Edição 1848 . 7 de abril de 2004

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Livros
Leonardo Da Vinci,
o herege com causa

No thriller O Código Da Vinci, o
pintor italiano dá verniz
a uma teoria
conspiratória para lá de mirabolante


Jerônimo Teixeira

Trechos do livro

O escritor americano Dan Brown define-se como um cético. "Não encontro nenhum traço de verdade em extraterrestres, no Triângulo das Bermudas ou em qualquer outro dos supostos mistérios que permeiam a cultura pop", diz ele. O fato de não acreditar nessa espécie de coisa, contudo, não significa que não saiba usá-la. Depois de quase 500 páginas de uma intriga religiosa na qual uma sociedade secreta devotada a proteger o Santo Graal é perseguida por um monge assassino aparentemente a serviço do Vaticano, um personagem secundário do romance O Código Da Vinci (tradução de Celina Cavalcante Falck-Cook; Sextante; 475 páginas; 39 reais) deixa escapar uma frase reveladora: "Todo mundo adora uma conspiração". E como. O livro de Brown já vendeu 7 milhões de exemplares nos Estados Unidos, ocupou o topo das listas de mais vendidos à frente de best-sellers veteranos como John Grisham e pôs Brown definitivamente no mapa do universo pop.

A ação de O Código Da Vinci começa na Paris dos dias de hoje e segue até Londres. A conspiração, porém, começou muito antes. Seu marco inicial seria o Concílio de Nicéia, em 325, quando a Igreja estabeleceu a natureza divina de Jesus Cristo. Para que isso fosse possível, supostas aventuras carnais do filho de Deus tiveram de ser ocultadas. O Graal que os personagens do livro buscam não é o cálice em que foi consagrado o vinho da Eucaristia. O tal cálice seria apenas uma representação alegórica do verdadeiro Graal, que, por sua vez, seria uma pessoa, e não um objeto: Maria Madalena, esposa de Jesus e mãe de seus filhos. Esse segredo milenar, bem como os restos mortais de Madalena, estariam sob a guarda de uma sociedade secreta que existiu de fato, o Priorado de Sião. Entre os membros célebres do priorado, Da Vinci tem especial destaque no livro, e não só por aparecer no título. Obras como o afresco A Última Ceia, pintado no refeitório de uma igreja de Milão, estariam repletas de alusões à companheira de Jesus.

AP
Dan Brown: 7 milhões de livros vendidos


Brown foi muito hábil em inserir essa tese potencialmente herética em um vira-página sem o mínimo ranço de incenso. A narrativa de O Código Da Vinci segue as convenções do thriller policial, sem esoterismos de butique. Logo no início, Jacques Saunière, curador do Louvre, é assassinado, dentro do museu, por um monge albino. Esse será o tom da narrativa: mistério e algum toque de exotismo em cenários artísticos, sobre os quais vão sendo desfiadas informações genéricas – do número de vidraças na pirâmide do Louvre (666) ao número de pessoas sepultadas na Abadia de Westminster (mais de 3 000). É o típico best-seller-que-educa. O leitor pode aproveitar alguns desses dados para impressionar o chefe ou a namorada, mas é bom manter bem firme um pé atrás. Brown às vezes se empolga demais com sua tese ocultista. Chega a sugerir que até A Pequena Sereia, desenho dos estúdios Disney, guarda referências ao "sagrado feminino" que a Igreja tem se esforçado por reprimir. Volta e meia, também faz concessões a lendas populares, como a de que Isaac Newton – aliás, outro membro do Priorado de Sião – teria descoberto a gravidade quando uma maçã caiu em sua cabeça.

Embora a Opus Dei, organização católica ultratradicionalista, faça o papel de vilão em pelo menos parte do livro, Brown se esforça para livrar a cara do Vaticano no final. A tentativa de amainar possíveis melindres católicos quase prejudica a trama, mas há reviravoltas e surpresas para compensar. O leitor talvez busque O Código Da Vinci pelo sabor de escândalo que a história de Madalena guarda, mas não é isso que o segurará ao longo do livro. O herói da história – que já aparecia no livro anterior de Brown, Angels & Demons, ainda sem edição no Brasil – é Robert Langdon, professor de história da arte em Harvard e especialista em simbologia. Ele se torna o principal suspeito da morte do curador do Louvre. Com a ajuda de Sophie Neveu, uma criptologista francesa, Langdon tenta ao mesmo tempo fugir da polícia e decifrar os enigmas deixados por Saunière. A grande atração do livro está na resolução de charadas, códigos, anagramas. O leitor sente que está resolvendo um elaborado quebra-cabeça – mas sem suar a testa, pois na verdade são os personagens que desvendam todo o mistério. Todo o mistério? Dan Brown deixou um desafio para os mais obstinados. "Cada um dos nomes de personagens é um código ou tem um sentido oculto", avisa o autor.

 
 
 
 
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