Há
dez anos, o anatomista alemão Gunther von Hagens provocou celeuma com uma
exposição de cadáveres humanos submetidos a uma técnica
pouco conhecida a plastinação, espécie de mumificação
que ele próprio havia criado. A mostra foi vista por mais de 15 milhões
de pessoas em várias cidades do mundo. Agora, pela primeira vez, um evento
similar chega ao Brasil. Em cartaz na Oca, em São Paulo, a exposição
Corpo Humano não foi organizada por Von Hagens, e sim por um concorrente,
a empresa americana Premier. Seu curador é o americano Roy Glover, professor
aposentado da Universidade de Michigan. Como sempre, os corpos causam impacto.
Para muitos espectadores, esse impacto é quase intolerável. Mas
o doutor Glover se descreve como um conservador. "Não tenho o mesmo gosto
de Von Hagens pelo espetáculo", diz ele.
Roberto Setton
Roy Glover: embora atue no mesmo ramo, ele jura
que não tem nada a ver com o Dr. Frankenstein
No que consiste a diferença de estilos, quando se trata de exibir corpos
humanos sem a pele, dissecados ou fatiados? Glover diz que uma mostra como Corpo
Humano tem dois objetivos: educar e desmistificar a morte. A disposição
dos dezesseis cadáveres e 225 partes de corpos segue o roteiro de uma aula
de medicina. Há uma sala dedicada ao sistema circulatório, outra
aos músculos, à digestão, e assim por diante. Mesmo um corpo
fatiado da cabeça aos pés tem, em tese, sua justificativa: a idéia
é proporcionar a visão que um médico tem num exame de ressonância
magnética. Aborda-se ainda o estrago que as doenças causam
especialmente os males resultantes do fumo. As exposições de Von
Hagens também têm esse lado didático. Mas o alemão
acrescenta uma dimensão teatral a elas. Os cadáveres surgem em situações
jocosas um deles ergue para o céu a própria pele, enquanto
outro surge sobre um cavalo (também ele plastinado). A imagem do próprio
Van Hagens tem algo de teatral. O médico, apelidado de "Dr. Frankenstein",
nunca se deixa fotografar sem um grande chapéu preto.
Exposições como Corpo Humano são alvo de críticas
religiosas. Elas atentariam contra a "sacralidade" do corpo humano. Esse argumento
requenta um tabu de 500 anos. Se esse tipo de interdição fosse levado
a ferro e fogo, até hoje os anatomistas teriam de trabalhar na clandestinidade,
como nos tempos do Renascimento. Mais relevantes são as dúvidas
levantadas em relação à procedência dos corpos. Invariavelmente,
os cadáveres utilizados nessas mostras vêm da China, onde uma indústria
de plastinação se estabeleceu. O problema é saber que tipo
de autorização foi dado para que eles se tornassem objeto de exposição.
Von Hagens já foi acusado de expor corpos de prisioneiros executados pela
ditadura comunista chinesa. Os organizadores de Corpo Humano garantem que
os corpos que usam não foram vítimas de crueldade. "Não arriscaria
minha reputação se fosse diferente", afirma Roy Glover.
O CAÇA-NÍQUEIS DE DA VINCI
Divulgação
Estudo anatômico de Da Vinci: réplicas da pior
espécie
Ao lado de Corpo Humano,
estreou na semana passada na Oca, em São Paulo, a mostra Leonardo
da Vinci A Exibição de um Gênio. São 150
peças que contemplam as muitas facetas do trabalho do italiano, da engenharia
à pintura. Nas seções dedicadas à engenharia, encontram-se
montagens artesanais de máquinas que Da Vinci projetou protótipos
de bicicleta, escafandro, armas e até aparelhos voadores. Elas mostram
que o renascentista era de fato um visionário, um homem dotado de imaginação
incomum. Nas partes dedicadas ao desenho e à pintura, contudo, as coisas
se complicam. Tudo lá é réplica, e às vezes réplica
constrangedora, como no caso da Mona Lisa. Alardear que as reproduções
são de "alta qualidade" só piora a situação
como se isso substituísse o contato com os originais. Detalhes como esse
fazem com que a mostra exale um odor fortíssimo de caça-níqueis.
Por que abrir mão de uma Mona Lisa fajuta se ela pode atrair alguns
visitantes incautos? Esse parece ter sido o raciocínio dos organizadores.
Num país como o Brasil, distante das cidades onde as obras legítimas
se encontram, as chances de esses incautos serem fisgados são ainda maiores.
Dizer que a mostra é totalmente imprestável seria um exagero. O
contato com a obra e o pensamento de um dos grandes nomes do Renascimento sempre
pode enriquecer, e a parte dedicada às máquinas é de fato
simpática e curiosa. Mas seria bom se a mostra fosse mais singela e menos
cheia de pirotecnia.