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Entrevista:
Henrique Meirelles
"Não
tenho o
direito de errar"
O
presidente do BC defende a política
de juros e a meta de inflação e afirma
que o Brasil está na rota da retomada
do crescimento

Lauro
Jardim
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Ana Araújo

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"Sinto-me
muito à
vontade no cargo.
Em última análise,
foi isso que fiz
a vida toda no BankBoston"
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O goiano
Henrique Meirelles não passa um dia sem ouvir críticas
às taxas de juro do país e ao conservadorismo do Banco
Central, que ele comanda há quinze meses. Os tiros chegam
de todos os lados partem de empresários, de gente
do próprio governo e de integrantes do PT. Na semana passada,
por exemplo, o vice-presidente José Alencar atacou pela enésima
vez a política monetária do BC, e o deputado Ivan
Valente (PT-SP) simplesmente pediu sua cabeça publicamente.
Na semana anterior, tinha sido a vez de Aloizio Mercadante, líder
do governo no Senado, pedir a elevação das metas de
inflação. Mas que ninguém espere por mudanças.
"Acho que o debate é saudável, deve ser realizado",
afirma, diplomaticamente, Meirelles. "Mas estamos no caminho de
todos os países que conseguiram atingir um patamar baixo
de juros." Na quarta-feira passada, o ex-presidente mundial do BankBoston,
de 58 anos, recebeu VEJA em seu gabinete na sede do BC, em Brasília,
para a seguinte entrevista.
Veja
Em sua opinião, o que aconteceria se o BC baixasse
os juros violentamente, de uma só penada, como sugerem alguns
economistas e vários integrantes do governo?
Meirelles Já fizemos toda uma série
de experiências heterodoxas no Brasil e os resultados foram
desastrosos. Vamos olhar os resultados de experiências desse
tipo no país. Houve aumento dramático da inflação,
fuga de capitais, dificuldade de rolar a dívida pública,
crise e contração fortíssima do PIB.
Veja
O Brasil ainda é muito vulnerável...
Meirelles Mas o grau de vulnerabilidade da economia
brasileira tem caído fortemente. Preste atenção
no fato de que o Brasil no passado tinha um dilema entre crescimento
e vulnerabilidade externa. O país crescia, mas quando crescia
aumentava muito o déficit em conta corrente. Em conseqüência,
aumentava também sua vulnerabilidade externa. Hoje, estamos
crescendo, com saldo comercial elevado, com exportações
em alta e com superávit na balança de contas correntes,
o que significa que pela primeira vez na história o Brasil
saiu desse dilema. As reservas líquidas vêm crescendo.
A dívida indexada ao câmbio caiu de um máximo
de 40% para cerca de 19% do total. Então, a resposta a sua
pergunta é: o Brasil está muito menos vulnerável
do que era no passado e os fundamentos da economia estão
sólidos o suficiente para nos dar confiança no futuro
e na possibilidade de o país ser capaz de enfrentar crise
externa ou interna.
Veja
Mas a relação dívida pública/PIB
está em 58%. É um índice percebido como potencialmente
muito perigoso pelos investidores...
Meirelles Nós vemos a evolução
da dívida sobre o PIB de uma forma extremamente positiva.
Pela primeira vez em muitos anos, estamos em condições
de obter um decréscimo gradual para os próximos anos.
Veja
O vice-presidente José Alencar afirmou na segunda-feira
que a política monetária do governo conduz à
irresponsabilidade fiscal, porque o superávit primário
não cobre o déficit provocado pelos juros altos. Como
o presidente do BC responde a essa censura pública vinda
do vice-presidente da República?
Meirelles O governo está promovendo uma política
de grande responsabilidade fiscal. Aumentou a meta do superávit
primário e cumpriu essa meta. Estabilizou o crescimento da
dívida, que estava aumentando sistematicamente nos últimos
anos, e agora se estabilizou. E já que falamos de política
fiscal: as taxas de juro reais que se praticam hoje no Brasil para
a emissão de títulos do Tesouro indexados à
inflação, por exemplo, são de cerca de 8,5%,
as mais baixas dos últimos anos. No início de 2003,
estavam em 13% e houve patamares muito maiores que isso. Portanto,
a política monetária e fiscal é de extremo
sucesso. Sou uma pessoa que na minha vida profissional sempre procurou
medir os resultados e não as opiniões. E os
resultados são os melhores possíveis, não só
em termos de estabilização do tamanho da dívida,
mas também de custo da dívida. Hoje, o custo é
o menor dos últimos anos.
Veja
No mesmo discurso, o vice-presidente disse que "não
entende como a Índia, mais pobre do que nós, rola
a sua dívida a uma taxa de juro real de 1,5%, e o Brasil
a 10%". O senhor sabe o motivo?
Meirelles Essa é uma pergunta que devemos
fazer aos investidores, não só brasileiros como do
mundo todo. Repito: temos de separar as opiniões dos fatos.
