Como observaram
inúmeros estudiosos, a exemplo do primatologista holandês
Frans de Waal, animais podem cultivar relações
de sexo e poder de uma complexidade quase shakespeariana.
De shakespeariano, o comportamento do pessoal do Big Brother
Brasil não tem nada. Mas as semelhanças
com o mundo animal saltam aos olhos. Freud? Nada disso. A
edição atual se presta, de cabo a rabo, a uma
interpretação darwinista. A pedido de VEJA,
dois especialistas em comportamento animal analisaram as situações
mostradas no programa. Há lances bem parecidos com
os que se verificam em grupos de animais selvagens como os
leões, as hienas e, sobretudo, os chimpanzés.
Diego, o Alemão, é uma espécie de macho
alfa aquele que goza da primazia junto às fêmeas
e mantém sob seu jugo os concorrentes. Ele era o vértice
principal do triângulo amoroso que monopolizou as atenções
na gincana até a semana passada, quando sua namorada
Siri foi expulsa, graças a uma manobra dos dois outros
homens da casa, Alberto e Airton. Esses dois, por sinal, vêm
cumprindo o papel de machos beta aqueles que ocupam
um lugar inferior na hierarquia e costumam formar coalizões
para desafiar o poder do alfa. Depois de insuflarem os participantes
contra Alemão, eles vêm sofrendo as mesmas conseqüências
reservadas aos machos derrotados num bando de macacos: receberam
uma banana de suas ex-aliadas.
O comportamento
das mulheres também se presta a uma análise
do tipo "Discovery Channel". Tome-se o caso de Siri, a defenestrada.
Ela era a predileta do macho alfa, que a tratava carinhosamente
como "a porta", por seus parcos atributos intelectuais. Siri
fazia questão de ostentar sua condição
de favorita coisa que, entre animais como as hienas,
é um atalho para a expulsão do grupo. "Essa
não é uma boa estratégia de sobrevivência
para fêmeas em bandos", diz o geneticista Renato Zamora
Flores, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Siri
também causava irritação pelo hábito
de cantar em altos (e desafinados) brados, abrir o berreiro
a toda hora e posar de pobre. "Fêmeas espalhafatosas
não são bem-vistas em nenhuma espécie
de mamífero", informa Flores. Em tempo: ao contrário
do que acontece na natureza, em que as fêmeas cobiçam
os genes dos machos mais fortes, para ter uma prole sadia,
no Big Brother o prêmio vem na forma de fama
e dinheiro. Por isso, Siri pode dar-se ao luxo de nunca ceder
às investidas sexuais do Alemão. Na hora do
vamos-ver, Diego se enroscava mesmo no edredom com Fani, ex-miss
Nova Iguaçu e terceiro vértice no triângulo
amoroso.
No papel de fêmea
secundária, Fani que se prestou a lavar louça
para o macho cafajeste, enquanto a outra enxaguava suas cuecas
ensaiou uma aproximação com os inimigos
de Alemão. Mas, depois que a força de Diego
foi reconfirmada, no paredão da semana passada, ela
e as outras mulheres procuram se realinhar com ele. A carioca
Carol, que antes conspirava contra o loiro, agora se mostra
simpática. A catarinense Bruna terminou seu namorico
com Alberto e seguiu o mesmo caminho. Entre os chimpanzés,
as fêmeas mudam de posição de olho em
seus interesses. "Elas tendem a se aproximar dos machos dominantes
em busca de proteção", diz o especialista em
comportamento animal César Ades, da Universidade de
São Paulo.
A batalha entre
os machões representou uma bênção
para a Globo. Depois de um início morno, o programa
decolou no ibope com 47 pontos de média, o paredão
da semana passada foi o de maior repercussão nessa
edição. Outra vez se demonstrou que o sucesso
do reality show é tanto maior quanto mais ele se revela
capaz de gerar um fiapo de trama que seja. Para não
repetir o marasmo da edição anterior, considerada
politicamente correta em excesso pela Globo, optou-se por
gente mais desinibida e de pavio curto. "Tiramos os pobrinhos
e os certinhos. Queríamos um pessoal que incendiasse
a casa", diz o diretor Boninho. Nisso, ele está bem
servido como se pode verificar na versão "para
maiores" exibida nas madrugadas de quarta para quinta-feira,
essa edição é pródiga em mentes
ocas e condutas abjetas. O macho alfa de plantão se
destaca nesses quesitos. Há duas semanas, Diego protagonizou
a pior baixaria até o momento. Depois que os inimigos
arrancaram sua cueca, ele envolveu-se num bate-boca chulo
e só não saiu no soco com Airton porque foi
contido pelas fêmeas, ops, garotas da casa. O administrador
de 26 anos, aliás, já comentou no ar que certa
vez se meteu numa rusga que acabou na delegacia. Como qualquer
macho alfa, ele fica bravo quando invadem o seu território.