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Edição 1998

07 de março de 2007
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Comportamento
Faz parte da vida

Contar às crianças que alguém querido morreu
é difícil, mas o melhor é ser claro e direto


Marcelo Bortoloti


Oscar Cabral
Marisa e Maurício com seus filhos: a morte do avô encarada com maturidade

Todo pai e toda mãe têm a ilusão de poder evitar que seus filhos sofram. Esse impulso fica claro quando ocorre algum caso de morte na família. Crianças pequenas costumam ser deixadas à parte do assunto, já que, acredita-se, não possuem maturidade suficiente para entender o que aconteceu. Essa prática, comum no mundo ocidental por causa da dificuldade que os próprios adultos têm em lidar com a morte, está, entretanto, equivocada. A tentativa de proteção pode causar – e efetivamente tem causado – uma série de traumas em crianças que perderam algum ente querido. O alerta é da psicóloga brasileira Claudia Bigard, que cuida de familiares de pacientes com câncer no Hospital Pitié-Salpêtrière, em Paris. Depois de testemunhar diversos casos em que a má comunicação atrapalhou a superação da perda, ela produziu uma cartilha sobre como os pais devem abordar o tema da morte com seus filhos pequenos. A cartilha foi lançada no início do ano, na França, com o título Comment Parler aux Enfants de la Mort (Como Falar às Crianças sobre a Morte). Sua principal lição é simples: a notícia da perda deve ser dada de forma direta, não importa a idade da criança, utilizando a palavra morte e deixando claro que se trata de um acontecimento irreversível.

Os psicólogos concordam nesse ponto. Em geral, os adultos costumam dificultar o entendimento e o processo de luto próprios dessa idade. Abrandar o tema da morte com frases do tipo "fulano partiu" ou "foi morar no céu" ou simplesmente ocultar o fato são os erros mais recorrentes. A linguagem abstrata gera dúvidas que, sem respostas, trazem uma angústia ainda maior. Se uma pessoa parte e nunca mais volta, isso pode fazer com que a criança viva um drama de abandono. Dependendo da circunstância, ela também pode pensar que foi a responsável pelo que aconteceu. "Se nada for explicado, ela vai se estruturar psicologicamente de maneira desordenada e pode desenvolver outros sintomas mais tarde, como se tornar agressiva na escola ou voltar a fazer xixi na cama", diz Claudia. Sabe-se que crianças com 3 anos já começam a perceber a existência da morte, embora ainda não encarem o fato com angústia. Dos 7 anos em diante, a ausência de um ente querido ou de um animal de estimação é percebida como algo ruim e triste. Segundo a psicóloga, um estudo recente feito nos Estados Unidos mostra que qualquer pessoa, desde o dia em que nasce até completar 18 anos, testemunha em média 18 000 mortes, seja de forma indireta, pela televisão, seja de animais de estimação ou de algum parente.

O tipo de morte e o grau de proximidade da pessoa com a criança podem tornar o momento mais difícil. Mas, em todos os casos, é aconselhável ouvir o que ela tem a dizer, tentar responder a suas perguntas e ajudá-la a expressar o que está sentindo. O consultor imobiliário Maurício Soares, 46 anos, e sua mulher, Marisa, já vivenciaram esse drama. Nos últimos anos, tiveram de comunicar aos filhos Daniel, hoje com 9 anos, e Henrique, com 6, quatro casos de morte na família. Sua opção, desde o princípio, foi tratar o tema de forma direta, sem metáforas, e em todas as ocasiões a reação foi positiva. "Num primeiro momento eles ficam um pouco chocados, mas depois dá para sentir uma certa tranqüilidade na criança", diz Maurício. "Poderíamos ficar calados. Mas até quando é possível omitir um fato como esse?"

 

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