Nós todos concordamos o vice-presidente, o ministro
da Fazenda e todos os brasileiros que precisamos baixar a
taxa de juro do Brasil. Isso é unanimidade, inclusive dentro
do BC. A dúvida é como fazê-lo. No passado,
houve confisco, tablitas, congelamentos, calotes, moratórias,
que, em vez de baixar a taxa de juro, terminaram por fazê-la
subir. Hoje, nós pagamos o preço disso. O que estamos
fazendo é não repetir os erros anteriores. Em conseqüência,
a taxa de juro está caindo. Quem sabe se nós continuarmos
na política atual vamos conseguir rolar a dívida a
taxas iguais às da Índia, que, aliás, tem uma
política econômica historicamente bastante responsável.
Veja
Mas e o caso da Argentina, que fez todas essas mágicas
heterodoxas que o senhor citou, além de recentemente ainda
bater de frente com o FMI, e consegue ter taxas mais baixas que
as do Brasil. Qual é o segredo?
Meirelles A Argentina não consegue necessariamente
taxas mais baixas que o Brasil. O risco argentino está acima
de 5 000 pontos, o que significa que o governo argentino ou uma
empresa de lá que emitir títulos vai fazê-lo
numa taxa extremamente elevada. Agora, o país está
em moratória e com grande capacidade ociosa pela recessão
enorme que teve. Por causa disso, existem segmentos de liquidez
no mercado argentino que permitem que algumas taxas estejam baixas.
Mas, evidentemente, ninguém quer para o Brasil essa situação.
Veja
Mesmo com quase dois meses de crise política
e com a queda de confiança dos empresários, o senhor
acha que dá para manter a previsão de um crescimento
de 3,5% do PIB para este ano? Já não é hora
de revê-la?
Meirelles Não. Todos os fundamentos da economia
estão caminhando para o crescimento: a produção
industrial, a exportação, a produção
agrícola. Cresce também a renda em conseqüência
do aumento da massa salarial, e isso já começa a influenciar
a demanda pelos bens não duráveis. Além do
mais, os efeitos dos cortes da taxa de juro desde junho ainda não
mostraram todo o seu efeito.
Veja
Em que medida essa política monetária
trava o crescimento do país? A atuação do BC
no ano passado não contribuiu para a queda de 0,2% do PIB?
Meirelles Se olharmos o desempenho da economia em
2003, vamos verificar que a economia se contraiu no primeiro e no
segundo trimestres, em conseqüência da crise vivida pelo
Brasil na virada do ano: as taxas de juro estavam o dobro do que
estão hoje, o risco-país passava de 2 000 pontos,
o nível de incerteza levava as empresas e as famílias
a contrair os planos de investimento. Isso é o que fez com
que a economia tivesse um movimento de contração até
junho. A partir do terceiro trimestre, a companhia começou
a... Ou melhor, o país começou a crescer. E cresceu
no quarto trimestre a uma taxa bastante elevada para os padrões
internacionais a taxa do trimestre, anualizada, chegou a
6,1%. É importante mencionar que países submetidos
à mesma dimensão de crise que o Brasil sofreu em 2002
tiveram contração do PIB de 4% a 12% no primeiro ano
após a crise. Ou seja, é algo penoso, duro, mas a
verdade é que em termos relativos o Brasil teve um desempenho
satisfatório considerando-se a dimensão da crise.
O que o BC pode fazer, quando trabalha bem, é estabilizar
a moeda, estabilizar os preços. Preços estáveis
são a precondição para o crescimento. Mas preços
estáveis apenas não fazem com que as taxas de crescimento
do país aumentem sistematicamente. Tentativas do BC, no Brasil
e em outros países, de inflar a economia visando ao crescimento
têm levado a desastres. Isso desorganiza a economia e pune
as camadas mais pobres, que são aquelas que mais sofrem com
a inflação. Portanto, a função do BC
é criar um ambiente de estabilidade que permita ao país
crescer. Não há dúvida de que o crescimento
demanda toda uma série de outras medidas, como aumento de
poupança, de investimento. Para isso ocorrer, existe toda
uma série de reformas que estão em andamento.
Veja
Em meio a essa carga de pressões fortes para
baixar os juros ou subir a meta de inflação, evidentemente
seria mais fácil para o senhor trabalhar com um BC autônomo,
como, aliás, era a promessa do governo.
Meirelles O presidente da República e
o ministro da Fazenda, quando me convidaram para ser presidente
do BC, me garantiram autonomia prática, operacional. E isso
está sendo cumprido rigorosamente. O BC tem uma autonomia
absoluta para exercer seu mandato. Sobre a questão da independência
formal de fato, a experiência de outros países mostra
vantagens importantes, mas não cabe ao BC opinar sobre isso.
Essa é uma decisão do presidente da República.
Não compete ao BC falar sobre a própria autonomia.
