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Edição 1998

07 de março de 2007
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Baile de máscaras

Identidades trocadas e narrativas enganosas
são a marca literária de Bernardo Carvalho


Jerônimo Teixeira

 

Lailson Santos
Bernardo Carvalho: à moda dos argentinos

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Trecho do livro

Bernardo Carvalho é um escritor brasileiro de ambição argentina. Explica-se: a literatura argentina, de Macedonio Fernández e Jorge Luis Borges aos contemporâneos Ricardo Piglia e Alan Pauls, abandonou há muito a miragem da "identidade nacional". Em certa medida, Carvalho busca o mesmo caminho. O antropólogo americano que se suicida em uma aldeia indígena de Nove Noites, por exemplo, ou o diplomata brasileiro que busca um fotógrafo desaparecido no país que dá título ao romance Mongólia habitam uma espécie de não-país, uma zona de choque cultural e identidades equívocas. A mesma fórmula é reiterada em O Sol Se Põe em São Paulo (Companhia das Letras; 164 páginas; 34 reais), romance que chega às livrarias nesta semana. Carioca radicado em São Paulo, Carvalho, aos 47 anos, vem mostrando consistência na perseguição de suas obsessões literárias. Foi assim que conquistou seu lugar entre os melhores autores brasileiros em atividade – um dos poucos que contam com um público leitor efetivo. Nove Noites, talvez o melhor de seus nove livros, está longe de ser um best-seller, mas alcançou uma marca respeitável para um autor "sério": 28 000 exemplares vendidos.

Em O Sol Se Põe em São Paulo um escritor – ou, pelo menos, um homem que se apresenta como tal, embora não tenha publicado livro algum – viaja ao Japão para esclarecer os detalhes obscuros da história que Setsuko, uma elusiva senhora japonesa, lhe contou. Essa história envolve um romance inacabado de Junichiro Tanizaki, um dos grandes nomes da literatura japonesa do século XX (pode-se argumentar que esse vezo de fazer literatura sobre literatura também é muito argentino, embora nessa vertente não exista brasileiro que consiga fazer frente a, por exemplo, Respiração Artificial, de Piglia). Apresenta-se ao leitor um triângulo amoroso no Japão do imediato pós-guerra, com toques de erotismo perverso típicos de Tanizaki. O drama sexual, como se saberá ao longo do livro, encobre tragédias maiores, em uma sucessão abissal de nomes falsos e identidades trocadas.

É um enredo difícil, que Carvalho desenrola com relativa desenvoltura. Perde-se no final, quando o que se supõe ser a verdade dos fatos vem à tona através de um recurso artificioso – uma carta, na qual a remetente toma o cuidado excessivo de deixar tudo bem explicadinho. São esclarecimentos demais para um livro que cita com admiração as idéias de Tanizaki sobre a beleza dos jogos de sombra. Mais importante do que a história em si, porém, é o esforço do narrador para desenredá-la. Descendente de japoneses que perdeu o contato com a cultura de seus antepassados (nem mesmo sabe falar japonês), o narrador descobre um sentido vicário para sua vida besta de publicitário desempregado na história duvidosa que ouve de uma velha imigrante japonesa. O que talvez deva ser lido como uma profissão de fé do autor no poder salvador da arte narrativa – mesmo que essa seja uma arte feita de enganos.

 

A cidade falsa

"A Liberdade é um desses bairros de São Paulo que ressaltam no mau gosto de sua rala fantasia arquitetônica o que a cidade tem de mais pobre e de paradoxalmente mais autêntico: a vontade de passar pelo que não é. O pôr-do-sol em São Paulo é reputado como um dos mais espetaculares, por causa da poluição. (...) São Paulo não se enxerga. Não é à toa que é uma cidade de publicitários. Em São Paulo, publicidade é literatura, expliquei ao homem de lábio leporino, em inglês, sem deixar claro se fazia uma crítica ou me justificava."

Trecho de O Sol Se Põe em São Paulo

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