Como
se pode constatar diante das imensas filas que se formam de
vez em quando diante das casas lotéricas, o brasileiro
adora apostar. Na semana passada, uma denúncia apresentada
pelo senador Alvaro Dias (PSDB-PR), segundo a qual existem
evidências de que bandidos usaram os sorteios para lavar
mais de 30 milhões de reais, jogou uma nuvem de suspeita
sobre a lisura dos concursos. Circularam, inclusive pela internet,
comentários de que os sorteios seriam fraudados, de
modo a produzir resultados previamente acertados. Na verdade,
não há suspeita de fraude nos resultados da
Mega-Sena, Dupla Sena, Lotomania, Quina, Raspadinha ou Loteria
Esportiva. Os bandidos entram justamente depois que o sorteio
foi realizado. Na denúncia do senador, apoiada num
relatório do Coaf, órgão que fiscaliza
as operações financeiras no país, 75
"apostadores" acertaram, nos últimos sete anos, em
torno de 4.300 vezes na loteria e ganharam 32 milhões
de reais um grau de acerto totalmente despropositado
pela lei das probabilidades.
A Polícia Federal, que está investigando o assunto,
suspeita da existência de uma quadrilha que usa as loterias
oficiais para lavar dinheiro sujo do crime (veja
quadro). Para coibir essa prática, desde
1999 a Caixa Econômica Federal, que paga os prêmios
lotéricos, é obrigada a informar ao Coaf o nome
dos felizardos que receberam três ou mais prêmios
num único ano. Foi a partir dessas informações
que se descobriu a sorte dos 75 cidadãos sob investigação.
Em alguns casos, os sinais de fraude são evidentes.
Um apostador "ganhou" em todos os concursos existentes
da Mega-Sena à Raspadinha numa única
semana. Outro apareceu na Caixa para resgatar o prêmio
de 54 bilhetes de quatro loterias diferentes, todas sorteadas
no mesmo dia. Há o caso de um apostador que ganhou
na loteria durante oito semanas consecutivas, e algumas vezes
com mais de um bilhete vencedor. As investigações
já identificaram casos de sorte genuína, de
gente que conseguiu ganhar três vezes na loteria num
ano, mas também já encontraram "apostadores"
suspeitos de estelionato, contrabando e tráfico de
drogas.
A prática de lavar dinheiro sujo por meio de prêmios
lotéricos não é nova. No início
da década de 90, quando foi flagrado desviando dinheiro
do Orçamento da União, o então deputado
João Alves, já falecido, justificou seu patrimônio
dizendo que ganhara 56 vezes na loteria. Ninguém levou
a explicação a sério, mas o uso de bilhetes
premiados permitia ao deputado lavar todo o dinheiro desviado
e ainda declarar à Receita Federal a origem de seu
enriquecimento a sorte. "Uma organização
criminosa atuava dentro da Caixa Econômica Federal",
diz o senador Alvaro Dias, que requisitou na semana passada
a lista de agências onde foram pagos os prêmios
suspeitos. Segundo o parlamentar, o problema está concentrado
em São Paulo.
Três irmãos, residentes no bairro de Vila Nova
Cachoeirinha, por exemplo, embolsaram 3,7 milhões de
reais depois de acertar nada menos que 525 vezes na loteria
em dois anos. A Caixa informa que não tem indícios
de envolvimento de seus funcionários nas fraudes e
que desde 2002, quando as investigações começaram
a ser feitas de forma sistemática, os casos suspeitos
praticamente desapareceram. Assim se espera. Afinal, é
uma prática ilegal conhecida, usada há anos,
que pode ser facilmente detectada. A partir de 1999, quando
a Caixa passou a informar ao Coaf o nome dos apostadores premiados,
só mesmo a leniência com o crime justifica
que ainda hoje um bandido possa lavar dinheiro com loterias.