Veja
De qualquer maneira, há um ano o ministro Antonio
Palocci e o senhor falavam publicamente que viria o BC independente.
E o que o senhor está falando agora é um passo atrás.
Essa discussão morreu dentro do governo?
Meirelles Não há nenhuma volta atrás.
Nós falamos de uma intenção de autonomia formal
e de uma autonomia prática. Não houve nenhum recuo
em relação à autonomia prática, que
continua totalmente operacional. Em relação à
autonomia formal, não foi feito naquela ocasião anúncio
do momento em que iria se fazer isso, inclusive porque é
uma decisão que deve ocorrer dentro do processo legislativo,
que tem várias prioridades e várias outras complexidades.
Veja
As metas de inflação devem ser revistas,
como pregou o senador Aloizio Mercadante recentemente?
Meirelles Existem duas discussões diferentes
que não devem ser confundidas. Em primeiro lugar, a discussão
sobre a meta de 2004. Sobre essa, o BC já se posicionou dizendo
que os fatores que levaram a ajustes de meta no passado não
estão presentes na mesma magnitude em 2004. Então,
não julgamos que seja adequado falar em alteração
de metas para 2004. O que foi proposto pelo senador Mercadante foi
uma mudança da meta do ano que vem. Ele propunha para 2005
e 2006 a fixação da meta em 5,5%, e não de
4,5%, como está previsto. Isso não está na
agenda do Conselho Monetário Nacional (CMN). Em junho, o
CMN se reúne para fixar a meta de 2006, não a de 2005,
que já está fixada. A função do BC é
implementar a meta fixada pelo CMN.
Veja
Essa meta de inflação de hoje impede
o crescimento do país?
Meirelles Não. Esse é o equívoco
que existiu durante muito tempo e ainda persiste no Brasil
o de achar que estabilidade impede o crescimento, o que significaria,
se isso fosse verdade, que inflação alta induziria
ao crescimento. Se fosse assim, o Brasil seria um dos países
mais ricos do mundo, porque teria crescido a taxas extraordinárias
com toda a hiperinflação que teve, e os países
mais desenvolvidos hoje, inclusive os asiáticos, que estão
crescendo muito, não cresceriam porque têm inflação
baixa....
Veja
Essa é sua primeira experiência no setor
público, depois de uma vida inteira no setor privado. Qual
a diferença fundamental?
Meirelles É o nível de emoção
que a atuação do BC desperta na população,
na imprensa, muito maior do que é na iniciativa privada.
Isso demanda um determinado tipo de atenção, de abordagem
e de responsabilidade diferente. O serviço público
traz uma responsabilidade enorme, na medida em que nós estamos
aqui tomando atitudes que vão influenciar o Brasil nos próximos
anos e nas próximas décadas. E nós não
temos o direito de errar. No setor privado, muitas vezes nós
podemos assumir riscos porque, se houver prejuízo, ele pode
ser pago por um pequeno número de pessoas. Aqui, não.
Veja
O senhor se sente em desvantagem por dirigir o BC
sem ser um operador de mercado ou um economista?
Meirelles Sinto-me bastante à vontade
no cargo. O BC tem diversas funções: a de supervisão
bancária, de normatização, de supervisionar
as liquidações; tem a função monetária,
a de operação nos mercados. Portanto, são diversas
especialidades, e compete ao presidente administrar todas essas
operações do BC. Em última análise,
foi isso que fiz a vida toda. No BankBoston tive gente competente
nas mesas de operação e nas áreas econômicas,
todas elas se reportando a mim. Assim como agora.
Veja
Recentemente houve rumores de que o senhor teria sido
beneficiado por uma circular do próprio BC. Essa circular
aumentava o prazo para que os contribuintes que possuíssem
imóveis no exterior, e não os tivessem declarado,
pudessem fazê-lo. E o senhor teria incluído em sua
declaração de renda um apartamento avaliado em 5,5
milhões de dólares em Nova York...
Meirelles Essa informação é
falsa. Não fiz nenhuma retificação na declaração
de bens no exterior em 2001, que é o ano a que se refere
essa circular. Inclusive em 2001 não fiz essa declaração
porque morava no exterior e quem faz essa declaração
reside no Brasil e tem bens no exterior. Então, é
uma informação que falha pela base. Falha também
porque minha vida é absolutamente cristalina e transparente,
na medida em que eu dirigi instituições internacionais
que são fiscalizadas por todos os órgãos não
só no Brasil como no exterior. Eu tinha não só
o apartamento como outros bens que não foram declarados ao
BC porque eu morava no exterior. Em 2002, morando no Brasil, declarei
ao BC todos os meus bens lá fora, independentemente de serem
imóveis, automóveis ou ativos financeiros. E esse
famoso apartamento, que já vendi, não é secreto:
ele foi objeto de menção em VEJA por ocasião
da minha nomeação.
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