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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Turma
do Vietnã 1,
turma do Iraque 0
Um
belo filme suscita
um paralelo entre
os patronos de duas guerras
americanas
Um
novo Vietnã? A pergunta está no ar desde o início
da atual aventura militar americana, travada contra um país,
o Iraque, pequeno e distante como aquele outro, por motivos discutíveis
como daquela vez, e, ainda como daquela vez, repleta de armadilhas.
Um filme em cartaz no Brasil, Sob a Névoa da Guerra, do
celebrado documentarista americano Errol Morris, fala do Vietnã,
mas o que vem à mente é o Iraque. Renova-se a pergunta:
estarão os Estados Unidos diante de um novo Vietnã,
uma guerra que, fundamentada num amontoado de equívocos,
custou sangue, trauma e arrependimento e terminou na maior humilhação
da história da grande potência?
O
magnífico filme de Morris, ganhador do Oscar de documentário
deste ano, tem como protagonista a figura controvertida, ou, talvez
mais que controvertida, odiada, segundo os padrões da inteligência
convencional, de Robert McNamara. McNamara foi o secretário
de Defesa do governo americano sob os presidentes Kennedy e Johnson.
Qual seja: comandou a máquina de guerra do país do
início ao pico da intervenção no Vietnã.
Formado nas universidades de Berkeley e Harvard, e desde cedo reputado
um gênio em análise de estatísticas, McNamara
representou melhor do que ninguém a geração
dos "melhores e mais brilhantes", ou, no original, The Best and
the Brightest, título meio sério, meio irônico,
de um famoso livro em que o jornalista David Halberstam retratou
a equipe recrutada por Kennedy.
O
filme consiste basicamente numa entrevista com McNamara, então
com 85 anos (hoje tem 87). Ele começa por contar sua experiência
na II Guerra Mundial, quando serviu como analista para a Força
Aérea e entre outras coisas descobriu que os bombardeios
aéreos sobre o Japão apresentavam pouca efetividade.
Isso levou o general Curtis LeMay, renomado troglodita que, entre
outras proezas, mais tarde advogaria jogar a bomba atômica
sobre Cuba, a se decidir por bombas incendiárias. Resultado:
numa única noite, metade de Tóquio virou cinza (metade!,
e Tóquio é uma cidade do tamanho de Nova York, observa
o filme) e 100.000 japoneses morreram.
LeMay, conta McNamara, dizia que se tivessem perdido a guerra seriam
todos tidos por criminosos. O próprio McNamara comenta: "Ele
assim como eu se comportou como criminoso de guerra.
Por que considerar [esse comportamento] imoral se você perde,
mas não se você ganha?".
Por
essas e outras, McNamara passou em julgado, segundo a inteligência
convencional, como um caso perdido de tecnocrata da guerra. Houve
um período em que ele foi trabalhar na Ford, e ali seu gênio
analítico voltou-se para a investigação de
algum meio que diminuísse a mortandade causada pelos acidentes
automobilísticos. Inventou então o cinto de segurança.
Assim como em outras ocasiões planejara a morte, aqui, com
a mesma frieza, planejava a vida. No comando das operações
no Vietnã, esteve à frente de decisões que
acabaram por ocasionar a morte de 58.000
americanos e de mais de 1 milhão de vietnamitas e apelaram
para recursos como o agente laranja, desfolhante que, lançado
para desbastar as florestas onde se escondiam os inimigos, até
hoje produzem efeitos no meio ambiente do país asiático.
A inteligência convencional só pode ter razão
ao considerar McNamara um homem mau.
Ou
não? O McNamara que emerge do filme é surpresa
um ser humano. Sim, um ser humano articulado, firme
nas respostas e bom de memória, mas também pronto
a reconhecer seus erros, além de cheio de dúvidas
morais e algo perplexo com a vida que lhe coube viver. Sai-se do
filme simpatizando com ele. Não se imagine que o diretor
Errol Morris faz uma defesa da Guerra do Vietnã ou de matanças
do gênero. Muito ao contrário, sua militância
antibelicista ficou expressa no discurso com que agradeceu o Oscar:
"Quarenta anos atrás este país caiu numa armadilha
no Vietnã e milhões morreram. Temo que tenhamos caído
em outra armadilha". Mas Morris tem simpatia por McNamara, expressa
em entrevistas como aquela em que começou por citar uma pergunta
do personagem do filme Elephant Man: "Serei eu um homem bom
ou um homem mau?". A seu ver, é o que McNamara se pergunta.
Um homem "torturado pelo passado" continuará pelo resto de
seus dias tentando entender "os eventos que viveu e seu papel neles".
Daí resulta uma figura não triste mas trágica.
Com
isso voltamos à Guerra do Iraque. Os McNamara de hoje são
o secretário de Defesa Donald Rumsfeld e o vice-presidente
Dick Cheney, para citar os principais, além do presidente
George W. Bush. São tipos que dificilmente se imagina abrindo
a guarda para perplexidades e dúvidas morais. A conclusão,
quando se contrapõe o McNamara do filme aos falcões
de hoje, é, sob o ponto de vista humano e moral, proclamar
a vitória do primeiro. O McNamara do filme representa só
a si próprio. Mas, se pudesse ser tomado como expressão
de toda a equipe que com ele esteve à frente do governo,
o resultado seria: turma do Vietnã 1, turma do Iraque 0.
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