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Edição 1998

07 de março de 2007
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Internacional
Contágio? Não, só um alerta

O espirro chinês não causou pneumonia
nos mercados mundiais, mas despertou uma
força que hibernava havia anos: a volatilidade


Denise Dweck

Ilustração Negreiros
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Quanto mais longo o período de calmaria, mais próxima fica a tempestade, correto? Pela lógica, sim. Mas os mercados tendem a se acomodar em outra moldura de pensamento: quanto mais duradoura a bonança, mais tempo ela vai durar. A semana passada interrompeu mais um desses períodos de "alucinação coletiva" em que se acredita que a prosperidade vai durar para sempre – foi assim antes do lendário crash de 1929, antes da recessão dos anos 70 e 80 e da explosão da bolha da internet no ano 2000. O alarme desta vez veio da China, de onde justamente emanavam até então todas as garantias de estabilidade permanente. Na terça-feira passada, a Bolsa de Xangai, o principal mercado chinês, desabou 8,8%, a maior queda em uma década. Da China ao Brasil, mercados de ações foram derrubados em efeito dominó. A Bolsa de Nova York caiu espantosos 3,4% em um único dia – cada ponto porcentual equivale a cerca de 160 bilhões de dólares. Em São Paulo, a Bovespa registrou baixa de 6,63%, a maior desvalorização desde os atentados de 11 de setembro de 2001.

Há várias explicações para a crise da semana passada. Sua origem foram rumores de que o governo chinês pretendia taxar os lucros com ações, o que sempre gera apreeensão entre investidores. Alguns dados apontavam também para a decisão do governo da China de desacelerar a economia do país. A gota d'água veio do outro lado do mundo: um alerta feito na segunda-feira pelo ex-presidente do Banco Central americano Alan Greenspan sobre uma possível recessão nos Estados Unidos. Como sempre, o ouro da fala de Greenspan está nos detalhes. O que ele disse foi: "Quando nos distanciamos tanto de uma recessão, invariavelmente algumas forças começam a se acumular para a próxima recessão, e de fato estamos começando a ver sinais disso". É a lógica de que se fala na abertura desta reportagem.

Eugene Hoshiko/AP
Investidor chinês desolado: temor de mudanças na regra do jogo

O espirro chinês na semana passada não chegou a provocar uma pneumonia nos mercados, mas relembrou a dependência da economia mundial em relação à saúde do gigante asiático – além de despertar a dama negra dos mercados, que andava dormindo havia anos, a volatilidade. "Os chineses crescem por meio da expansão das exportações e das importações, utilizando uma mão-de-obra eficiente e de baixo custo", diz Ernesto Lozardo, professor de economia da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. Hoje o país é o terceiro maior exportador de mercadorias do mundo e também o terceiro maior importador. Considera-se que a economia mundial esteja sendo alimentada por um binômio formado pelos Estados Unidos e pela China. Em uma relação de interdependência, os dois países têm estimulado o crescimento mútuo, levando a reboque o de outros países. Funciona da seguinte forma: com recursos de suas exportações, os chineses investem em títulos do Tesouro americano. Isso, por sua vez, permite aos Estados Unidos manter o seu ritmo de compras no exterior. Os investidores, com os bolsos abarrotados, colocam seu dinheiro nos países emergentes.

O espirro do dragão serviu para lembrar que o mercado financeiro é um jogo arriscado. Apesar da estabilidade dos últimos anos, não está imune à volatilidade própria da atividade, sobretudo nos países emergentes. A derrocada das bolsas mundiais na semana passada não parece ser o início de uma crise global, como as que varreram a Ásia, a Rússia e a América Latina nos anos 90. Ao contrário das crises passadas, a sacudida dos mercados não teve razões econômicas. O movimento nas bolsas foi mais um sinal da ansiedade dos investidores do que o reflexo de um recuo nas economias nacionais. De certa forma, a queda nas bolsas mundiais era esperada. O mercado de ações chinês tinha se valorizado muito (com ganhos raramente vistos de 100% ao ano em 2006). Fenômeno semelhante ocorreu até no Brasil. Em algum momento os investidores iriam começar a vender suas ações para obter lucros. Fizeram isso agora. Mas, para tranqüilidade geral, a semana terminou com a Bolsa de Xangai ainda lucrativa no ano. Ganho modestíssimo, de 1%. Mas nada que leve a uma síndrome da China.

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