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• Televisão: A volta do foco na família nos seriados americanosDiversãoFazendeiros do arNos sites de relacionamento, milhões
de pessoas que moram
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Fotos Laílson Santos![]() |
| AGRICULTURA
NUM CLIQUE Jannete levanta de madrugada para cuidar da "fazenda"; o namorado reclama |
A paulistana Glaucia Laurenti, 41 anos, é formada em sociologia, chefia um escritório, lembra-se apenas vagamente da fazenda do avô e não tem a menor intenção de ingressar na agropecuária. No entanto, planta e cria animais com dedicação obsessiva desde meados do ano passado tudo virtualmente, no jogo Colheita Feliz, de longe o mais movimentado aplicativo do Orkut, o site de relacionamento que os brasileiros adoram. "Gostei dos animais bonitinhos e acabei incentivando todo mundo a jogar comigo. Já cheguei ao nível 32 e agora faço inveja a muita gente", diz Glaucia, que cumpre com alegria os rígidos prazos para irrigar as plantações, seguir o cronograma de colheita, tirar leite de vacas, dar a ração corretamente. O Colheita Feliz tem 19 milhões de "fazendeiros" no Brasil, sendo 11,5 milhões deles "ativos", como são chamados os que não perdem nenhum compromisso no mundo rural virtual. Seu concorrente direto, o Farm-Ville, tem só 7 milhões, mas isso porque o site que o aloja, o Facebook, não é tão vastamente popular no país. Em escala global, o Facebook congrega nada menos que 80 milhões de agricultores e pecuaristas que laboram diuturnamente no campo da internet.
A maior parte dos fazendeiros virtuais são mulheres, as grandes alimentadoras dos sites de relacionamento em geral. Elas costumam se encantar com detalhes decorativos para seu pedacinho de terra. Já os homens adotam uma abordagem mais prática. No FarmVille, o relações-públicas José Neves, 25, que pouco esteve em uma fazenda de verdade, impera como "O Fazendeiro", pelo empenho e pelo tamanho do patrimônio. "No começo, só plantava produtos que cresciam rápido, para ganhar experiência. Acordava de quatro em quatro horas e me organizava com a ajuda de uma planilha", relata. Ultimamente, está mais seletivo no que cultiva (quanto mais demora a colheita, maior o rendimento), mas ainda planta cerca de 10 000 áreas de cultivo "células", no jargão do meio por semana. Resultado: acumulou uma fortuna em farm coins, o dinheiro local. "Na semana passada, comprei de uma só vez cinco vilas no valor de 1 milhão cada uma e atingi o nível 70, que é o máximo. Pus uma vila do lado da outra, para me exibir mesmo. Em menos de dez minutos, subi cinco níveis e não parava de receber comentários", gaba-se Neves, que mantém um blog no qual dá dicas de como ser um bom agricultor virtual.
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| O
REI DO GADO Neves: planilhas de controle, nível máximo no FarmVille e blog com dicas para o bom agricultor |
Por
que as fazendinhas virtuais atraem tanta gente que nasceu e cresceu na cidade
e está muito bem assim? Além de uma vaga nostalgia coletiva pelo
mundo rural, conta muito a facilidade. Para começar a jogar, basta ter
um perfil na rede social e adicionar o aplicativo. Não é preciso
instalar nada, nem ler manual de instrução. Sementes, animais, casas,
tudo pode ser conquistado cumprindo prazos e cuidando bem da lavoura e do pasto.
Num estágio mais elevado, os fazendeiros virtuais começam a usar
dinheiro de verdade. Ou melhor, de plástico, sob a forma dos cartões
de crédito. No câmbio do Orkut, 1 real compraria 5 "moedas
verdes", com as quais é possível adquirir luxos exóticos
como uma árvore de ovos de Páscoa, um pavão e até
renas do Papai Noel. No FarmVille, 1 dólar (a conversão é
feita no momento da transação) compraria 5 farm cash. A parcela
de jogadores que despendem dinheiro vivo não passa de 2%, mas com eles
as empresas alcançam 90% de seu faturamento. Nem sempre há transparência:
recentemente, descobriu-se que a Zynga, empresa americana que controla o FarmVille, usou de informações pouco precisas para embolsar parte da arrecadação
de uma campanha de ajuda às vítimas do terremoto do Haiti. Mas o
maior atrativo dos joguinhos parece ser mesmo seu poder de movimentar o perfil
que cada jogador mantém no site. A fazenda dá motivos para conversar,
trocar conselhos, contar vantagens e exibir troféus. "Os jogos virtuais
suprem a necessidade do ponto de encontro dentro da rede social. As comunidades
desempenhavam esse papel, mas estão perdendo força e agora os jogos
viraram o assunto comum", explica Tahiana DEdgmont, diretora-geral
e sócia no Brasil da Mentez, a empresa americana que controla o Colheita
Feliz, um jogo desenvolvido por programadores chineses.
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| BOBEOU, PERDEU Glaucia, que joga com a filha: de vez em quando, uma assalta a fazenda da outra |
Cada
fazendeiro, ao obter sua gleba, convida amigos para fazer o mesmo, montando uma
espécie de condomínio à sua volta. A socióloga Glaucia,
por exemplo, apresentou o jogo à filha Giuliana, 17, que não só
cuida da sua terra como ajuda a mãe a cuidar da dela. "Às vezes
não me planejo direito e ela ou o namorado fazem a colheita por mim",
conta. Na atividade agrícola virtual de Glaucia e Giuliana ocorrem, esporadicamente,
roubos de produtos e implementos, um dos recursos mais motivadores do Colheita
Feliz no Brasil (em outros países, foi removido). Pois é, no mundo
da terra virtual impera um espírito de sem-terra. "No início
eu tinha dó, mas ela começou a pegar de mim e agora eu também
roubo o que encontrar", informa a mãe. O furto mútuo não
cria ressentimentos. Quem está dentro se diverte, mas quem está
fora confessa que se irrita com a dedicação dos fazendeiros do ar.
"Já acordei assustado de madrugada porque ela se levantou para colher
sei lá o que na fazendinha", reclama o coordenador de eventos Cacá
de Oliveira, 34, sobre o empenho da namorada, a atriz Jannete Tomiita, 24. "Chego
em casa e ela às vezes nem repara que eu entrei pela porta. Falei que vou
levar o notebook para o trabalho e colocar senha no computador de casa, igual
fazem com as crianças", ameaça. Jannete nem ouve, ocupada
que está em arar a terra, colher frutas e fazer carinho nas vaquinhas
porque, como todo pecuarista virtual sabe, elas dão mais leite assim.