Bernardo
Carvalho é um escritor brasileiro de ambição argentina. Explica-se:
a literatura argentina, de Macedonio Fernández e Jorge Luis Borges aos
contemporâneos Ricardo Piglia e Alan Pauls, abandonou há muito a
miragem da "identidade nacional". Em certa medida, Carvalho busca o mesmo caminho.
O antropólogo americano que se suicida em uma aldeia indígena de
Nove Noites, por exemplo, ou o diplomata brasileiro que busca um fotógrafo
desaparecido no país que dá título ao romance Mongólia
habitam uma espécie de não-país, uma zona de choque cultural
e identidades equívocas. A mesma fórmula é reiterada em O
Sol Se Põe em São Paulo (Companhia das Letras; 164 páginas;
34 reais), romance que chega às livrarias nesta semana. Carioca radicado
em São Paulo, Carvalho, aos 47 anos, vem mostrando consistência na
perseguição de suas obsessões literárias. Foi assim
que conquistou seu lugar entre os melhores autores brasileiros em atividade
um dos poucos que contam com um público leitor efetivo. Nove Noites,
talvez o melhor de seus nove livros, está longe de ser um best-seller,
mas alcançou uma marca respeitável para um autor "sério":
28 000 exemplares vendidos.
Em
O Sol Se Põe em São Paulo um escritor ou, pelo menos,
um homem que se apresenta como tal, embora não tenha publicado livro algum
viaja ao Japão para esclarecer os detalhes obscuros da história
que Setsuko, uma elusiva senhora japonesa, lhe contou. Essa história envolve
um romance inacabado de Junichiro Tanizaki, um dos grandes nomes da literatura
japonesa do século XX (pode-se argumentar que esse vezo de fazer literatura
sobre literatura também é muito argentino, embora nessa vertente
não exista brasileiro que consiga fazer frente a, por exemplo, Respiração
Artificial, de Piglia). Apresenta-se ao leitor um triângulo amoroso
no Japão do imediato pós-guerra, com toques de erotismo perverso
típicos de Tanizaki. O drama sexual, como se saberá ao longo do
livro, encobre tragédias maiores, em uma sucessão abissal de nomes
falsos e identidades trocadas.
É
um enredo difícil, que Carvalho desenrola com relativa desenvoltura. Perde-se
no final, quando o que se supõe ser a verdade dos fatos vem à tona
através de um recurso artificioso uma carta, na qual a remetente
toma o cuidado excessivo de deixar tudo bem explicadinho. São esclarecimentos
demais para um livro que cita com admiração as idéias de
Tanizaki sobre a beleza dos jogos de sombra. Mais importante do que a história
em si, porém, é o esforço do narrador para desenredá-la.
Descendente de japoneses que perdeu o contato com a cultura de seus antepassados
(nem mesmo sabe falar japonês), o narrador descobre um sentido vicário
para sua vida besta de publicitário desempregado na história duvidosa
que ouve de uma velha imigrante japonesa. O que talvez deva ser lido como uma
profissão de fé do autor no poder salvador da arte narrativa
mesmo que essa seja uma arte feita de enganos.
A cidade falsa
"A
Liberdade é um desses bairros de São Paulo que ressaltam no mau
gosto de sua rala fantasia arquitetônica o que a cidade tem de mais pobre
e de paradoxalmente mais autêntico: a vontade de passar pelo que não
é. O pôr-do-sol em São Paulo é reputado como um dos
mais espetaculares, por causa da poluição. (...) São Paulo
não se enxerga. Não é à toa que é uma cidade
de publicitários. Em São Paulo, publicidade é literatura,
expliquei ao homem de lábio leporino, em inglês, sem deixar claro
se fazia uma crítica ou me justificava."