uma reprise de conhecido filme. Dava para perceber
que isso poderia acontecer. Os parlamentares têm incentivos irresistíveis
para transferir recursos permanentes às suas bases. Não enxergam
seus efeitos negativos. Olham o interesse eleitoral. Muitos esperam virar heróis.
A mudança das regras de exploração do pré-sal
continha muitos riscos, inclusive o de uma desastrosa repartição
dos recursos. Lula colheu, pois, a tempestade dos ventos que semeou. A derrota
foi acachapante: 369 deputados, dos quais 270 governistas, votaram a favor da
emenda de Ibsen Pinheiro e Humberto Souto, os dois deputados que propuseram
a "gracinha", como o presidente chamou a tungada. Ele deveria saber
que em questões como esta as lealdades se esfumaçam.
A maioria dos sistemas tributários modernos concentra a
receita no governo central, ao qual costumam caber os impostos sobre o consumo
e a renda, que têm ao mesmo tempo maior potencial de arrecadação
e menor poder de distorção sobre a atividade econômica.
Nessa esfera de governo a arrecadação costuma superar o gasto.
Regiões menos desenvolvidas, ao contrário, precisam contar com
a ajuda do governo central para se aproximar da situação das áreas
ricas. Como fazer isso de forma permanente e justa não é trivial.
Há sempre o risco de excessos prejudiciais a todos.
No Brasil, a partilha federativa dos recursos, que tinha entre
seus propósitos o de promover a redução das desigualdades
regionais, nasceu em 1965. Emenda constitucional de então destinou aos
governos subnacionais 20% do imposto de renda e do IPI: 10% para o Fundo de
Participação dos Estados (FPE) e 10% para o Fundo de Participação
dos Municípios (FPM). As regiões menos desenvolvidas recebem proporcionalmente
mais.
Em 1969, a partilha se reduziu à metade, mas foi restabelecida
entre 1976 e 1980. De 1981 a 1984, passou para 26%: 12,5% para o FPE e 13,5%
para o FPM. De 1985 a 1988, foi para 31%: 14% para o FPE e 17% para o FPM. Com
a Constituição de 1988, saltou para 47%: 21,5% para o FPE, 22,5%
para o FPM e 3% para financiar o setor produtivo das regiões menos desenvolvidas.
E mais 10% do IPI para estados exportadores. Em apenas oito anos, a partilha
pulou de 10% para 47% do IR e de 10% para 57% do IPI. Perdeu-se qualquer senso
de medida. A União foi churrasqueada à míngua de líderes.
E em 2007 a partilha subiu para 48% (1% a mais para o FPM). Parece interminável,
não?
Ao mesmo tempo, foram aumentadas as despesas obrigatórias
do governo federal com o INSS, os funcionários públicos e a educação.
O grave desequilíbrio foi atenuado pela elevação brutal
dos tributos, com a resultante piora de sua qualidade. Para cobrir o buraco,
a União recorreu a tributos não partilháveis, as contribuições.
Mesmo assim, a situação piorou: menor capacidade de investimento,
maiores ineficiências e abalo no potencial de crescimento. A partilha
pro-duziu mais salários de servidores, corrupção e gastos
correntes do que investimentos nos estados e municípios.
Essas lições não foram aprendidas por Lula.
Era questão de tempo. O Congresso iria à farra com os recursos
do pré-sal. Ficara fácil. O governo não tinha estratégia
para neutralizar o apetite dos parlamentares. Lula preferiu ignorar a história.
Guiou-se pela ideologia estatizante e por objetivos eleitorais. A discussão
sobre o pré-sal foi feita a portas fechadas. O Congresso foi atropelado
com o regime de urgência para apreciar os respectivos projetos de lei.
E o imbróglio continuou. Com o propósito de compensar
os estados produtores, os senadores Francisco Dornelles e Renato Casagrande
propuseram diminuir a parcela da União nesses recursos. Dos mais de 25%
antes previstos para o governo federal, restarão menos de 10%. A pulverização
dos recursos levará a novos desperdícios.
Uma saída seria deixar a decisão para depois das
eleições, o que acabaria ficando para o próximo governo.
Haveria tempo para uma discussão saudável e responsável
sobre o regime de exploração e os recursos. O mal teria vindo
para o bem.
Maílson da Nóbrega é economista
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