Hospitais europeus
instalam uma versão moderna da "roda dos enjeitados", para receber
bebês abandonados
Anna
Paula Buchalla
Fotos
Tony Gentile/Reuters
O aumento do número de recém-nascidos abandonados principalmente
por imigrantes ilegais tem feito alguns países da Europa reviver
uma prática medieval: a "roda dos enjeitados". Instalados nas portas de
igrejas e conventos, cilindros de madeira giratórios serviam para que mães
deixassem seus filhos em mãos seguras, sem ser identificadas. Ao colocar
os bebês no cilindro, elas tocavam uma campainha que avisava freiras e padres
de que ali estava uma criança abandonada. A versão moderna da "roda"
entrou em uso em hospitais na Itália, Alemanha, Áustria e Suíça.
No lugar dos cilindros de madeira, o bebê é colocado num berço,
através de uma janela que impede a identificação da pessoa
que o deixou ali. O berço é aquecido e equipado com sensores que
alertam médicos e enfermeiros sobre a presença da criança.
Localizado em um bairro de Roma com grande concentração de imigrantes,
o Hospital Casilino ativou o sistema recentemente. Na noite do último dia
24, o primeiro bebê foi deixado ali. Em quarenta segundos, uma equipe do
hospital já estava cuidando do menino de 3 meses, a quem deram o nome de
Stefano.
Cartaz
do Hospital Casilino, em Roma: "Não abandone seu bebê. Deixe-o conosco"
A "roda dos enjeitados"
foi criada em Marselha, na França, em 1188. Mas foi apenas na década
seguinte que seu uso se popularizou. Na ocasião, chocado com o número
de bebês mortos encontrados no Rio Tibre, o papa Inocêncio III mandou
que o sistema fosse adotado nos territórios da Igreja. No fim do século
XIX, o Hospital Santo Spirito, próximo ao Vaticano, um dos primeiros a
dispor da "roda dos enjeitados", chegou a receber cerca de 3.000 bebês abandonados
por ano. Sobrenomes comuns de famílias italianas teriam origem na "roda
dos enjeitados". Entre eles, Esposito, que vem de "exposto" e Innocenti (alusão
à inocência infantil). Um dos mais famosos usuários da "roda"
foi o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que abandonou
os cinco filhos que teve com a serviçal Thérèse le Vasseur.
No Brasil, assim como em Portugal, ela era mais conhecida como "roda dos expostos"
e funcionou até meados do século passado, sobretudo nas Santas Casas
de Misericórdia do Rio de Janeiro e de São Paulo. "De tão
comum, Machado de Assis cita a 'roda' no seu conto Pai contra Mãe",
diz Rosane de Albuquerque Porto, da Universidade do Sul de Santa Catarina, autora
de uma dissertação de mestrado sobre o tema. No curta Roda dos
Expostos, a cineasta Maria Emília de Azevedo expõe a dor de
um filho abandonado por esse método. Todas as noites, o personagem volta
à "roda", na esperança de reencontrar a sua mãe.
A janela da esperança
Uma janela de vidro instalada na parte externa
do hospital separa a pessoa que entrega o bebê do berço onde ele
será colocado
Macio e aquecido, o berço é
mantido em uma área isolada
Sensores e câmeras alertam a equipe
do hospital assim que o bebê é deixado