|
Ponto
de vista: Lya Luft
Os
imutáveis
sentimentos
"Quantas
vezes podemos
amar na vida?
Sempre que nos sentirmos demais sozinhos
e a vida nos oferecer esse milagre,
e nós
tivermos as condições e a coragem de concretizá-lo"
A palestra
seria para uns 300 empresários, homens e mulheres. Depois
viriam as perguntas e, finalmente, o almoço.
Chegando
lá, vi que estava enganada: eu falaria enquanto eles almoçavam.
Escritores habituaram-se a falar em público é
uma espécie de moda a gente ser convocado para entrevistas
ou palestras sobre os temas mais variados: psicologia, sexo, política,
religião e por aí vai. Mas me incomodou a idéia
de pessoas manejando talheres e copos, mastigando e quem sabe conversando
enquanto eu falasse. Não havia como voltar atrás:
a culpa era da minha desatenção, de não haver
entendido direito o convite.
Ilustração Ale Setti
 |
Todos sentados, feitas as apresentações, dados os
avisos, comecei a fala achando que todos percebiam meu desconforto.
O tema da palestra era "Transgressões positivas". Eu não
podia cometer a primeira, levantar da cadeira e ir embora? Não,
não podia. Ninguém tinha culpa da minha trapalhada.
Agora era cumprir meu dever, e fazer isso com a mesma simpatia com
que aquelas pessoas me olhavam.
Transgressão
positiva, comecei então, podia ser, por exemplo, vencer o
espírito de manada e a coerção da superficialidade
que nos esmagam neste nosso mundo. Um pouco de frivolidade é
necessária: que os deuses nos livrem de sermos solenes. Mas
de vez em quando, acrescentei, pode-se usar a superfície
da vida como trampolim para algum mergulho de reflexão, de
reavaliação e quem sabe de reinvenção
da nossa vida. O problema inicial é que estamos acorrentados
a muitos deveres, sobretudo empresários cheios de responsabilidades
com funcionários, operários, acionistas e toda uma
complexa engrenagem da qual eu, escritora, confessava ter apenas
uma idéia difusa. O que era certo era a morte estar empoleirada
em nosso ombro, espiando com seu inquietante olho de coruja: o que
é que a gente podia fazer com tal inquilina?
Talvez
a primeira boa transgressão, continuei, seria aproveitar
o susto para pensar. Falamos muito em ética, mas, com mais
freqüência do que o confessável, escutamos a conversa
de nossa mulher ou marido na extensão do telefone. Falamos
em justiça social, mas eventualmente pagamos o menor salário
possível à nossa empregada e lhe servimos um prato
feito. Segui por esse caminho, num trote pouco amigável
em voz mansa.
De
repente me dei conta de que alguns pararam de comer, mas não
se mostravam ofendidos com minhas alusões. Ao contrário,
pareciam compreender que eu me incluía em tudo aquilo. Entre
nós circulava aquela cumplicidade de iguais a que eu me habituara
com leitores, mas não esperava de homens de negócios.
Terminei
a palestra ainda vagamente intrigada, mas as palmas foram cálidas.
Um empresário venerando pediu a palavra. "Esse vai me trucidar",
pensei. Ele me olhou direto nos olhos e indagou no silêncio
atento que se abria:
"Quantas
vezes a senhora acha que a gente pode amar na vida?"
Respondi,
surpresa:
"Sempre
que nos sentirmos demais sozinhos e a vida nos oferecer esse milagre,
e nós tivermos as condições e a coragem de
concretizá-lo".
Senti
que, naquele momento, as palmas foram não para mim, mas para
ele. Para a vida que ali se expressava com tal dignidade.
Saí
dessa experiência com mais um dos meus preconceitos destruídos.
Numa dessas contradições animadoras, o que começou
mal acabou bem principalmente porque um homem se postou diante
de todos com a tranqüilidade dos sábios, sem receio
de enfrentar seus pares, de se mostrar vulnerável, de assumir
sua real grandeza: a de ser uma pessoa como qualquer outra.
Vi
confirmada, mais uma vez, minha suspeita de que no fundo o que prevalece
em todos nós, centro de nosso desejo e raiz de nossos temores,
nossa glória e possibilidade de nossa danação,
são os velhos e imutáveis sentimentos humanos.
Lya
Luft é escritora
|