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07 de março de 2007
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Música
Era uma vez em Hollywood

Ennio Morricone, o compositor que não se rendeu
ao cinema americano, ganha, enfim, um Oscar


Sérgio Martins


Mark J. Terrill/AP
Morricone e Eastwood: discurso em italiano e tradução

Na semana passada, o compositor italiano Ennio Morricone – que deve chegar ao Brasil no dia 5 de maio, para uma apresentação no Rio de Janeiro – recebeu um Oscar pelo conjunto de sua obra. Aos 78 anos, mais de 500 trilhas sonoras no currículo, ele era até agora um daqueles grandes casos de cegueira – ou surdez – da indústria americana de cinema. Responsável pelos temas memoráveis de filmes como Era uma Vez no Oeste, Os Intocáveis e Cinema Paradiso, Morricone já havia recebido cinco indicações ao Oscar, mas não ganhara jamais. Na cerimônia deste ano, o maestro aceitou graciosamente a estatueta das mãos do ator e cineasta Clint Eastwood – cuja aura se deve, em parte, às produções do cineasta italiano Sergio Leone e aos temas do regente – e manteve o sangue-frio diante da mutilação de uma de suas canções pela canadense Celine Dion.

Morricone é um compositor extraordinário porque nunca se contentou em manipular clichês musicais para ajudar a contar uma história (o tema genérico para cena de amor; o tema para a seqüência de perseguição; o tema de suspense etc.). Um pouco excêntrico, capaz de usar latas ou uma máquina de escrever em suas orquestrações, ele cria músicas que se associam de forma indelével a cenas e personagens. Dessa forma tornou memoráveis muitas passagens de filmes que não são mais que medianos – basta pensar em Monica Bellucci despindo-se diante do espelho em Malena, por exemplo. Sergio Leone, o cineasta italiano morto em 1989, depositava uma fé tão grande no compositor que pedia que ele compusesse a trilha sonora antes de iniciar suas filmagens. Além de westerns antológicos como Três Homens em Conflito e Era uma Vez no Oeste, eles fizeram juntos, em 1984, o filme de gângsteres Era uma Vez na América. Escalado para interpretar o mafioso Noodles, o ator Robert De Niro preparou-se com esmero para o papel. Quando se gabou de suas pesquisas, levou uma bronca homérica do diretor. Segundo Leone, a única preparação necessária para compor o personagem era ouvir os temas que Morricone compusera: assim Noodles surgiria, como que do ar.

Formado pelo Conservatório Santa Cecília, uma das escolas de música mais conceituadas da Itália, Morricone pertence à categoria dos "trilheiros eruditos". Talvez seja o único – ao lado de Leonard Bernstein – que conquistou igual reconhecimento no cinema e nas salas de concerto. O também italiano Nino Rota, por exemplo, só teve seus concertos executados por grandes orquestras depois de morto – em boa parte porque o regente Riccardo Muti, seu ex-aluno, decidiu homenageá-lo gravando uma série de discos. Morricone tem visto trilhas e outros tipos de partitura que levam sua assinatura ganhar vida com freqüência nas grandes salas de espetáculo. Ele também tem laços com o mundo pop. O cantor inglês Morrissey pediu que ele fizesse os arranjos de cordas de seu último CD, Ringleader of the Tormentors. Um disco em que Bruce Springsteen e Quincy Jones, entre outros, dão suas versões para músicas do italiano acaba de ser lançado nos Estados Unidos.

Morricone nunca se deixou seduzir pelas histórias de fortuna e glória do cinema americano. Por várias vezes recusou convites para morar nos Estados Unidos. Preferiu permanecer em seu apartamento em Roma, cidade onde nasceu. Ele se recusa a aprender inglês. No Oscar, discursou em italiano e não ensaiou sequer um "thank you". Clint Eastwood fez o papel de tradutor. Ainda que muita gente do cinema possa pensar que Hollywood deu um prêmio de consolação a Ennio Morricone, na verdade foi o maestro que colocou o público americano – notoriamente averso a qualquer outra língua que não seja o inglês – a seus pés.

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