Edição 1848 . 7 de abril de 2004

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Entrevista: Henrique Meirelles
"Não tenho o
direito de errar"

O presidente do BC defende a política
de juros e a meta de inflação e afirma
que o Brasil está na rota da retomada
do crescimento


Lauro Jardim

Ana Araújo

"Sinto-me muito à vontade no cargo. Em última análise, foi isso que fiz a vida toda no BankBoston"

O goiano Henrique Meirelles não passa um dia sem ouvir críticas às taxas de juro do país e ao conservadorismo do Banco Central, que ele comanda há quinze meses. Os tiros chegam de todos os lados – partem de empresários, de gente do próprio governo e de integrantes do PT. Na semana passada, por exemplo, o vice-presidente José Alencar atacou pela enésima vez a política monetária do BC, e o deputado Ivan Valente (PT-SP) simplesmente pediu sua cabeça publicamente. Na semana anterior, tinha sido a vez de Aloizio Mercadante, líder do governo no Senado, pedir a elevação das metas de inflação. Mas que ninguém espere por mudanças. "Acho que o debate é saudável, deve ser realizado", afirma, diplomaticamente, Meirelles. "Mas estamos no caminho de todos os países que conseguiram atingir um patamar baixo de juros." Na quarta-feira passada, o ex-presidente mundial do BankBoston, de 58 anos, recebeu VEJA em seu gabinete na sede do BC, em Brasília, para a seguinte entrevista.

Veja – Em sua opinião, o que aconteceria se o BC baixasse os juros violentamente, de uma só penada, como sugerem alguns economistas e vários integrantes do governo?
Meirelles – Já fizemos toda uma série de experiências heterodoxas no Brasil e os resultados foram desastrosos. Vamos olhar os resultados de experiências desse tipo no país. Houve aumento dramático da inflação, fuga de capitais, dificuldade de rolar a dívida pública, crise e contração fortíssima do PIB.

Veja – O Brasil ainda é muito vulnerável...
Meirelles – Mas o grau de vulnerabilidade da economia brasileira tem caído fortemente. Preste atenção no fato de que o Brasil no passado tinha um dilema entre crescimento e vulnerabilidade externa. O país crescia, mas quando crescia aumentava muito o déficit em conta corrente. Em conseqüência, aumentava também sua vulnerabilidade externa. Hoje, estamos crescendo, com saldo comercial elevado, com exportações em alta e com superávit na balança de contas correntes, o que significa que pela primeira vez na história o Brasil saiu desse dilema. As reservas líquidas vêm crescendo. A dívida indexada ao câmbio caiu de um máximo de 40% para cerca de 19% do total. Então, a resposta a sua pergunta é: o Brasil está muito menos vulnerável do que era no passado e os fundamentos da economia estão sólidos o suficiente para nos dar confiança no futuro e na possibilidade de o país ser capaz de enfrentar crise externa ou interna.

Veja – Mas a relação dívida pública/PIB está em 58%. É um índice percebido como potencialmente muito perigoso pelos investidores...
Meirelles – Nós vemos a evolução da dívida sobre o PIB de uma forma extremamente positiva. Pela primeira vez em muitos anos, estamos em condições de obter um decréscimo gradual para os próximos anos.

Veja – O vice-presidente José Alencar afirmou na segunda-feira que a política monetária do governo conduz à irresponsabilidade fiscal, porque o superávit primário não cobre o déficit provocado pelos juros altos. Como o presidente do BC responde a essa censura pública vinda do vice-presidente da República?
Meirelles – O governo está promovendo uma política de grande responsabilidade fiscal. Aumentou a meta do superávit primário e cumpriu essa meta. Estabilizou o crescimento da dívida, que estava aumentando sistematicamente nos últimos anos, e agora se estabilizou. E já que falamos de política fiscal: as taxas de juro reais que se praticam hoje no Brasil para a emissão de títulos do Tesouro indexados à inflação, por exemplo, são de cerca de 8,5%, as mais baixas dos últimos anos. No início de 2003, estavam em 13% e houve patamares muito maiores que isso. Portanto, a política monetária e fiscal é de extremo sucesso. Sou uma pessoa que na minha vida profissional sempre procurou medir os resultados – e não as opiniões. E os resultados são os melhores possíveis, não só em termos de estabilização do tamanho da dívida, mas também de custo da dívida. Hoje, o custo é o menor dos últimos anos.

