Ennio Morricone, o compositor que
não se rendeu
ao cinema americano, ganha, enfim, um Oscar
Sérgio Martins
Mark J. Terrill/AP
Morricone e Eastwood: discurso
em italiano e tradução
Na semana passada, o compositor
italiano Ennio Morricone que deve chegar ao Brasil
no dia 5 de maio, para uma apresentação no Rio
de Janeiro recebeu um Oscar pelo conjunto de sua obra.
Aos 78 anos, mais de 500 trilhas sonoras no currículo,
ele era até agora um daqueles grandes casos de cegueira
ou surdez da indústria americana de cinema.
Responsável pelos temas memoráveis de filmes
como Era uma Vez no Oeste, Os Intocáveis e Cinema
Paradiso, Morricone já havia recebido cinco indicações
ao Oscar, mas não ganhara jamais. Na cerimônia
deste ano, o maestro aceitou graciosamente a estatueta das
mãos do ator e cineasta Clint Eastwood cuja
aura se deve, em parte, às produções
do cineasta italiano Sergio Leone e aos temas do regente
e manteve o sangue-frio diante da mutilação
de uma de suas canções pela canadense Celine
Dion.
Morricone é um compositor
extraordinário porque nunca se contentou em manipular
clichês musicais para ajudar a contar uma história
(o tema genérico para cena de amor; o tema para a seqüência
de perseguição; o tema de suspense etc.). Um
pouco excêntrico, capaz de usar latas ou uma máquina
de escrever em suas orquestrações, ele cria
músicas que se associam de forma indelével a
cenas e personagens. Dessa forma tornou memoráveis
muitas passagens de filmes que não são mais
que medianos basta pensar em Monica Bellucci despindo-se
diante do espelho em Malena, por exemplo. Sergio Leone,
o cineasta italiano morto em 1989, depositava uma fé
tão grande no compositor que pedia que ele compusesse
a trilha sonora antes de iniciar suas filmagens. Além
de westerns antológicos como Três Homens em
Conflito e Era uma Vez no Oeste, eles fizeram juntos,
em 1984, o filme de gângsteres Era uma Vez na América.
Escalado para interpretar o mafioso Noodles, o ator Robert
De Niro preparou-se com esmero para o papel. Quando se gabou
de suas pesquisas, levou uma bronca homérica do diretor.
Segundo Leone, a única preparação necessária
para compor o personagem era ouvir os temas que Morricone
compusera: assim Noodles surgiria, como que do ar.
Formado pelo Conservatório
Santa Cecília, uma das escolas de música mais
conceituadas da Itália, Morricone pertence à
categoria dos "trilheiros eruditos". Talvez seja o único
ao lado de Leonard Bernstein que conquistou
igual reconhecimento no cinema e nas salas de concerto. O
também italiano Nino Rota, por exemplo, só teve
seus concertos executados por grandes orquestras depois de
morto em boa parte porque o regente Riccardo Muti,
seu ex-aluno, decidiu homenageá-lo gravando uma série
de discos. Morricone tem visto trilhas e outros tipos de partitura
que levam sua assinatura ganhar vida com freqüência
nas grandes salas de espetáculo. Ele também
tem laços com o mundo pop. O cantor inglês Morrissey
pediu que ele fizesse os arranjos de cordas de seu último
CD, Ringleader of the Tormentors. Um disco em que Bruce
Springsteen e Quincy Jones, entre outros, dão suas
versões para músicas do italiano acaba de ser
lançado nos Estados Unidos.
Morricone nunca se deixou seduzir
pelas histórias de fortuna e glória do cinema
americano. Por várias vezes recusou convites para morar
nos Estados Unidos. Preferiu permanecer em seu apartamento
em Roma, cidade onde nasceu. Ele se recusa a aprender inglês.
No Oscar, discursou em italiano e não ensaiou sequer
um "thank you". Clint Eastwood fez o papel de tradutor. Ainda
que muita gente do cinema possa pensar que Hollywood deu um
prêmio de consolação a Ennio Morricone,
na verdade foi o maestro que colocou o público americano
notoriamente averso a qualquer outra língua
que não seja o inglês a seus pés.