Edição 1848 . 7 de abril de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Turma do Vietnã 1,
turma do Iraque 0

Um belo filme suscita um paralelo entre
os
patronos de duas guerras americanas

Um novo Vietnã? A pergunta está no ar desde o início da atual aventura militar americana, travada contra um país, o Iraque, pequeno e distante como aquele outro, por motivos discutíveis como daquela vez, e, ainda como daquela vez, repleta de armadilhas. Um filme em cartaz no Brasil, Sob a Névoa da Guerra, do celebrado documentarista americano Errol Morris, fala do Vietnã, mas o que vem à mente é o Iraque. Renova-se a pergunta: estarão os Estados Unidos diante de um novo Vietnã, uma guerra que, fundamentada num amontoado de equívocos, custou sangue, trauma e arrependimento e terminou na maior humilhação da história da grande potência?

O magnífico filme de Morris, ganhador do Oscar de documentário deste ano, tem como protagonista a figura controvertida, ou, talvez mais que controvertida, odiada, segundo os padrões da inteligência convencional, de Robert McNamara. McNamara foi o secretário de Defesa do governo americano sob os presidentes Kennedy e Johnson. Qual seja: comandou a máquina de guerra do país do início ao pico da intervenção no Vietnã. Formado nas universidades de Berkeley e Harvard, e desde cedo reputado um gênio em análise de estatísticas, McNamara representou melhor do que ninguém a geração dos "melhores e mais brilhantes", ou, no original, The Best and the Brightest, título meio sério, meio irônico, de um famoso livro em que o jornalista David Halberstam retratou a equipe recrutada por Kennedy.

O filme consiste basicamente numa entrevista com McNamara, então com 85 anos (hoje tem 87). Ele começa por contar sua experiência na II Guerra Mundial, quando serviu como analista para a Força Aérea e entre outras coisas descobriu que os bombardeios aéreos sobre o Japão apresentavam pouca efetividade. Isso levou o general Curtis LeMay, renomado troglodita que, entre outras proezas, mais tarde advogaria jogar a bomba atômica sobre Cuba, a se decidir por bombas incendiárias. Resultado: numa única noite, metade de Tóquio virou cinza (metade!, e Tóquio é uma cidade do tamanho de Nova York, observa o filme) e 100.000 japoneses morreram. LeMay, conta McNamara, dizia que se tivessem perdido a guerra seriam todos tidos por criminosos. O próprio McNamara comenta: "Ele – assim como eu – se comportou como criminoso de guerra. Por que considerar [esse comportamento] imoral se você perde, mas não se você ganha?".

Por essas e outras, McNamara passou em julgado, segundo a inteligência convencional, como um caso perdido de tecnocrata da guerra. Houve um período em que ele foi trabalhar na Ford, e ali seu gênio analítico voltou-se para a investigação de algum meio que diminuísse a mortandade causada pelos acidentes automobilísticos. Inventou então o cinto de segurança. Assim como em outras ocasiões planejara a morte, aqui, com a mesma frieza, planejava a vida. No comando das operações no Vietnã, esteve à frente de decisões que acabaram por ocasionar a morte de 58.000 americanos e de mais de 1 milhão de vietnamitas e apelaram para recursos como o agente laranja, desfolhante que, lançado para desbastar as florestas onde se escondiam os inimigos, até hoje produzem efeitos no meio ambiente do país asiático. A inteligência convencional só pode ter razão ao considerar McNamara um homem mau.

Ou não? O McNamara que emerge do filme é – surpresa – um ser humano. Sim, um ser humano – articulado, firme nas respostas e bom de memória, mas também pronto a reconhecer seus erros, além de cheio de dúvidas morais e algo perplexo com a vida que lhe coube viver. Sai-se do filme simpatizando com ele. Não se imagine que o diretor Errol Morris faz uma defesa da Guerra do Vietnã ou de matanças do gênero. Muito ao contrário, sua militância antibelicista ficou expressa no discurso com que agradeceu o Oscar: "Quarenta anos atrás este país caiu numa armadilha no Vietnã e milhões morreram. Temo que tenhamos caído em outra armadilha". Mas Morris tem simpatia por McNamara, expressa em entrevistas como aquela em que começou por citar uma pergunta do personagem do filme Elephant Man: "Serei eu um homem bom ou um homem mau?". A seu ver, é o que McNamara se pergunta. Um homem "torturado pelo passado" continuará pelo resto de seus dias tentando entender "os eventos que viveu e seu papel neles". Daí resulta uma figura não triste – mas trágica.

Com isso voltamos à Guerra do Iraque. Os McNamara de hoje são o secretário de Defesa Donald Rumsfeld e o vice-presidente Dick Cheney, para citar os principais, além do presidente George W. Bush. São tipos que dificilmente se imagina abrindo a guarda para perplexidades e dúvidas morais. A conclusão, quando se contrapõe o McNamara do filme aos falcões de hoje, é, sob o ponto de vista humano e moral, proclamar a vitória do primeiro. O McNamara do filme representa só a si próprio. Mas, se pudesse ser tomado como expressão de toda a equipe que com ele esteve à frente do governo, o resultado seria: turma do Vietnã 1, turma do Iraque 0.

 
 
 
 
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