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Em
foco: Sérgio Abranches
Lições
do Golpe
"Parte
de nossos
atuais governantes não
teve formação nem prática democrática.
Afeitos às práticas da clandestinidade,
não é de surpreender que as versões
conspiratórias vicejem no Planalto Central"
A
razão principal para discutir o regime militar, iniciado
em 1964, é chamar a atenção dos jovens para
os custos da ditadura. A única herança de 64, fora
a dor de suas vítimas, são as lições
que se podem tirar dessa tragédia em nossa história.
A geração de meus filhos, que nasceu no ventre desse
regime, mas já moribundo, não tem dele lembrança
alguma. É preciso, sem ressentimento e sem sentimento de
revanche, lembrar que tivemos nossa liberdade expropriada por uma
razão de Estado errática e preconceituosa. Lembrar,
para aprender com os erros, e fazer da vitória final dos
democratas conquista permanente.
Ilustração Ale Setti
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A primeira lição José Murilo de Carvalho sintetizou
em entrevista recente: a ditadura não era inevitável.
Resultou dos erros do governo e das esquerdas em imaginar que ganhariam
pelo confronto; do vício da oposição civil
em se socorrer dos militares, para fazer valer seus interesses;
do cálculo equivocado da elite empresarial de que poderia
usar o militarismo a favor da economia privada. Como mostrou Wanderley
Guilherme dos Santos, em obra clássica, quase inevitável
é a ruptura institucional resultante da polarização
radicalizada, sobretudo quando um pólo domina o Legislativo
e o outro, o Executivo.
Corolário:
não é possível ferir apenas temporariamente
a ordem democrática para eliminar problemas ou queimar etapas.
Não existe uma "saída autoritária". Entra-se
no desvio obscurantista sem saber quanto ele durará e quanto
custará em vidas, em perda de valores, em atraso no processo
de construção das bases institucionais da convivência
democrática.
A
segunda lição é que a política econômica
do período serviu apenas para uma fase de crescimento intenso,
mas não sustentável, que transferiu para as gerações
futuras e seus governos o ônus da megalomania
estatista e autoritária. Lembro-me de que, durante a ditadura,
muitos que hoje elogiam e se mostram nostálgicos daquela
fase milagreira caracterizavam aquele modelo econômico como
excludente e concentrador. E ele foi exatamente isso: excluiu as
massas dos benefícios de seu efêmero desempenho; concentrou
a renda; cartelizou e estatizou a economia; produziu uma hiperurbanização,
um inchaço metropolitano, que levou à deterioração
das regiões metropolitanas; privilegiou o eixo sudeste da
economia, agravando a concentração industrial. Desse
regime econômico nasceram a anemia fiscal do Estado e a hiperinflação
indexada. Ele agravou a escamoteação das desigualdades
raciais e a cristalização das disparidades de renda
entre categorias e regiões.
Recentemente,
ouvi de um importante empresário nacional que a aventura
autoritária não se justifica: não realiza o
que se imaginou e depois gera um custo enorme, porque se tem de
reconstruir tudo.
A
terceira lição fala de educação. O regime
militar impediu a universidade de pensar. Subverteu o currículo
de todas as séries. Impôs uma "moral e cívica"
unilateral e "patrioteira", que teve como resultado criar generalizada
rejeição aos valores pátrios, uma revisão
adversária da história em reação
ao ufanismo exacerbado e a negação de nossos
heróis e "pais fundadores". Uma falha de nossa cultura cívica,
recentemente sublinhada, com toda a razão, pelo presidente
Luiz Inácio.
São
lições sobre o que não se deve fazer, o que
se há de aproveitar daquela longa noite que assombrou nossa
evolução republicana. O penoso processo de formação
da cidadania foi prorrogado por mais tempo. O passado prejudica
o presente e adia, ainda hoje, o encontro pleno da cidadania. Continuamos
a liquidar a herança nefasta.
A
parte da juventude que tinha vocação política
foi levada para a radicalização ou para a alienação:
luta armada ou ganhar dinheiro, drogas e psicanálise. Atraso
na formação de uma classe política democrática,
do qual nos ressentimos hoje e, mais ainda, amanhã, quando
a atual geração entre 60 e 70 anos se retirar da atividade
política. Parte de nossos atuais governantes não teve
formação ou prática democrática. Afeita
às práticas da clandestinidade, da conspiração
e da fuga à perseguição implacável dos
inimigos, vivendo concretamente uma guerra interna, não é
de surpreender que o complexo de Creonte, as versões conspiratórias
sobre o relacionamento oposição-governo, viceje hoje
no Planalto Central.
Vamos
lembrar, para não cairmos em tentações autoritárias
e sermos capazes de evitar o caminho este sim perigoso
de radicalizar posições extremadas, vendo o concorrente
como inimigo e o adversário como agressor.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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