Para desespero
dos puristas do pedigree, a moda agora é misturar duas raças
para ter um cão inusitado
Duda
Teixeira
Fotos
Chelle Calbert
PUG
+
BEAGLE
=
PUGGLE
(foto)
Não tem focinho, o que torna
sua respiração sofrível. Carece de noção espacial
e não é capaz de sobreviver sem a ajuda do homem. Peso: 6-8
kg Altura: 26-33 cm
Cão
caçador, possui comportamento agitado e brincalhão. Muito apreciado
pelas crianças. Peso: 14-17 kg Altura: 30-36 cm
Com um focinho projetado para fora, tem menos
problemas respiratórios que os pugs. Adora correr, mas não tem a
mínima idéia de como voltar para casa. Peso: 6-9 kg Altura:
26-36 cm
O
que dá misturar um cão labrador, tradicional guia de cegos, com
um poodle, cachorrinho de madame? Um labradoodle. E o que dá cruzar um
pug sem focinho com um alegre beagle? Um puggle. O que no passado era chamado
de vira-lata, isto é, um cão sem raça definida, nos últimos
dois anos virou moda. Nos Estados Unidos, esses cruzamentos inesperados estão
sendo levados a sério por dezenas de canis, que se tornaram conhecidos
como "designers de cachorros". O campeão de golfe Tiger Woods comprou um
labradoodle, e o ator Sylvester Stallone também tem seu híbrido,
como é chamado o animal surgido desses cruzamentos. Um labradoodle pode
custar 2.500 dólares, preço superior ao de boa parte dos cães
de pedigree tradicional. O Clube de Cães Híbridos Americano já
registrou 400 raças de design, número que ultrapassa as 338 raças
puras aceitas pela Federação Cinológica Internacional (FCI).
O designer de cães está em
alta também na Austrália, no Canadá e na Inglaterra
no Brasil, por enquanto, híbridos só aqueles nascidos do acaso.
Na Inglaterra, país responsável pela criação de muitas
das raças atuais, o interesse pelos híbridos ameaça extinguir
alguns pedigrees tradicionais. Sete deles registraram menos de 100 nascimentos
no ano passado, entre eles o sussex spaniel, bastante popular no passado. São
necessários pelo menos 300 cãezinhos por ano para garantir a sobrevivência
de uma raça. Do ponto de vista genético, a mistura é saudável.
Uma raça pura de cão é criada a partir do cruzamento controlado
de animais com características que o criador deseja salientar. Fatalmente,
isso inclui cruzamentos consanguíneos, o que reduz a diversidade genética
dos animais. "Isso abre espaço para a manifestação de genes
recessivos, onde está a maioria das doenças", diz o agrônomo
Fernando Enrique Madalena, professor de genética animal da Universidade
Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte.
Estima-se que um em cada quatro animais de pedigree possua alguma doença
de origem genética. Os dálmatas ficam surdos com a idade, os rottweilers
perdem o movimento das patas traseiras, os boxers são suscetíveis
a câncer e os cocker spaniels sofrem com inflamações no ouvido.
"Quando as pessoas dizem que os vira-latas são mais saudáveis, estão
falando a mais pura verdade", diz o zootecnista e adestrador Alexandre Rossi,
de São Paulo. A única preocupação dos designers caninos
é a de criar produtos atraentes para os consumidores.
Desde que domesticou os primeiros cães, há mais de 12.000 anos,
o homem vem moldando esses animais segundo os próprios interesses. No início,
acredita-se que tenha selecionado aqueles capazes de ajudar na caça e na
guarda dos acampamentos. A maioria das raças que conhecemos hoje, contudo,
surgiu no século XIX. Foi quando exposições e concursos na
Europa incentivaram a busca de novas raças por motivos estéticos.
Orelhas que se arrastam pelo chão, como as do basset, ou olhos que lembram
os de um bebê, como os do pug, tornaram-se atributos desejados em um cão.
No século passado, a vida em apartamento nas grandes cidades fez aumentar
a demanda por cachorros pequenos, como os chihuahuas e os chamados toys, versões
menores de animais bem conhecidos.
