Edição 1848 . 7 de abril de 2004

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Em foco: Sérgio Abranches
Lições do Golpe

"Parte de nossos atuais governantes não
teve formação nem prática democrática.
Afeitos às práticas da clandestinidade,
não é de surpreender que as versões
conspiratórias vicejem no Planalto Central"

A razão principal para discutir o regime militar, iniciado em 1964, é chamar a atenção dos jovens para os custos da ditadura. A única herança de 64, fora a dor de suas vítimas, são as lições que se podem tirar dessa tragédia em nossa história. A geração de meus filhos, que nasceu no ventre desse regime, mas já moribundo, não tem dele lembrança alguma. É preciso, sem ressentimento e sem sentimento de revanche, lembrar que tivemos nossa liberdade expropriada por uma razão de Estado errática e preconceituosa. Lembrar, para aprender com os erros, e fazer da vitória final dos democratas conquista permanente.

Ilustração Ale Setti


A primeira lição José Murilo de Carvalho sintetizou em entrevista recente: a ditadura não era inevitável. Resultou dos erros do governo e das esquerdas em imaginar que ganhariam pelo confronto; do vício da oposição civil em se socorrer dos militares, para fazer valer seus interesses; do cálculo equivocado da elite empresarial de que poderia usar o militarismo a favor da economia privada. Como mostrou Wanderley Guilherme dos Santos, em obra clássica, quase inevitável é a ruptura institucional resultante da polarização radicalizada, sobretudo quando um pólo domina o Legislativo e o outro, o Executivo.

Corolário: não é possível ferir apenas temporariamente a ordem democrática para eliminar problemas ou queimar etapas. Não existe uma "saída autoritária". Entra-se no desvio obscurantista sem saber quanto ele durará e quanto custará em vidas, em perda de valores, em atraso no processo de construção das bases institucionais da convivência democrática.

A segunda lição é que a política econômica do período serviu apenas para uma fase de crescimento intenso, mas não sustentável, que transferiu para as gerações futuras – e seus governos – o ônus da megalomania estatista e autoritária. Lembro-me de que, durante a ditadura, muitos que hoje elogiam e se mostram nostálgicos daquela fase milagreira caracterizavam aquele modelo econômico como excludente e concentrador. E ele foi exatamente isso: excluiu as massas dos benefícios de seu efêmero desempenho; concentrou a renda; cartelizou e estatizou a economia; produziu uma hiperurbanização, um inchaço metropolitano, que levou à deterioração das regiões metropolitanas; privilegiou o eixo sudeste da economia, agravando a concentração industrial. Desse regime econômico nasceram a anemia fiscal do Estado e a hiperinflação indexada. Ele agravou a escamoteação das desigualdades raciais e a cristalização das disparidades de renda entre categorias e regiões.

Recentemente, ouvi de um importante empresário nacional que a aventura autoritária não se justifica: não realiza o que se imaginou e depois gera um custo enorme, porque se tem de reconstruir tudo.

A terceira lição fala de educação. O regime militar impediu a universidade de pensar. Subverteu o currículo de todas as séries. Impôs uma "moral e cívica" unilateral e "patrioteira", que teve como resultado criar generalizada rejeição aos valores pátrios, uma revisão adversária da história – em reação ao ufanismo exacerbado – e a negação de nossos heróis e "pais fundadores". Uma falha de nossa cultura cívica, recentemente sublinhada, com toda a razão, pelo presidente Luiz Inácio.

São lições sobre o que não se deve fazer, o que se há de aproveitar daquela longa noite que assombrou nossa evolução republicana. O penoso processo de formação da cidadania foi prorrogado por mais tempo. O passado prejudica o presente e adia, ainda hoje, o encontro pleno da cidadania. Continuamos a liquidar a herança nefasta.

A parte da juventude que tinha vocação política foi levada para a radicalização ou para a alienação: luta armada ou ganhar dinheiro, drogas e psicanálise. Atraso na formação de uma classe política democrática, do qual nos ressentimos hoje e, mais ainda, amanhã, quando a atual geração entre 60 e 70 anos se retirar da atividade política. Parte de nossos atuais governantes não teve formação ou prática democrática. Afeita às práticas da clandestinidade, da conspiração e da fuga à perseguição implacável dos inimigos, vivendo concretamente uma guerra interna, não é de surpreender que o complexo de Creonte, as versões conspiratórias sobre o relacionamento oposição-governo, viceje hoje no Planalto Central.

Vamos lembrar, para não cairmos em tentações autoritárias e sermos capazes de evitar o caminho – este sim perigoso – de radicalizar posições extremadas, vendo o concorrente como inimigo e o adversário como agressor.


Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)

 
 
 
 
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