A
inesperada subida nas pesquisas de um terceiro candidato, François Bayrou,
esquenta as eleições francesas
Antonio
Ribeiro, de Paris
Vincent
Kessler/Reuters
François
Bayrou em campanha: tirando votos da socialista Ségolène Royal
O
deputado François Bayrou, candidato do partido centrista UDF, tornou-se
a grande surpresa da eleição presidencial francesa do próximo
mês. Até seu recente salto de 6% para 19% nas intenções
de voto, uma final entre o candidato de centro-direita Nicolas Sarkozy e a socialista
Ségolène Royal 32% e 25% respectivamente eram favas
contadas. As pesquisas revelam uma inesperada perspectiva: Bayrou venceria, no
segundo turno, contra qualquer candidato. O sucesso de Bayrou, ex-ministro da
Educação, ocorre sobretudo à custa de Ségolène
e das propostas socialistas de um Estado gastador e com impostos elevados. Desta
vez, pelo menos, a surpresa é do bem. Em 2002, o xenófobo Jean-Marie
Le Pen ultrapassou o socialista Leonel Jospin na reta final. Felizmente, no segundo
turno Le Pen foi surrado nas urnas por Jacques Chirac.
Bayrou oferece o que chama de "social-economia", um tipo de pacto entre a esquerda
e a direita para promover reformas para combater o desemprego e o déficit
público. Sua campanha martela propostas consensuais. Quer tornar inconstitucionais
os empréstimos para financiar despesas de custeio do governo. O Estado
só poderia gastar o que arrecada. Ninguém é contra, pelo
menos até a hora da aplicação efetiva da medida. Na França,
um adulto em cada nove está desempregado. Bayrou propõe algumas
válvulas de escape no mercado de trabalho engessado por uma legislação
rígida. Um exemplo é aumentar o valor das horas extras e deduzir
o acréscimo dos impostos pagos pelo empregador. O que o candidato pretende
desmontar, sem causar alarde, é uma peculiaridade francesa, a jornada semanal
de 35 horas.
O maior desafio
de Bayrou é chegar ao segundo turno. Professor de origem rural e modesta,
ele lidera um partido cuja base eleitoral é curta demais para impulsioná-lo
à Presidência da República. Para chegar lá, ele precisa
atrair eleitores de tendências opostas. Por isso, ora parece mais de esquerda,
ora mais de direita, pulando tanto que ganhou o apelido de cabrito. "Quero um
governo de competências, não de ideologias, o meu primeiro-ministro
pode sair da direita moderada ou da esquerda moderna", disse Bayrou a VEJA. A
dívida pública francesa é abissal: 1,1 trilhão de
euros, metade do PIB nacional. O crescimento do PIB é tão anêmico
quanto o brasileiro 2% em 2006. O quadro sombrio é resultado de
26 anos dos governos de François Mitterrand e Jacques Chirac. Embora de
correntes políticas diferentes, os últimos presidentes franceses
foram semelhantes em dois aspectos: na aversão por reformas econômicas
liberais e no gosto pelo imobilismo. O maior risco de Bayrou é o eleitor
perceber que, pulando da direita para a esquerda, e vice-versa, o cabrito se movimenta,
mas os problemas permanecem do mesmo tamanho. Sua esperança, em outras
palavras, é que, no segundo turno, os franceses o escolham como a opção
menos ruim.