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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
Diploma e monopólio
"Os
pobres com pouco estudo devem competir pelos empregos que o mercado oferece.
Mas para quem tem curso universitário o mercado é protegido
por lei" Faz quase dois séculos que foram
fundadas escolas de direito e medicina no Brasil. É embaraçoso verificar
que ainda não foram resolvidos os enguiços entre diplomas e carreiras.
Falta-nos descobrir que a concorrência (sob um bom marco regulatório)
promove o interesse da sociedade e que o monopólio só é bom
para quem o detém. Não fora essa ignorância, como explicar
a avalanche de leis que protegem monopólios espúrios para o exercício
profissional? Desde a criação
dos primeiros cursos de direito, os graduados apenas ocasionalmente exercem a
profissão. Em sua maioria, sempre ocuparam postos de destaque na política
e no mundo dos negócios. Nos dias de hoje, nem 20% advogam.
Ilustração
Atomica Studio
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Mas
continua havendo boas razões para estudar direito, pois esse é um
curso no qual se exercita lógica rigorosa, se lê e se escreve bastante.
Torna os graduados mais cultos e socialmente mais produtivos do que se não
houvessem feito o curso. Se aprendem pouco, paciência, a culpa é
mais da fragilidade do ensino básico do que das faculdades. Diante dessa
polivalência do curso de direito, os exames da OAB são uma solução
brilhante. Aqueles que defenderão clientes nos tribunais devem demonstrar
nessa prova um mínimo de conhecimento. Mas, como os cursos são também
úteis para quem não fez o exame da Ordem ou não foi bem-sucedido
na prova, abrir e fechar cursos de "formação geral" é assunto
do MEC, não da OAB. A interferência das corporações
não passa de uma prática monopolista e ilegal em outros ramos da
economia. Questionamos também se uma corporação profissional
deve ter carta-branca para determinar a dificuldade das provas, pois essa é
também uma forma de limitar a concorrência mas trata-se aí
de uma questão secundária.
A medicina é uma carreira estritamente profissional, não prepara
para outras funções. O custo de estudá-la é quatro
vezes maior do que o custo de estudar direito. E pior do que no direito são
as conseqüências dramáticas dos erros. Portanto, garantir qualidade
na formação de todos os médicos é do mais legítimo
interesse social. É lamentável que as associações
médicas demonstrem uma atitude tão tíbia diante de faculdades
fracas. Pior, a lista de punições para erros médicos é
embaraçosamente curta. A melhor
solução está aí para todos verem: as provas da OAB,
os exames para exercer medicina nos Estados Unidos e, agora, iniciativas semelhantes
em São Paulo. Ademais, os médicos, como os pilotos de avião,
deveriam passar em provas periódicas, para demonstrar sua atualização.
Querer proibir a abertura de cursos não passa de uma tentativa de reduzir
a oferta de médicos, sem melhorar a qualidade dos que aí estão.
Ao desdenharem dos exames e reivindicarem um ferrolho nas faculdades, as associações
mostram à sociedade que prezam mais seus salários do que a saúde
da população. O correto seria a liberdade de abrir cursos, seguida
de uma prova individual rígida. Como acontece em outros países,
só quem varasse esse ferrolho poderia exercer a medicina.
Resta mencionar os cursos de administração, outra formação
clássica de cultura geral. Por que exigir diplomas para o exercício
profissional? Nos Estados Unidos, onde nasceram tais cursos, não há
nenhuma exigência de diploma. Além disso, as melhores universidades
não oferecem administração no nível de bacharelado.
Na Alemanha, praticamente, não há formação em administração
de empresas. Não consta que esses países padeçam de incompetência
crônica na gestão dos seus negócios. É mais uma profissão
se locupletando dos monopólios conferidos por leis passadas sorrateiramente
no Congresso. Jornalismo é um caso até mais absurdo de monopólio
dos diplomas. Menos mal que uma lei semelhante para bacharéis de astrologia
não foi aprovada. É no mínimo
um passo atrás que o MEC haja cedido às pressões dos médicos
e advogados para exercer legalmente o seu pseudodireito de vetar a abertura de
novos cursos. Erro do MEC? Não, da sociedade brasileira, que assiste passivamente
a tais tentativas de cercear a concorrência. Os pobres com pouco estudo
devem competir pelos empregos que o mercado oferece. Mas para quem tem curso universitário
o mercado é protegido por lei.
Claudio de Moura Castro é economista (Claudio&Moura&Castro@attglobal.net)
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