Roberto Pompeu de Toledo
Grandes personagens da MPB
"O
melhor, em versos tão inesquecíveis quanto
o tu pisavas nos
astros distraída, é quando Caymmi
informa que se a noite é de lua a vontade é contar mentira,
é se espreguiçar"
Noel
Rosa é genial, não se discute, mas precisava sobrecarregar o garçom
com tantas ordens? Em Conversa de Botequim há, por baixo, sete ordens
disparadas pelo freguês ao garçom que teve a má sorte de estar
de serviço naquele momento, a saber: (1) que o garçom lhe traga
pão, média, guardanapo e água (consideremos o conjunto uma
ordem só); (2) que feche a porta da direita com muito cuidado; (3) que
apure com o freguês do lado o resultado do futebol; (4) que lhe providencie
caneta, tinteiro, envelope e cartão; (5) que lhe traga palitos e cigarro;
(6) que peça ao charuteiro revistas, isqueiro e cinzeiro; (7) que telefone
ao escritório (até isso!) pedindo um guarda-chuva ao seu Osório.
Não
apenas a quantidade é cruel. Pior ainda é que as ordens são
quase simultâneas, disparadas à queima-roupa, na maioria desencontradas,
exigindo o malabarismo de encomendar a média ("que não seja
requentada") e ao mesmo tempo fechar a porta, perguntar o resultado do futebol
e emendar com um telefonema para o escritório. Se bem cumpridas as tarefas,
o que temos é um garçom obrigado a multiplicar-se em mais pernas
do que num desenho do saudoso Glauco, um pobre coitado que sua, bufa, resfolega,
resmunga, tropeça, se esfalfa, se estropia, se exaure. Para cúmulo
dos cúmulos, no fim o freguês ainda avisa que vai pendurar a conta
e pede ao garçom para lhe emprestar dinheiro. Essa música podia
ser rebatizada como Hino do Desespero dos Garçons. Devia ser entoada nas
assembleias e passeatas da categoria.
O João Valentão
de Dorival Caymmi abriga na mesma personalidade o bruto e o sensível, o
impiedoso e o lírico. É um bruto que para dar bofetão não
pensa na vida, e faz coisas que até Deus duvida; mas tem seu momento na
vida, o que acontece "quando o sol vai quebrando lá pro fim do mundo"
e "se ouve mais forte o ronco das ondas". Eis que o cair da tarde o
transfigura. Se até por volta das 18 horas era um, agora é outro.
O João Valentão é no final das contas um homem equilibrado
e bem-sucedido depois da batalha do dia, em que cansou de dar sopapos,
restaura-se à noite, deitado na areia da praia, naquele momento supremo
em que "a morena se encolhe e chega pro lado querendo agradar".
Mas
o auge da música ainda não chegou. O melhor, em versos tão
inesquecíveis quanto o "tu pisavas nos astros distraída",
de Chão de Estrelas (que Manuel Bandeira considerava dos mais belos
da língua), é quando Caymmi informa que "se a noite é
de lua a vontade é contar mentira, é se espreguiçar".
Os braços do Valentão agora trocam os bofetões pelas espreguiçadas;
e a vida de verdade, mansamente, malandramente, se refaz na delícia das
mentiras.
O personagem do Trem das Onze, de Adoniran
Barbosa, é um angustiado, um torturado, um estressado, um tipo ferido pela
dúvida e fulminado pela divisão entre duas lealdades. Ele não
pode ficar mais nem um minuto com a namorada porque senão perde o trem.
E se perde o trem, desgraça! é filho único, tem uma
mãe que não dorme enquanto ele não chega. Estamos diante
do oposto acabado do João Valentão. Durante o dia, no trabalho,
longe de casa (ele mora em Jaçanã!), as pressões não
foram tão fortes quanto à noite, quando se estabelece o horrendo
conflito.
A música não conta a história
até o fim. Não ficamos sabendo se ele realmente se despregou da
namorada e correu para o trem ou fraquejou na última hora. Os mais românticos
tenderiam para a opção pela namorada vamos lá, coragem,
ouse ser feliz. Mas, ao que tudo indica, venceu a mãe. E a namorada, como
ficou? Ofereceu-lhe uma segunda chance? Adoniran não julgou necessário
nos dizer, mas é forte a desconfiança de que seu personagem está
destinado a morrer solteiro.
Numa de suas
gravações de My Way, Frank Sinatra anuncia antes que vai
cantar o hino nacional, e pede ao público que fique de pé. My
Way celebra um tipo vencedor, que ao fazer um balanço da vida se orgulha
de ter feito tudo o que tinha de fazer e, mais importante, do seu próprio
jeito. Tem poucos arrependimentos, encarou tudo e ficou firme, engoliu o que tinha
de engolir e cuspiu fora o resto. Muito americano. Que música popular brasileira
poderia ser elevada a hino nacional? Não é fácil escolher. Aquarela do Brasil não vale; é hino nacional brasileiro para
estrangeiros. Mas, se for para escolher hinos regionais, as três músicas
citadas são fortes candidatas. Conversa de Botequim flagra uma perfeita
manhã carioca. João Valentão retrata um cair da tarde
em Salvador. Trem das Onze, uma noite em São Paulo.
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