Veja – No mesmo discurso, o vice-presidente disse que "não entende como a Índia, mais pobre do que nós, rola a sua dívida a uma taxa de juro real de 1,5%, e o Brasil a 10%". O senhor sabe o motivo?
Meirelles – Essa é uma pergunta que devemos fazer aos investidores, não só brasileiros como do mundo todo. Repito: temos de separar as opiniões dos fatos. Nós todos concordamos – o vice-presidente, o ministro da Fazenda e todos os brasileiros – que precisamos baixar a taxa de juro do Brasil. Isso é unanimidade, inclusive dentro do BC. A dúvida é como fazê-lo. No passado, houve confisco, tablitas, congelamentos, calotes, moratórias, que, em vez de baixar a taxa de juro, terminaram por fazê-la subir. Hoje, nós pagamos o preço disso. O que estamos fazendo é não repetir os erros anteriores. Em conseqüência, a taxa de juro está caindo. Quem sabe se nós continuarmos na política atual vamos conseguir rolar a dívida a taxas iguais às da Índia, que, aliás, tem uma política econômica historicamente bastante responsável.

Veja – Mas e o caso da Argentina, que fez todas essas mágicas heterodoxas que o senhor citou, além de recentemente ainda bater de frente com o FMI, e consegue ter taxas mais baixas que as do Brasil. Qual é o segredo?
Meirelles – A Argentina não consegue necessariamente taxas mais baixas que o Brasil. O risco argentino está acima de 5 000 pontos, o que significa que o governo argentino ou uma empresa de lá que emitir títulos vai fazê-lo numa taxa extremamente elevada. Agora, o país está em moratória e com grande capacidade ociosa pela recessão enorme que teve. Por causa disso, existem segmentos de liquidez no mercado argentino que permitem que algumas taxas estejam baixas. Mas, evidentemente, ninguém quer para o Brasil essa situação.

Veja – Mesmo com quase dois meses de crise política e com a queda de confiança dos empresários, o senhor acha que dá para manter a previsão de um crescimento de 3,5% do PIB para este ano? Já não é hora de revê-la?
Meirelles – Não. Todos os fundamentos da economia estão caminhando para o crescimento: a produção industrial, a exportação, a produção agrícola. Cresce também a renda em conseqüência do aumento da massa salarial, e isso já começa a influenciar a demanda pelos bens não duráveis. Além do mais, os efeitos dos cortes da taxa de juro desde junho ainda não mostraram todo o seu efeito.

Veja – Em que medida essa política monetária trava o crescimento do país? A atuação do BC no ano passado não contribuiu para a queda de 0,2% do PIB?
Meirelles – Se olharmos o desempenho da economia em 2003, vamos verificar que a economia se contraiu no primeiro e no segundo trimestres, em conseqüência da crise vivida pelo Brasil na virada do ano: as taxas de juro estavam o dobro do que estão hoje, o risco-país passava de 2 000 pontos, o nível de incerteza levava as empresas e as famílias a contrair os planos de investimento. Isso é o que fez com que a economia tivesse um movimento de contração até junho. A partir do terceiro trimestre, a companhia começou a... Ou melhor, o país começou a crescer. E cresceu no quarto trimestre a uma taxa bastante elevada para os padrões internacionais – a taxa do trimestre, anualizada, chegou a 6,1%. É importante mencionar que países submetidos à mesma dimensão de crise que o Brasil sofreu em 2002 tiveram contração do PIB de 4% a 12% no primeiro ano após a crise. Ou seja, é algo penoso, duro, mas a verdade é que em termos relativos o Brasil teve um desempenho satisfatório considerando-se a dimensão da crise. O que o BC pode fazer, quando trabalha bem, é estabilizar a moeda, estabilizar os preços. Preços estáveis são a precondição para o crescimento. Mas preços estáveis apenas não fazem com que as taxas de crescimento do país aumentem sistematicamente. Tentativas do BC, no Brasil e em outros países, de inflar a economia visando ao crescimento têm levado a desastres. Isso desorganiza a economia e pune as camadas mais pobres, que são aquelas que mais sofrem com a inflação. Portanto, a função do BC é criar um ambiente de estabilidade que permita ao país crescer. Não há dúvida de que o crescimento demanda toda uma série de outras medidas, como aumento de poupança, de investimento. Para isso ocorrer, existe toda uma série de reformas que estão em andamento.

Veja – Em meio a essa carga de pressões fortes para baixar os juros ou subir a meta de inflação, evidentemente seria mais fácil para o senhor trabalhar com um BC autônomo, como, aliás, era a promessa do governo.
Meirelles – O presidente da República e o ministro da Fazenda, quando me convidaram para ser presidente do BC, me garantiram autonomia prática, operacional. E isso está sendo cumprido rigorosamente. O BC tem uma autonomia absoluta para exercer seu mandato. Sobre a questão da independência formal de fato, a experiência de outros países mostra vantagens importantes, mas não cabe ao BC opinar sobre isso. Essa é uma decisão do presidente da República. Não compete ao BC falar sobre a própria autonomia.

