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André
Petry
Sem trava na língua
"Na tradição
brasileira, os políticos ocultam
opiniões polêmicas
para não perder voto.
Por isso, é um alento ouvir um governador
dizer claramente que defende a legalização
do aborto e das drogas"
O
governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho,
é um homem cheio de idéias. Desde que assumiu
seu posto, e sobretudo depois do assassinato brutal do menino
João Hélio, o governador não tem fugido
de temas polêmicos. Na semana passada, afirmou que o
país precisava debater a legalização
das drogas e do aborto. Ficou parecendo que o governador,
bem ao estilo das raposas políticas, estava saindo
pela tangente: não disse que era a favor de legalizar
drogas e aborto; disse apenas que era a favor do debate.
A novidade é que não é nada disso.
A seguir, confira a clareza com que o governador aborda as
duas idéias:
O SENHOR DISSE QUE A SOCIEDADE PRECISA DISCUTIR A LEGALIZAÇÃO
DAS DROGAS. MAS O SENHOR É PESSOALMENTE A FAVOR DA
LEGALIZAÇÃO DAS DROGAS?
Sou a favor da legalização das drogas.
O SENHOR SE REFERE A DROGAS LEVES?
Não. Sou a favor da legalização de drogas
pesadas, inclusive. A relação custo-benefício
da proibição das drogas tem sido dramaticamente
negativa, com milhares, talvez milhões, de pessoas
morrendo no Brasil, na América Latina, na África.
Claro que o Brasil, sozinho, não pode legalizar as
drogas, sob pena de virar uma ilha de consumidores. O ideal
seria que o governo dos Estados Unidos entrasse corajosamente
nesse assunto. No governo de Bill Clinton, até existia
um começo saudável de debate. Com Bush, isso
acabou.
O SENHOR TAMBÉM AFIRMOU QUE A SOCIEDADE PRECISA
DEBATER A LEGALIZAÇÃO DO ABORTO. MAS QUAL A
SUA POSIÇÃO PESSOAL?
Defendo claramente a legalização do aborto.
O SENHOR NÃO TEM RECEIO DE PERDER VOTOS, EM ESPECIAL
ENTRE RELIGIOSOS?
Quando propus que a Previdência do Rio pagasse
pensão a casais homossexuais, os religiosos me diziam
que eu jamais seria reeleito. No ano seguinte, fui eleito
senador com 4,2 milhões de votos, a maior votação
da história do Rio.
O governador acha que a legalização do aborto
poderia ter no Brasil o mesmo efeito colateral que teve nos
Estados Unidos o de reduzir a criminalidade. A relação
está no livro Freakonomics, do renomado economista
Steven Levitt. Ele diz que o aborto, aprovado em 1973, impediu
o nascimento de filhos indesejados, em geral pobres e de mães
solteiras, que, pelo ambiente familiar desestruturado, tinham
maior possibilidade de se envolver com o crime. Como não
nasceram, vinte anos depois a criminalidade nos EUA caiu.
"Estou de acordo com Freakonomics", diz o governador
embora, é claro, nem ele nem ninguém
defenda legalizar o aborto como medida de combate ao crime.
Na tradição brasileira, os políticos
escondem opiniões polêmicas para não perder
voto. Por isso, é um alento ouvir um governador dizer
claramente que defende a legalização do aborto
e das drogas.
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