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Edição 1998

07 de março de 2007
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Sociedade
Salvos pela "roda"

Hospitais europeus instalam uma versão moderna da
"roda dos enjeitados", para receber bebês abandonados


Anna Paula Buchalla

 

Fotos Tony Gentile/Reuters

O aumento do número de recém-nascidos abandonados – principalmente por imigrantes ilegais – tem feito alguns países da Europa reviver uma prática medieval: a "roda dos enjeitados". Instalados nas portas de igrejas e conventos, cilindros de madeira giratórios serviam para que mães deixassem seus filhos em mãos seguras, sem ser identificadas. Ao colocar os bebês no cilindro, elas tocavam uma campainha que avisava freiras e padres de que ali estava uma criança abandonada. A versão moderna da "roda" entrou em uso em hospitais na Itália, Alemanha, Áustria e Suíça. No lugar dos cilindros de madeira, o bebê é colocado num berço, através de uma janela que impede a identificação da pessoa que o deixou ali. O berço é aquecido e equipado com sensores que alertam médicos e enfermeiros sobre a presença da criança. Localizado em um bairro de Roma com grande concentração de imigrantes, o Hospital Casilino ativou o sistema recentemente. Na noite do último dia 24, o primeiro bebê foi deixado ali. Em quarenta segundos, uma equipe do hospital já estava cuidando do menino de 3 meses, a quem deram o nome de Stefano.

 

Cartaz do Hospital Casilino, em Roma: "Não abandone seu bebê. Deixe-o conosco"

A "roda dos enjeitados" foi criada em Marselha, na França, em 1188. Mas foi apenas na década seguinte que seu uso se popularizou. Na ocasião, chocado com o número de bebês mortos encontrados no Rio Tibre, o papa Inocêncio III mandou que o sistema fosse adotado nos territórios da Igreja. No fim do século XIX, o Hospital Santo Spirito, próximo ao Vaticano, um dos primeiros a dispor da "roda dos enjeitados", chegou a receber cerca de 3.000 bebês abandonados por ano. Sobrenomes comuns de famílias italianas teriam origem na "roda dos enjeitados". Entre eles, Esposito, que vem de "exposto" e Innocenti (alusão à inocência infantil). Um dos mais famosos usuários da "roda" foi o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que abandonou os cinco filhos que teve com a serviçal Thérèse le Vasseur. No Brasil, assim como em Portugal, ela era mais conhecida como "roda dos expostos" e funcionou até meados do século passado, sobretudo nas Santas Casas de Misericórdia do Rio de Janeiro e de São Paulo. "De tão comum, Machado de Assis cita a 'roda' no seu conto Pai contra Mãe", diz Rosane de Albuquerque Porto, da Universidade do Sul de Santa Catarina, autora de uma dissertação de mestrado sobre o tema. No curta Roda dos Expostos, a cineasta Maria Emília de Azevedo expõe a dor de um filho abandonado por esse método. Todas as noites, o personagem volta à "roda", na esperança de reencontrar a sua mãe.

A janela da esperança

Uma janela de vidro instalada na parte externa do hospital separa a pessoa que entrega o bebê do berço onde ele será colocado  

Macio e aquecido, o berço é mantido em uma área isolada  

Sensores e câmeras alertam a equipe do hospital assim que o bebê é deixado

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