Políticos só falam
na reforma, mas é pura ânsia
fisiológica: o governo segue funcionando normalmente
Diego Escosteguy
Celso Junior/AE
O presidente: adiamentos sucessivos
da reforma
O presidente Lula
já completou dois meses do seu segundo mandato e até
agora não fez a reforma ministerial e isso está
acabando com os nervos dos políticos e dos colunistas
políticos em Brasília. Eles não falam
em outra coisa. Até parece que a reforma ministerial
é uma urgência nacional, única alternativa
para salvar o governo de uma dramática paralisia administrativa.
Examinando-se os dados objetivos, constata-se uma situação
bastante diferente. Nas duas últimas semanas, VEJA
apurou que, em pelo menos sete dos mais importantes ministérios
em que pode haver mudança de comando durante a reforma,
a máquina está em pleno funcionamento. Em alguns,
como o Ministério dos Transportes, opera-se numa serena
normalidade. Em outros, como o Ministério da Agricultura,
existe até um empenho redobrado no trabalho. É
possível que parte dos ministérios esteja melhor
agora, nas mãos de técnicos, do que estará
amanhã, quando passar para o comando de políticos.
Com os sucessivos
adiamentos da reforma, criou-se um "efeito Marta Suplicy".
Sempre que a ex-prefeita de São Paulo é cogitada
pelo PT para ocupar um determinado ministério, o titular
da pasta sob a cobiça petista duplica suas atividades
para tentar se manter no cargo. No Ministério da Educação,
um dos alvos do PT, o ministro Fernando Haddad está
empenhado em mobilizar uma equipe de dez técnicos para
apresentar logo ao presidente Lula um plano que já
foi apelidado de "PAC da Educação" e,
quem sabe, conseguir permanecer no cargo. Nas Cidades, outro
objeto do desejo do PT, o ministro Marcio Fortes tem atropelado
as refeições para tirar do papel quase 3 bilhões
de reais em investimentos. A esperança é que,
com isso, consiga manter o ministério. "Não
descanso um só segundo", exagera Marcio Fortes, que,
embora ocupe o cargo na cota do PP, é um servidor de
carreira.
"O ideal seria
ter técnicos à frente dos ministérios",
analisa o cientista político Octaciano Nogueira, da
Universidade de Brasília (UnB). "O problema é
que o governo precisa de maioria para governar, e para ter
maioria numa democracia com tantos partidos é necessário
distribuir cargos a rodo." O caso demonstra que a exigência
por reforma ministerial não deve ser interpretada como
preocupação com a eficiência da máquina
pública, mas como sintoma da ânsia fisiológica
dos partidos. Na semana passada, soube-se que o PT chegou
a cogitar escalar Marta Suplicy para o Ministério do
Trabalho, mas desistiu. O motivo: a pasta tem pouco poder
e pouco dinheiro para uma estrela petista.
Roberto Jayme/AE
FERNANDO HADDAD, MINISTRO DA EDUCAÇÃO
Está
montando um ambicioso plano de investimentos na educação.
Para apresentar logo o plano a Lula, tem almoçado
no gabinete e sacrificou a folga do Carnaval.
Roosewelt Pinheiro/ABR
LUÍS CARLOS GUEDES, MINISTRO DA AGRICULTURA
Com pós-doutorado
em agronomia na Espanha, Guedes está há
quarenta anos no serviço público. No atual
posto, passou a dar expediente aos sábados.
Marcello Casal Jr/ABR
AGENOR ÁLVARES, MINISTRO DA SAÚDE
Para fazer
andar o mais mastodôntico ministério da
Esplanada, Álvares, que é um dos mais
antigos servidores da pasta, despacha das 8 da manhã
às 9 da noite.
Wilson Dias/ABR
MARCIO FORTES, MINISTRO DAS CIDADES
Na esperança
de sobreviver à reforma ministerial, Fortes trabalha
muito. Toma café-da-manhã no gabinete,
pula o almoço e só deixa a pasta por volta
das 11 da noite.