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Edição 1998

07 de março de 2007
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Exposição
Os mortos vão ao museu

Chega ao Brasil a mostra polêmica que usa
cadáveres para explicar a anatomia humana


Marcelo Marthe


Roberto Setton
Divulgação
Múmias modernas: dezesseis cadáveres e 225 partes de corpos vindos de algum lugar na China

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Há dez anos, o anatomista alemão Gunther von Hagens provocou celeuma com uma exposição de cadáveres humanos submetidos a uma técnica pouco conhecida – a plastinação, espécie de mumificação que ele próprio havia criado. A mostra foi vista por mais de 15 milhões de pessoas em várias cidades do mundo. Agora, pela primeira vez, um evento similar chega ao Brasil. Em cartaz na Oca, em São Paulo, a exposição Corpo Humano não foi organizada por Von Hagens, e sim por um concorrente, a empresa americana Premier. Seu curador é o americano Roy Glover, professor aposentado da Universidade de Michigan. Como sempre, os corpos causam impacto. Para muitos espectadores, esse impacto é quase intolerável. Mas o doutor Glover se descreve como um conservador. "Não tenho o mesmo gosto de Von Hagens pelo espetáculo", diz ele.

Roberto Setton
Roy Glover: embora atue no mesmo ramo, ele jura que não tem nada a ver com o Dr. Frankenstein


No que consiste a diferença de estilos, quando se trata de exibir corpos humanos sem a pele, dissecados ou fatiados? Glover diz que uma mostra como Corpo Humano tem dois objetivos: educar e desmistificar a morte. A disposição dos dezesseis cadáveres e 225 partes de corpos segue o roteiro de uma aula de medicina. Há uma sala dedicada ao sistema circulatório, outra aos músculos, à digestão, e assim por diante. Mesmo um corpo fatiado da cabeça aos pés tem, em tese, sua justificativa: a idéia é proporcionar a visão que um médico tem num exame de ressonância magnética. Aborda-se ainda o estrago que as doenças causam – especialmente os males resultantes do fumo. As exposições de Von Hagens também têm esse lado didático. Mas o alemão acrescenta uma dimensão teatral a elas. Os cadáveres surgem em situações jocosas – um deles ergue para o céu a própria pele, enquanto outro surge sobre um cavalo (também ele plastinado). A imagem do próprio Van Hagens tem algo de teatral. O médico, apelidado de "Dr. Frankenstein", nunca se deixa fotografar sem um grande chapéu preto.

Exposições como Corpo Humano são alvo de críticas religiosas. Elas atentariam contra a "sacralidade" do corpo humano. Esse argumento requenta um tabu de 500 anos. Se esse tipo de interdição fosse levado a ferro e fogo, até hoje os anatomistas teriam de trabalhar na clandestinidade, como nos tempos do Renascimento. Mais relevantes são as dúvidas levantadas em relação à procedência dos corpos. Invariavelmente, os cadáveres utilizados nessas mostras vêm da China, onde uma indústria de plastinação se estabeleceu. O problema é saber que tipo de autorização foi dado para que eles se tornassem objeto de exposição. Von Hagens já foi acusado de expor corpos de prisioneiros executados pela ditadura comunista chinesa. Os organizadores de Corpo Humano garantem que os corpos que usam não foram vítimas de crueldade. "Não arriscaria minha reputação se fosse diferente", afirma Roy Glover.

 

O CAÇA-NÍQUEIS DE DA VINCI

Divulgação
Estudo anatômico de Da Vinci: réplicas da pior espécie


Ao lado de Corpo Humano, estreou na semana passada na Oca, em São Paulo, a mostra Leonardo da Vinci – A Exibição de um Gênio. São 150 peças que contemplam as muitas facetas do trabalho do italiano, da engenharia à pintura. Nas seções dedicadas à engenharia, encontram-se montagens artesanais de máquinas que Da Vinci projetou – protótipos de bicicleta, escafandro, armas e até aparelhos voadores. Elas mostram que o renascentista era de fato um visionário, um homem dotado de imaginação incomum. Nas partes dedicadas ao desenho e à pintura, contudo, as coisas se complicam. Tudo lá é réplica, e às vezes réplica constrangedora, como no caso da Mona Lisa. Alardear que as reproduções são de "alta qualidade" só piora a situação – como se isso substituísse o contato com os originais. Detalhes como esse fazem com que a mostra exale um odor fortíssimo de caça-níqueis. Por que abrir mão de uma Mona Lisa fajuta se ela pode atrair alguns visitantes incautos? Esse parece ter sido o raciocínio dos organizadores. Num país como o Brasil, distante das cidades onde as obras legítimas se encontram, as chances de esses incautos serem fisgados são ainda maiores. Dizer que a mostra é totalmente imprestável seria um exagero. O contato com a obra e o pensamento de um dos grandes nomes do Renascimento sempre pode enriquecer, e a parte dedicada às máquinas é de fato simpática e curiosa. Mas seria bom se a mostra fosse mais singela e menos cheia de pirotecnia.

 

   
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