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Edição 1998

07 de março de 2007
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Cinema
Terra em transe

O diretor Wang Xiaoshuai mostra uma China cheia
de competitividade e sôfrega pelo individualismo


Isabela Boscov

Antes que os guerreiros voadores virassem um item de exportação, o cinema chinês era conhecido e celebrado por sua versão particular da tradição neo-realista – a qual prossegue firme e forte no trabalho de cineastas como Zhang Yang, de Banhos, e Wang Xiaoshuai, de Bicicletas de Pequim e de Sonhos com Xangai (Qing Hong, China, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país. Em 1983, numa remota província rural, um punhado de famílias curte o arrependimento de, nos anos 60, ter atendido a um chamado do governo para deixar as grandes cidades e estabelecer uma "terceira frente de defesa" no interior – um dos planos tresloucados do ditador Mao Tsé-tung para fortalecer o país após seu rompimento com a União Soviética. Nenhum desses deslocados é mais amargo do que Wu (Yao Anlian), que viu sua juventude se esvair no isolamento e na mediocridade. Wu pressente que o mundo e a China estão mudando rapidamente. Quer de todas as formas retornar à sua Xangai, para embarcar nessa mudança – e, em especial, para que também seus filhos embarquem nela. Mas tem contra si a burocracia e a relutância dessas crianças que já deitaram raízes nesse campo falido. Assim, quando Wu detecta na filha Qinghong (Gao Yuanyuan) uma paixonite por um rapaz local, ele adota medidas drásticas para destruir o namorico. Tão drásticas que, claro, vão ocasionar todo tipo de repercussão trágica.

Xiaoshuai é um diretor de silêncios claustrofóbicos e de ritmos pesados. Não é, portanto, para todos os paladares. Mas seu ponto de vista sobre a China é dos mais interessantes e esclarecedores. Em Bicicletas de Pequim, que também foi exibido nos cinemas brasileiros, ele tratava de um rapaz do interior que consegue um emprego como mensageiro na capital e, dessa forma, amarra seu presente e seu futuro à nova e bela bicicleta que mal começou a pagar. A bicicleta é roubada por um menino que quer impressionar os colegas de escola, e o verdadeiro dono empreende então uma busca que vai terminar numa explosão de ressentimento. Essa, a do presente, é uma China competitiva, marcada por divisões de classe e sôfrega pelo individualismo que Mao e seus sucessores tentaram suprimir. E essa é a China que já se pode divisar também na década de 80, poucos anos após a morte de Mao, em Sonhos com Xangai – um país em que os mais velhos, que conheceram outra vida, intuem a efemeridade do sistema que pesa sobre eles e fazem o que podem para preparar seus filhos para o novo. O cenário, que Xiaoshuai retrata em todos os seus mínimos detalhes, é sonolento e retrógrado. Mas, sob a superfície, ele fervilha com rivalidades entre camponeses e citadinos, desejos de mobilidade social e, sempre, uma revolta furiosa contra a homogeneização. Como em seus outros filmes, Xiaoshuai conduz a narrativa da crônica para o melodrama com habilidade notável. E, mais uma vez, lança alguma luz – muito bem-vinda – sobre um país ao qual o resto do mundo se ligou umbilicalmente, pela economia e pelo mercado, mas que permanece quase que indecifrável ao olhar ocidental.

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