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Livros
Leonardo
Da Vinci,
o herege com causa
No
thriller O Código Da Vinci, o
pintor italiano dá verniz a
uma teoria
conspiratória para lá de mirabolante

Jerônimo
Teixeira
O
escritor americano Dan Brown define-se como um cético. "Não
encontro nenhum traço de verdade em extraterrestres, no Triângulo
das Bermudas ou em qualquer outro dos supostos mistérios
que permeiam a cultura pop", diz ele. O fato de não acreditar
nessa espécie de coisa, contudo, não significa que
não saiba usá-la. Depois de quase 500 páginas
de uma intriga religiosa na qual uma sociedade secreta devotada
a proteger o Santo Graal é perseguida por um monge assassino
aparentemente a serviço do Vaticano, um personagem secundário
do romance O Código Da Vinci (tradução
de Celina Cavalcante Falck-Cook; Sextante; 475 páginas; 39
reais) deixa escapar uma frase reveladora: "Todo mundo adora uma
conspiração". E como. O livro de Brown já vendeu
7 milhões de exemplares nos Estados Unidos, ocupou o topo
das listas de mais vendidos à frente de best-sellers veteranos
como John Grisham e pôs Brown definitivamente no mapa do universo
pop.
A
ação de O Código Da Vinci começa
na Paris dos dias de hoje e segue até Londres. A conspiração,
porém, começou muito antes. Seu marco inicial seria
o Concílio de Nicéia, em 325, quando a Igreja estabeleceu
a natureza divina de Jesus Cristo. Para que isso fosse possível,
supostas aventuras carnais do filho de Deus tiveram de ser ocultadas.
O Graal que os personagens do livro buscam não é o
cálice em que foi consagrado o vinho da Eucaristia. O tal
cálice seria apenas uma representação alegórica
do verdadeiro Graal, que, por sua vez, seria uma pessoa, e não
um objeto: Maria Madalena, esposa de Jesus e mãe de seus
filhos. Esse segredo milenar, bem como os restos mortais de Madalena,
estariam sob a guarda de uma sociedade secreta que existiu de fato,
o Priorado de Sião. Entre os membros célebres do priorado,
Da Vinci tem especial destaque no livro, e não só
por aparecer no título. Obras como o afresco A Última
Ceia, pintado no refeitório de uma igreja de Milão,
estariam repletas de alusões à companheira de Jesus.
AP
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| Dan
Brown: 7 milhões de livros vendidos |
Brown foi muito hábil em inserir essa tese potencialmente
herética em um vira-página sem o mínimo ranço
de incenso. A narrativa de O Código Da Vinci segue
as convenções do thriller policial, sem esoterismos
de butique. Logo no início, Jacques Saunière, curador
do Louvre, é assassinado, dentro do museu, por um monge albino.
Esse será o tom da narrativa: mistério e algum toque
de exotismo em cenários artísticos, sobre os quais
vão sendo desfiadas informações genéricas
do número de vidraças na pirâmide do
Louvre (666) ao número de pessoas sepultadas na Abadia de
Westminster (mais de 3 000). É o típico best-seller-que-educa.
O leitor pode aproveitar alguns desses dados para impressionar o
chefe ou a namorada, mas é bom manter bem firme um pé
atrás. Brown às vezes se empolga demais com sua tese
ocultista. Chega a sugerir que até A Pequena Sereia,
desenho dos estúdios Disney, guarda referências ao
"sagrado feminino" que a Igreja tem se esforçado por reprimir.
Volta e meia, também faz concessões a lendas populares,
como a de que Isaac Newton aliás, outro membro do
Priorado de Sião teria descoberto a gravidade quando
uma maçã caiu em sua cabeça.
Embora
a Opus Dei, organização católica ultratradicionalista,
faça o papel de vilão em pelo menos parte do livro,
Brown se esforça para livrar a cara do Vaticano no final.
A tentativa de amainar possíveis melindres católicos
quase prejudica a trama, mas há reviravoltas e surpresas
para compensar. O leitor talvez busque O Código Da Vinci
pelo sabor de escândalo que a história de Madalena
guarda, mas não é isso que o segurará ao longo
do livro. O herói da história que já
aparecia no livro anterior de Brown, Angels & Demons,
ainda sem edição no Brasil é Robert
Langdon, professor de história da arte em Harvard e especialista
em simbologia. Ele se torna o principal suspeito da morte do curador
do Louvre. Com a ajuda de Sophie Neveu, uma criptologista francesa,
Langdon tenta ao mesmo tempo fugir da polícia e decifrar
os enigmas deixados por Saunière. A grande atração
do livro está na resolução de charadas, códigos,
anagramas. O leitor sente que está resolvendo um elaborado
quebra-cabeça mas sem suar a testa, pois na verdade
são os personagens que desvendam todo o mistério.
Todo o mistério? Dan Brown deixou um desafio para
os mais obstinados. "Cada um dos nomes de personagens é um
código ou tem um sentido oculto", avisa o autor.
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