Encerrada na semana passada, a novela Páginas da
Vida ganhou um lugar na história da teledramaturgia
brasileira como a primeira a abordar o preconceito contra
os portadores da síndrome de Down. Apesar de essa intenção
ter sido óbvia e ululante, o Ministério Público
Federal achou pouco. Às vésperas do fim da novela,
o procurador regional paulista Sérgio Gardenghi Suiama
e a procuradora da República Eugênia Augusta
Gonzaga Fávero encaminharam à Globo uma carta
em que recomendavam que o autor, Manoel Carlos, incluísse
na novela cenas para mostrar que é crime uma escola
recusar uma criança portadora de deficiência,
como ocorreu com a personagem Clara (Joana Mocarzel), ou então
veiculasse nos créditos finais uma mensagem a tal respeito.
O não-cumprimento poderia acarretar uma ação
contra a emissora por dano moral coletivo. A recomendação
é estapafúrdia, por ter vindo com seis meses
de atraso: já fazia tempo que a escola de Clarinha
não era assunto na trama. Ela é tola, pois a
novela deixou claro que a ação da escola era
errada: exigir que além dessa mensagem uma novela ainda
divulgue minúcias da lei extrapola o razoável.
Finalmente, ela é perigosa: não é função
de promotores reescrever roteiros; aberto o precedente, que
idéias as autoridades vão querer impingir ao
folhetim de amanhã? Noveleiros com freqüência
criam cenas grosseiras e apelativas. O próprio Manoel
Carlos cometeu deslizes em Páginas da Vida.
Mas, ao falar da síndrome de Down, ele fez um trabalho
corajoso. Os procuradores querem puni-lo pela boa ação.