O poodle
é um dos cães mais utilizados nos acasalamentos de híbridos.
Já foram feitas experiências bem-sucedidas de poodle com outras 38
raças. Há várias explicações para essa preferência.
A raça é apreciada pelas mulheres e tem bom tamanho para viver em
apartamento. Infelizmente, solta pêlos. "Muitos homens não compravam
esse cachorro porque tinham alergia ou porque não gostavam do temperamento
azedo do poodle. Hoje, todos podem ter o seu labradoodle", disse a VEJA o americano
Andre Calbert, fundador da Designer Doggies, que há dois anos vende híbridos
pela internet.
Os cães híbridos
não são aceitos pela FCI, que congrega 83 associações
de criadores de cães em todo o mundo e zela pela pureza das raças
cujas características já estão bem definidas. "O que os americanos
estão fazendo é pura maluquice. Nem sequer poderíamos dizer
que são raças", critica Carlos Manso, árbitro da Confederação
Brasileira de Cinofilia, no Rio de Janeiro. A entidade, filiada à FCI,
segue rígidos critérios para admitir uma nova raça. É
preciso comprovar a existência de oito linhagens diferentes, de forma a
evitar o cruzamento consanguíneo, e a passagem de pelo menos oito gerações.
Os híbridos não atendem a essas exigências. Os criadores de
labradoodles, surgidos na Austrália em 1989, ainda tentam fixar como características
hereditárias um animal com porte grande e pelagem fofa. Os filhotes parecidos
com o labrador ou o poodle original são descartados.
No Brasil, o cruzamento acidental entre cães de raças diferentes
reserva algumas surpresas. "Um cliente me pediu para ficar com um bernese por
três meses em casa, e depois minha labradora apareceu grávida", diz
Carolina Lafemina, dona de uma pet shop em São Paulo. Carolina foi à
internet para saber mais sobre sua nova cachorra, Diva, e descobriu que a mistura
já existia, com três nomes: "labernois", "boulab" e "labernese".
Ela teve alguma dificuldade em enquadrar as características da cadela numa
dessas variações: Diva tem a pontinha do rabo branca, como os laberneses,
mas falta um crucifixo branco no peito. "O certo é que ela herdou o jeito
carinhoso e agitado do labrador e a sociabilidade do bernese", afirma.
Acasalamentos acidentais nem sempre têm final feliz. "Thor já mordeu
todo mundo em casa", diz o engenheiro de produção Luiz Marcelo Bordini.
"Sempre que se sente acuado, ele reage de maneira bruta." O cachorro é
filho acidental de uma mãe weimaraner com labrador. Uma das justificativas
para a depuração de raças é que, com cruzamentos controlados,
é possível selecionar apenas os cães de melhor temperamento.
Os híbridos da moda passaram por esse processo, embora por menos tempo
que os cães de raça com pedigree. Seja como for, qualquer um que
já tenha comprado um cão sabe que não há total garantia
de comportamento. O bicho, que se esperava de uma raça mansa e pacata,
pode se revelar um monstrinho.
LABRADOR
+
POODLE GRANDE
=
LABRADOODLE (foto)
Dócil,
inteligente e obediente, é considerado o melhor cão de companhia
para cegos. Peso: 25-32 kg Altura: 54-60 cm
A
aparência fofa, as roupas coloridas e as tosas o tornam o querido entre
as mulheres. Peso: 25-35 kg Altura: 45-55 cm
Por
não ter a cara do poodle, é mais facilmente aceito pelos homens.
O pêlo fofo continua agradando às mulheres. Peso: 25-32
kg Altura: 54-60 cm
COCKER
SPANIEL
+
POODLE
TOY
=
COCKAPOO
(foto)
Por ser um cão de caça, gosta de áreas amplas para correr.
Peso: 13-14 kg Altura: 38-40 cm
Sua grande qualidade é não soltar pêlos, o que agrada aos
alérgicos e aos que moram em apartamento. Peso: 3-5 kg Altura:
25 cm
Mantém a pelagem do poodle,
mas herdou o temperamento do cocker, bastante sociável. Peso:
5-9 kg Altura: 27-40 cm