O diretor Wang Xiaoshuai mostra
uma China cheia
de competitividade e sôfrega pelo individualismo
Isabela Boscov
Antes que os guerreiros
voadores virassem um item de exportação, o cinema
chinês era conhecido e celebrado por sua versão
particular da tradição neo-realista a
qual prossegue firme e forte no trabalho de cineastas como
Zhang Yang, de Banhos, e Wang Xiaoshuai, de Bicicletas
de Pequim e de Sonhos com Xangai (Qing
Hong, China, 2005), que estréia nesta sexta-feira
no país. Em 1983, numa remota província rural,
um punhado de famílias curte o arrependimento de, nos
anos 60, ter atendido a um chamado do governo para deixar
as grandes cidades e estabelecer uma "terceira frente de defesa"
no interior um dos planos tresloucados do ditador Mao
Tsé-tung para fortalecer o país após
seu rompimento com a União Soviética. Nenhum
desses deslocados é mais amargo do que Wu (Yao Anlian),
que viu sua juventude se esvair no isolamento e na mediocridade.
Wu pressente que o mundo e a China estão mudando rapidamente.
Quer de todas as formas retornar à sua Xangai, para
embarcar nessa mudança e, em especial, para
que também seus filhos embarquem nela. Mas tem contra
si a burocracia e a relutância dessas crianças
que já deitaram raízes nesse campo falido. Assim,
quando Wu detecta na filha Qinghong (Gao Yuanyuan) uma paixonite
por um rapaz local, ele adota medidas drásticas para
destruir o namorico. Tão drásticas que, claro,
vão ocasionar todo tipo de repercussão trágica.
Xiaoshuai é
um diretor de silêncios claustrofóbicos e de
ritmos pesados. Não é, portanto, para todos
os paladares. Mas seu ponto de vista sobre a China é
dos mais interessantes e esclarecedores. Em Bicicletas
de Pequim, que também foi exibido nos cinemas brasileiros,
ele tratava de um rapaz do interior que consegue um emprego
como mensageiro na capital e, dessa forma, amarra seu presente
e seu futuro à nova e bela bicicleta que mal começou
a pagar. A bicicleta é roubada por um menino que quer
impressionar os colegas de escola, e o verdadeiro dono empreende
então uma busca que vai terminar numa explosão
de ressentimento. Essa, a do presente, é uma China
competitiva, marcada por divisões de classe e sôfrega
pelo individualismo que Mao e seus sucessores tentaram suprimir.
E essa é a China que já se pode divisar também
na década de 80, poucos anos após a morte de
Mao, em Sonhos com Xangai um país em
que os mais velhos, que conheceram outra vida, intuem a efemeridade
do sistema que pesa sobre eles e fazem o que podem para preparar
seus filhos para o novo. O cenário, que Xiaoshuai retrata
em todos os seus mínimos detalhes, é sonolento
e retrógrado. Mas, sob a superfície, ele fervilha
com rivalidades entre camponeses e citadinos, desejos de mobilidade
social e, sempre, uma revolta furiosa contra a homogeneização.
Como em seus outros filmes, Xiaoshuai conduz a narrativa da
crônica para o melodrama com habilidade notável.
E, mais uma vez, lança alguma luz muito bem-vinda
sobre um país ao qual o resto do mundo se ligou
umbilicalmente, pela economia e pelo mercado, mas que permanece
quase que indecifrável ao olhar ocidental.