Por trás de todo grande
homem tem uma grande mulher. E elas já estão
chegando a 1,80 m.
Prêmios, a quanto obrigam!
Você pode
achar vaidade, mas, no comportamento em geral, antecedi Groucho
Marx quando declara: "Não freqüento clube que
me aceita como sócio" (No original: "Please,
accept my resignation. I don't want to belong to any club
that will accept me as a member").
Desde muito cedo,
na minha profissão, eu não acreditava em prêmio.
Bastava alguém me elogiar, ainda mais se era sincero,
que eu duvidava de sua capacidade intelectual, quando não
de sua sanidade mental.
A GLÓRIA. Desta glorificação
o autor não conseguiu escapar. Quando foi feito
comendador, no Diário Oficial desta República,
pelo saudoso presidente baiano Itamar Franco. Aí
está minha visão eletrônica dessa
honra insuperável.
Acho muito engraçado
as pessoas comentando, escrevendo, ou falando na tevê:
"Autor muito premiado". O que é um prêmio? De
que vale um prêmio? E quem não é muito
premiado nos dias de hoje? Pouquíssimos vivem fora
desse besteirol neurótico da instant glory.
Coisa ainda mais pobre é: "Faz grande sucesso lá
fora", no exterior, em Katimanduba, no mundo. Tudo béstéira,
como dizia meu velho e sábio amigo italiano, Errico
Rubino.
A única
coisa importante, acho, é fazer sucesso na esquina.
Embora deva confessar que receberia com grande satisfação,
esse, sim, importante, o Prêmio Nobel. Claro,
imediatamente recusaria a honra. Mas iria correndo
pegar o milhão de dólares.
Isso me vem porque
encontro um livro meu em que está documentada, sem
que na época eu percebesse nenhuma intenção
especial, a minha posição.
Pois é,
nessa época remota, ganhei um prêmio!
O livro que encontro agora, minha peça UM ELEFANTE
NO CAOS, foi editado pela Editora do Editor (de
minha propriedade e que só editou esse livro), cujo
nome já era uma gozação na Editora
do Autor (de meus amigos Rubem Braga e Fernando Sabino),
nome evidentemente demagógico: toda editora é
do editor.
Transcrevo, da
orelha do livro, minha recepção ao PRÊMIO:
"Esta peça
foi premiada como a melhor do ano (1960) pela Associação
Brasileira de Críticos Teatrais, prêmio e Associação
esses que, como tantos semelhantes, não significavam
coisa alguma. O autor foi considerado também o Melhor
do Ano e recebeu, com essa láurea extraordinária,
a quantia de Cr$ 50.000,00 (cinqüenta mil cruzeiros)
das mãos do governador do Estado da Guanabara, numa
cerimônia inesquecível, por anacrônica
e humilhante.
Cinqüenta
mil cruzeiros, esclarecemos, era mais ou menos, na época,
o equivalente ao aluguel mensal de um apartamento de sala
e dois quartos, na zona sul. Fica o fato registrado para que
o leitor do futuro possa aquilatar o valor que as mais altas
autoridades do país atribuíam, em 1960, aos
seus Sófocles, Ésquilos e Aristófanes".
Mas, também
achando falsas, aqui como em qualquer parte do mundo, citações
elogiosas, arrancadas a fórceps de críticas
muitas vezes negativas sempre leio as citações
ao contrário. Ou melhor, como seriam no original. Sei
que, quando a contracapa do livro diz que o autor é
considerado inigualável pelo New York Times,
a frase original da crítica era: "continua um inigualável
idiota".
Por isso, apesar
de estar sendo injusto com alguns dos críticos, na
contracapa de UM ELEFANTE NO CAOS, extraí, de críticas
às vezes elogiosas, só o que era negativo:
"UM ELEFANTE NO
CAOS simplesmente não é teatro." Van Jafa. Correio da Manhã.
"O título,
além de pouco popular e pouco atrativo, tem essa palavra
pouco atrativa e pouco simpática, que é Caos." Henrique Oscar. Diário de Notícias.
"O enredo nada
tem de interessante." Brício de Abreu. Diário da Noite.
"Millôr Fernandes
não resiste à tentação de querer
interpretar o Hamlet... caindo no óbvio, no formal,
mesmo no piegas." Bárbara Heliodora. Jornal do Brasil.
"Se esta peça
de Millôr tivesse sido apresentada há cinco anos,
seria, provavelmente, mais importante do que nos parece hoje,
embora suas falhas fossem as mesmas." Cláudio Bueno Rocha. Tribuna de Imprensa.
"Há em UM
ELEFANTE NO CAOS uma surpresa e de qualidade bem menos
animadora: o autor é reacionário." Miroel Silveira. Correio Paulistano.
"Millôr é
um individualista pré-marxista, preso a um sistema
ético-familiar." Paulo Francis. Diário Carioca.
PS.: A peça
UM ELEFANTE NO CAOS foi dirigida por meu amigo João
Bethencourt, scomparso há dois meses. De todos
os espetáculos originais, adaptações
e traduções de que participei, esse foi
o que teve a mais brilhante direção.