Apenas
de 2000 para cá, as adaptações de quadrinhos ou graphic novels
renderam 6,4 bilhões de dólares na bilheteria mundial soma
que parece monstruosa até ser comparada aos 12 bilhões computados
no mesmo período pelo gigante do século, o mercado da animação.
Esses números, porém, escondem uma pegadinha. Nesses sete anos,
lançaram-se 28 filmes baseados em quadrinhos, contra 87 desenhos animados.
A rentabilidade dos quadrinhos é, assim, a mais alta de Hollywood hoje,
a despeito de fracassos como Mulher-Gato. Resolvendo a equação:
não há negócio que produtores, diretores e atores não
se disponham a fazer para pôr as mãos em algum herói ainda
inexplorado da Marvel ou da DC Comics, as duas maiores editoras de tirinhas do
planeta. No caso de Nicolas Cage, isso significa topar se ausentar de todas as
grandes cenas de ação de O Motoqueiro-Fantasma (Ghost
Rider, Estados Unidos, 2007) nas quais é substituído,
sem prejuízo, por um esqueleto em chamas, que pilota uma chopper
dos diabos e despacha para o inferno malfeitores desta ou de outras dimensões.
Essa é a forma que o personagem de Cage (e da Marvel), Johnny Blaze, assume
na presença do mal, por causa de um pacto feito com Mefistófeles.
E esse é o tipo de filme em que, já que tudo gira sobre duas rodas,
Mefistófeles é interpretado por Peter Fonda (cuja fama, para quem
é novo demais para pegar a referência, repousa sobre o longínquo,
mas estilosamente motorizado, Sem Destino).
O surpreendente é que O Motoqueiro-Fantasma, desde sexta-feira em
cartaz no país, é a coisa mais divertida em que Cage aparece em
um bom tempo. Não que o mérito seja dele. Um ator cada vez mais
sem personalidade (e aqui com os cabelos e o rosto retocados ao ponto do bizarro),
Cage deixa que o filme aconteça à sua volta. A lista dos prováveis
agradecidos por esse desinteresse é encabeçada pelo sempre cativante
Sam Elliott, que faz render seu pequeno papel como o zelador de um cemitério,
e pelo diretor Mark Steven Johnson, que desde O Demolidor aprendeu a não
fazer drama e investir na paródia. O resultado é que, em apenas
duas semanas, O Motoqueiro-Fantasma engordou aquela conta em 120 milhões.
E demonstrou, como se ainda fosse preciso, por que hoje vale tanto a pena ter
um herói para chamar de seu.