Contar às crianças
que alguém querido morreu
é difícil, mas o melhor é ser claro e
direto
Marcelo Bortoloti
Oscar Cabral
Marisa e Maurício com seus filhos:
a morte do avô encarada com maturidade
Todo pai e toda
mãe têm a ilusão de poder evitar que seus
filhos sofram. Esse impulso fica claro quando ocorre algum
caso de morte na família. Crianças pequenas
costumam ser deixadas à parte do assunto, já
que, acredita-se, não possuem maturidade suficiente
para entender o que aconteceu. Essa prática, comum
no mundo ocidental por causa da dificuldade que os próprios
adultos têm em lidar com a morte, está, entretanto,
equivocada. A tentativa de proteção pode causar
e efetivamente tem causado uma série
de traumas em crianças que perderam algum ente querido.
O alerta é da psicóloga brasileira Claudia Bigard,
que cuida de familiares de pacientes com câncer no Hospital
Pitié-Salpêtrière, em Paris. Depois de
testemunhar diversos casos em que a má comunicação
atrapalhou a superação da perda, ela produziu
uma cartilha sobre como os pais devem abordar o tema da morte
com seus filhos pequenos. A cartilha foi lançada no
início do ano, na França, com o título
Comment Parler aux Enfants de la Mort (Como Falar às
Crianças sobre a Morte). Sua principal lição
é simples: a notícia da perda deve ser dada
de forma direta, não importa a idade da criança,
utilizando a palavra morte e deixando claro que se trata de
um acontecimento irreversível.
Os psicólogos
concordam nesse ponto. Em geral, os adultos costumam dificultar
o entendimento e o processo de luto próprios dessa
idade. Abrandar o tema da morte com frases do tipo "fulano
partiu" ou "foi morar no céu" ou simplesmente ocultar
o fato são os erros mais recorrentes. A linguagem abstrata
gera dúvidas que, sem respostas, trazem uma angústia
ainda maior. Se uma pessoa parte e nunca mais volta, isso
pode fazer com que a criança viva um drama de abandono.
Dependendo da circunstância, ela também pode
pensar que foi a responsável pelo que aconteceu. "Se
nada for explicado, ela vai se estruturar psicologicamente
de maneira desordenada e pode desenvolver outros sintomas
mais tarde, como se tornar agressiva na escola ou voltar a
fazer xixi na cama", diz Claudia. Sabe-se que crianças
com 3 anos já começam a perceber a existência
da morte, embora ainda não encarem o fato com angústia.
Dos 7 anos em diante, a ausência de um ente querido
ou de um animal de estimação é percebida
como algo ruim e triste. Segundo a psicóloga, um estudo
recente feito nos Estados Unidos mostra que qualquer pessoa,
desde o dia em que nasce até completar 18 anos, testemunha
em média 18 000 mortes, seja de forma indireta, pela
televisão, seja de animais de estimação
ou de algum parente.
O tipo de morte
e o grau de proximidade da pessoa com a criança podem
tornar o momento mais difícil. Mas, em todos os casos,
é aconselhável ouvir o que ela tem a dizer,
tentar responder a suas perguntas e ajudá-la a expressar
o que está sentindo. O consultor imobiliário
Maurício Soares, 46 anos, e sua mulher, Marisa, já
vivenciaram esse drama. Nos últimos anos, tiveram de
comunicar aos filhos Daniel, hoje com 9 anos, e Henrique,
com 6, quatro casos de morte na família. Sua opção,
desde o princípio, foi tratar o tema de forma direta,
sem metáforas, e em todas as ocasiões a reação
foi positiva. "Num primeiro momento eles ficam um pouco chocados,
mas depois dá para sentir uma certa tranqüilidade
na criança", diz Maurício. "Poderíamos
ficar calados. Mas até quando é possível
omitir um fato como esse?"