Ensaio:
Roberto Pompeu
de Toledo África, feitiçaria
e
maioridade penal
O incrívelcaso dascrianças
de Kinshasa
e o deslocadodebate sobre a punição
de
menoresno Brasil
Entre os muitos fenômenos
com origem na penúria africana, um dos mais pungentes
é o das crianças-feiticeiras de Kinshasa, a
capital da República Democrática do Congo, ex-Zaire.
São crianças às quais são atribuídos
poderes capazes de causar desgraças diversas a suas
famílias, conhecidos e vizinhos. Muitas acabam abandonadas
pelos pais e viram crianças de rua. O antropólogo
belga Filip De Boeck é talvez o acadêmico que
mais tem estudado o assunto. Num de seus trabalhos, ele transcreve
a entrevista com a mãe de Nuclette, menina de 4 anos,
acusada por uma vizinha de à noite se transformar em
adulto e perpetrar maldades. A mãe, portadora do vírus
da aids, decidiu levar a filha ao pastor Norbert, de uma das
denominações pentecostais que se multiplicam
na África Subsaariana. A mãe relatou a De Boeck:
"O pregador declarou que Nuclette
era uma feiticeira. Então ele perguntou onde estava
meu marido. Eu disse que ele tinha deixado nosso bairro e
que agora morava em outra parte da cidade. Ele disse: 'É
Nuclette a responsável pelo fracasso do seu casamento.
Ela fez que seu marido fugisse. E, quando você dormia
à noite, ela veio, com outras crianças-feiticeiras,
e lhe injetou sangue contaminado, com uma agulha diabólica'.
Foi assim que eu peguei aids. Fiquei muito, muito magra. Permaneci
na igreja mais ou menos por um mês e o pastor me purificou.
Estava quase morrendo quando cheguei lá, mas agora
me curei da aids".
No momento da entrevista, também
a filha estava internada na igreja, sendo submetida a práticas
destinadas a livrá-la de sua natureza feiticeira. Outras
crianças são expulsas de casa e engrossam os
exércitos de meninos e meninas de rua de Kinshasa.
A elas, as famílias atribuem as doenças, a fome,
a falta de emprego, as brigas e outros tormentos. Segundo
a crença popular, as crianças-feiticeiras transformam-se
à noite e em bandos, às vezes viajando em vassouras
voadoras, saem para espalhar o mal. Muitas crianças
acabam acreditando que são, sim, feiticeiras, como
é o caso do pequeno Serge, ouvido pelo fotógrafo
Vincent Beeckman, outro belga familiarizado com o problema:
"Eu comi oitocentos homens,
eu os fiz sofrer acidentes de avião e de carro, cheguei
mesmo a ir à Bélgica, graças a uma sereia
que me levou até o porto de Antuérpia. Às
vezes viajo numa vassoura, às vezes na casca de um
abacate. À noite, tenho trinta anos e cem filhos. Meu
pai perdeu seu emprego de engenheiro por minha causa, depois
eu o matei com uma sereia. Também matei minha irmã
e meu irmão, enterrando-os vivos. Também matei
todos os fetos de minha mãe".
O relato de Serge cita alguns
traços atribuídos recorrentemente às
crianças-feiticeiras. Um é que elas gostam de
comer gente. Outro, que à noite viram adultos e têm
filhos, destinados a tornar-se feiticeiros como elas. Na onda
de medo das crianças-feiticeiras que se apoderou do
Congo a partir dos anos 90, não por acaso um período
de guerra civil, miséria e desintegração,
aliam-se antigas crendices africanas com a ação
dos pregadores pentecostais e sua ênfase nos artifícios
do demônio. Explica De Boeck que os pregadores não
inventaram, mas deram força ao mito dos pequenos malditos.
As TVs controladas por evangélicos apresentam programas
em que as crianças são apresentadas e denunciadas
ou submetidas a exorcismos.
No Brasil não se acredita
em pequenos feiticeiros (por enquanto), mas de um tempo para
cá o país foi tomado de um medo pânico
de crianças. Por um desses desvios próprios
destas terras, o martírio do pequeno João Hélio
gerou como principal conseqüência o debate sobre
o rebaixamento da maioridade penal quando, entre os
cinco acusados da morte do menino, apenas um era menor. Escolhe-se
abordar o acessório em vez das questões muito
mais complicadas e centrais da corrupção policial
ou da legalização das drogas. Este é
o incrível país em que o crime organizado é
comandado das cadeias por telefones celulares mas,
nas últimas semanas, o que avultou, como causa da violência,
é que as crianças e os adolescentes estão
fora do alcance da lei penal.
Não que não haja
menores que mereçam ser mantidos afastados da sociedade.
Para crimes hediondos por eles praticados (e só esses
crimes, muito bem tipificados), tenham 15, 16 ou 17 anos,
uma boa sugestão foi avançada pelo psicanalista
Contardo Calligaris, na Folha de S.Paulo: caberia a
"uma comissão, um juiz especializado ou mesmo um júri
popular" determinar se devem ser julgados como adultos. Há
aí a vantagem, primeiro, de contornar a arbitrariedade
de escolher uma idade a partir da qual o jovem seria equiparado
ao adulto. E, segundo, de estabelecer um filtro que circunscreva
a punição a casos raros e muito especiais. O
Brasil já conta com suficientes sinais de africanização.
Há favelas, periferias e núcleos sertanejos
que não causariam estranheza se tomados como prolongamentos
de Kinshasa. Do que menos necessitamos é de uma corrida
contra as crianças-feiticeiras.