Stephen
Kanitz
Gente
como a gente
"Teremos
de fazer um pequeno esforço para conhecer novamente
nossos vizinhos, apesar
de chatos, apesar das opiniões diferentes e
dos gostos musicais irritantes"
Ilustração Ale Setti
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Boa parte da história da humanidade transcorreu em
uma época na qual a maioria da população
vivia em pequenas vilas e cidades com no máximo 10.000
habitantes. Isso significa que havia, em média, 200
pessoas em sua faixa etária, que você conhecia
por nome e sobrenome.
Nem todas eram simpáticas, brilhantes e alegres como
você, mas, se quisesse ter amigos, você teria
de aprender logo cedo a aceitar as idiossincrasias e diferenças
de opinião. Muitos dos filósofos da época
escreviam sobre tolerância, uma virtude necessária
para os tempos.
Hoje, a situação é diametralmente oposta.
A maioria da população brasileira vive em
grandes centros urbanos, fenômeno com menos de quarenta
anos de existência. Ainda não aprendemos a
conviver com essa nova situação. Por exemplo,
nem dá para pensar em conhecer as 100.000
pessoas em sua faixa etária de sua metrópole.
De quarenta anos para cá, começamos a fazer
algo que nossos antepassados não podiam: selecionar
nossos amigos.
Podemos, agora, criar um seleto grupo de amigos, gente-como-a-gente.
Pessoas com os mesmos interesses, com as mesmas manias,
que pensam politicamente do mesmo jeito, que têm os
mesmos gostos e opiniões.
Se seu vizinho é um chato ou tem opiniões
contrárias, você simplesmente o ignora e se
desloca até o outro lado da cidade para encontrar
um amigo. Gente chata nunca mais. Virtudes como tolerância,
respeito, curiosidade intelectual não são
sequer mais discutidas, muito menos veneradas. É
cada um por si e seus amigos.
Com a internet, a situação piorou, e muito.
Agora existem sites que permitem que descubramos gente-como-a-gente
do outro lado do mundo, através de "comunidades virtuais",
e-grupos, e-amigos, enfim.
A Amazon Books, por exemplo, avisa-me de outros clientes
que compraram exatamente os mesmos livros que eu comprei.
Gente do mundo inteiro que tem os mesmos interesses, um
pequeno grupo de gente-como-eu.
Isso, no entanto, está longe de ser uma comunidade,
no sentido antigo da palavra. Se não tomarmos cuidado,
viraremos um bando de narcisistas olhando no espelho.
Jamais iremos criar uma sociedade de união universal
como pregam os social-internautas. Somente aumentaremos
a intolerância, a falta de compreensão, compaixão
e humildade local. Aumentaremos também a arrogância,
com a auto-alimentação de grupos que terminarão
se achando donos da verdade.
Não vou sugerir uma volta ao passado nem negar que
é um prazer conhecer gente-como-a-gente do mundo
inteiro, e prevejo que provavelmente iremos continuar nesse
caminho.
Mas teremos de fazer um pequeno esforço para conhecer
novamente nossos vizinhos, apesar de chatos, apesar das
opiniões diferentes, dos gostos musicais irritantes,
e assim por diante. Se você parar uma vez na vida
e conversar com seu vizinho, poderá descobrir que
no fundo ele até que tem coisas interessantes e diferentes
a dizer. Você poderá descobrir que existe uma
virtude em ser tolerante, compreensível e aberto
a novas idéias.
Se cada um se fincar na sua trincheira, criando batalhões
de amigos que pensam igualzinho, iremos caminhar numa rota
perigosa para o futuro.
Meu site voluntarios.com.br dá preferência
proposital às entidades próximas ao endereço
em que você mora. Talvez não haja uma de que
você goste em seu bairro, mas esse é justamente
o espírito da filantropia e do voluntariado: não
se faz o que se "gosta", mas o que é necessário
ser feito.
Portanto, se você tem um vizinho chato, cumprimente-o
de forma diferente da próxima vez que o encontrar.
Dê um sorriso encantador. Convide-o a ir a sua casa
ou apartamento. Vamos começar a aprender a conviver
com gente-que-não-é-tão-parecida-com-a-gente.
O mundo ficará bem melhor.
Stephen
Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)