Quanto
mais longo o período de calmaria, mais próxima fica a tempestade,
correto? Pela lógica, sim. Mas os mercados tendem a se acomodar em outra
moldura de pensamento: quanto mais duradoura a bonança, mais tempo ela
vai durar. A semana passada interrompeu mais um desses períodos de "alucinação
coletiva" em que se acredita que a prosperidade vai durar para sempre foi
assim antes do lendário crash de 1929, antes da recessão dos anos
70 e 80 e da explosão da bolha da internet no ano 2000. O alarme desta
vez veio da China, de onde justamente emanavam até então todas as
garantias de estabilidade permanente. Na terça-feira passada, a Bolsa de
Xangai, o principal mercado chinês, desabou 8,8%, a maior queda em uma década.
Da China ao Brasil, mercados de ações foram derrubados em efeito
dominó. A Bolsa de Nova York caiu espantosos 3,4% em um único dia
cada ponto porcentual equivale a cerca de 160 bilhões de dólares.
Em São Paulo, a Bovespa registrou baixa de 6,63%, a maior desvalorização
desde os atentados de 11 de setembro de 2001.
Há várias explicações para a crise da semana passada.
Sua origem foram rumores de que o governo chinês pretendia taxar os lucros
com ações, o que sempre gera apreeensão entre investidores.
Alguns dados apontavam também para a decisão do governo da China
de desacelerar a economia do país. A gota d'água veio do outro lado
do mundo: um alerta feito na segunda-feira pelo ex-presidente do Banco Central
americano Alan Greenspan sobre uma possível recessão nos Estados
Unidos. Como sempre, o ouro da fala de Greenspan está nos detalhes. O que
ele disse foi: "Quando nos distanciamos tanto de uma recessão, invariavelmente
algumas forças começam a se acumular para a próxima recessão,
e de fato estamos começando a ver sinais disso". É a lógica
de que se fala na abertura desta reportagem.
Eugene
Hoshiko/AP
Investidor
chinês desolado: temor de mudanças na regra do jogo
O
espirro chinês na semana passada não chegou a provocar uma pneumonia
nos mercados, mas relembrou a dependência da economia mundial em relação
à saúde do gigante asiático além de despertar
a dama negra dos mercados, que andava dormindo havia anos, a volatilidade. "Os
chineses crescem por meio da expansão das exportações e das
importações, utilizando uma mão-de-obra eficiente e de baixo
custo", diz Ernesto Lozardo, professor de economia da Fundação Getulio
Vargas, em São Paulo. Hoje o país é o terceiro maior exportador
de mercadorias do mundo e também o terceiro maior importador. Considera-se
que a economia mundial esteja sendo alimentada por um binômio formado pelos
Estados Unidos e pela China. Em uma relação de interdependência,
os dois países têm estimulado o crescimento mútuo, levando
a reboque o de outros países. Funciona da seguinte forma: com recursos
de suas exportações, os chineses investem em títulos do Tesouro
americano. Isso, por sua vez, permite aos Estados Unidos manter o seu ritmo de
compras no exterior. Os investidores, com os bolsos abarrotados, colocam seu dinheiro
nos países emergentes.
O espirro do dragão serviu para lembrar que o mercado financeiro é
um jogo arriscado. Apesar da estabilidade dos últimos anos, não
está imune à volatilidade própria da atividade, sobretudo
nos países emergentes. A derrocada das bolsas mundiais na semana passada
não parece ser o início de uma crise global, como as que varreram
a Ásia, a Rússia e a América Latina nos anos 90. Ao contrário
das crises passadas, a sacudida dos mercados não teve razões econômicas.
O movimento nas bolsas foi mais um sinal da ansiedade dos investidores do que
o reflexo de um recuo nas economias nacionais. De certa forma, a queda nas bolsas
mundiais era esperada. O mercado de ações chinês tinha se
valorizado muito (com ganhos raramente vistos de 100% ao ano em 2006). Fenômeno
semelhante ocorreu até no Brasil. Em algum momento os investidores iriam
começar a vender suas ações para obter lucros. Fizeram isso
agora. Mas, para tranqüilidade geral, a semana terminou com a Bolsa de Xangai
ainda lucrativa no ano. Ganho modestíssimo, de 1%. Mas nada que leve a
uma síndrome da China.