Veja – De qualquer maneira, há um ano o ministro Antonio Palocci e o senhor falavam publicamente que viria o BC independente. E o que o senhor está falando agora é um passo atrás. Essa discussão morreu dentro do governo?
Meirelles – Não há nenhuma volta atrás. Nós falamos de uma intenção de autonomia formal e de uma autonomia prática. Não houve nenhum recuo em relação à autonomia prática, que continua totalmente operacional. Em relação à autonomia formal, não foi feito naquela ocasião anúncio do momento em que iria se fazer isso, inclusive porque é uma decisão que deve ocorrer dentro do processo legislativo, que tem várias prioridades e várias outras complexidades.

Veja – As metas de inflação devem ser revistas, como pregou o senador Aloizio Mercadante recentemente?
Meirelles – Existem duas discussões diferentes que não devem ser confundidas. Em primeiro lugar, a discussão sobre a meta de 2004. Sobre essa, o BC já se posicionou dizendo que os fatores que levaram a ajustes de meta no passado não estão presentes na mesma magnitude em 2004. Então, não julgamos que seja adequado falar em alteração de metas para 2004. O que foi proposto pelo senador Mercadante foi uma mudança da meta do ano que vem. Ele propunha para 2005 e 2006 a fixação da meta em 5,5%, e não de 4,5%, como está previsto. Isso não está na agenda do Conselho Monetário Nacional (CMN). Em junho, o CMN se reúne para fixar a meta de 2006, não a de 2005, que já está fixada. A função do BC é implementar a meta fixada pelo CMN.

Veja – Essa meta de inflação de hoje impede o crescimento do país?
Meirelles – Não. Esse é o equívoco que existiu durante muito tempo e ainda persiste no Brasil – o de achar que estabilidade impede o crescimento, o que significaria, se isso fosse verdade, que inflação alta induziria ao crescimento. Se fosse assim, o Brasil seria um dos países mais ricos do mundo, porque teria crescido a taxas extraordinárias com toda a hiperinflação que teve, e os países mais desenvolvidos hoje, inclusive os asiáticos, que estão crescendo muito, não cresceriam porque têm inflação baixa....

Veja – Essa é sua primeira experiência no setor público, depois de uma vida inteira no setor privado. Qual a diferença fundamental?
Meirelles – É o nível de emoção que a atuação do BC desperta na população, na imprensa, muito maior do que é na iniciativa privada. Isso demanda um determinado tipo de atenção, de abordagem e de responsabilidade diferente. O serviço público traz uma responsabilidade enorme, na medida em que nós estamos aqui tomando atitudes que vão influenciar o Brasil nos próximos anos e nas próximas décadas. E nós não temos o direito de errar. No setor privado, muitas vezes nós podemos assumir riscos porque, se houver prejuízo, ele pode ser pago por um pequeno número de pessoas. Aqui, não.

Veja – O senhor se sente em desvantagem por dirigir o BC sem ser um operador de mercado ou um economista?
Meirelles – Sinto-me bastante à vontade no cargo. O BC tem diversas funções: a de supervisão bancária, de normatização, de supervisionar as liquidações; tem a função monetária, a de operação nos mercados. Portanto, são diversas especialidades, e compete ao presidente administrar todas essas operações do BC. Em última análise, foi isso que fiz a vida toda. No BankBoston tive gente competente nas mesas de operação e nas áreas econômicas, todas elas se reportando a mim. Assim como agora.

Veja – Recentemente houve rumores de que o senhor teria sido beneficiado por uma circular do próprio BC. Essa circular aumentava o prazo para que os contribuintes que possuíssem imóveis no exterior, e não os tivessem declarado, pudessem fazê-lo. E o senhor teria incluído em sua declaração de renda um apartamento avaliado em 5,5 milhões de dólares em Nova York...
Meirelles – Essa informação é falsa. Não fiz nenhuma retificação na declaração de bens no exterior em 2001, que é o ano a que se refere essa circular. Inclusive em 2001 não fiz essa declaração porque morava no exterior – e quem faz essa declaração reside no Brasil e tem bens no exterior. Então, é uma informação que falha pela base. Falha também porque minha vida é absolutamente cristalina e transparente, na medida em que eu dirigi instituições internacionais que são fiscalizadas por todos os órgãos não só no Brasil como no exterior. Eu tinha não só o apartamento como outros bens que não foram declarados ao BC porque eu morava no exterior. Em 2002, morando no Brasil, declarei ao BC todos os meus bens lá fora, independentemente de serem imóveis, automóveis ou ativos financeiros. E esse famoso apartamento, que já vendi, não é secreto: ele foi objeto de menção em VEJA por ocasião da minha nomeação.

 
 
 
 
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