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Letras graúdas

Investimentos de grupos estrangeiros
podem mudar o mercado brasileiro

Flávio Moura

Fotos Arthur Cavalieri/Strana
O editor Sérgio Machado: "Cedo ou tarde, devo vender a Record"


Nos últimos anos, o mercado mundial de livros, que movimenta anualmente 80 bilhões de dólares, acompanhou a tendência de outros setores da economia e protagonizou uma inédita arrancada de fusões e incorporações. O fenômeno foi especialmente marcante nos Estados Unidos, onde apenas cinco grupos de mídia passaram a controlar 80% do mercado. Em países europeus como Alemanha, França e Espanha um movimento semelhante ocorreu, ensejando a formação de grandes conglomerados. No Brasil, enquanto isso, a atividade editorial continuou sendo gerida em moldes bem diferentes. As editoras brasileiras, mesmo as maiores, são empresas familiares cujo comando tem sido transmitido de geração a geração, com as vantagens e desvantagens desse gênero de empreendimento – relações patriarcais, arroubos visionários, estratégias limitadas. Mas esse cenário está prestes a mudar. O negócio dos livros no Brasil está crescendo e atrai a atenção de peixes mais graúdos.



Roberto Feith, da Objetiva: ele nega, mas os boatos persistem

O indício mais evidente de mudança aconteceu em 1999, quando o controle acionário das editoras Ática e Scipione foi vendido a um consórcio formado pelos grupos Abril (que edita a revista VEJA) e Vivendi-Universal, um gigante francês que só perde para a mastodôntica Time-Warner-AOL. Agora, o mercado está agitado com os boatos de que a Record e a Objetiva, situadas no ranking das quatro maiores editoras de livros de interesse geral do país, poderiam ser negociadas em breve, respectivamente, com os grupos Planeta e Prisa-Santillana, os dois principais conglomerados de mídia da Espanha. Sérgio Machado, presidente da Record, afirma que sua editora vem sendo sondada pelos espanhóis há tempos. E consideraria, sim, com carinhosa atenção, uma oferta que lhe parecesse interessante – e à altura dos quase 4.000 títulos que a editora tem em catálogo. "Mais cedo ou mais tarde, a venda vai acabar acontecendo", diz o editor, com franqueza. Roberto Feith, dono da Objetiva, que tem como carro-chefe o escritor Paulo Coelho, segue uma linha oposta: nega qualquer interesse de sua editora no negócio e se recusa a falar no assunto. Mas não faltam pessoas próximas a ele que confirmem a existência das negociações. Do lado espanhol, os executivos não escondem a intenção de entrar no mercado brasileiro. O próprio Jesús Polanco, presidente do Prisa-Santillana e uma espécie de Roberto Marinho espanhol, declarou em Madri, na semana passada, que o futuro de seus negócios está no Brasil. Não é difícil entender o motivo desse interesse. Entre 1993 e 2000, dobrou o volume de vendas de livros no país, onde o grosso do mercado é movido a obras didáticas e paradidáticas compradas pelo governo. Com isso, o Brasil passou a ser considerado o oitavo maior mercado do mundo. Movimentou, no ano passado, cerca de 2 bilhões de dólares – o mesmo que todos os países da América de língua espanhola juntos. Para os grupos espanhóis, que já têm raízes fincadas na vizinhança, conquistar uma boa fatia desse bolo brasileiro representaria uma enorme vantagem estratégica.

Do ponto de vista brasileiro, a entrada de grandes editoras estrangeiras traz capital, tecnologia e métodos gerenciais com potencial para dar nova vida ao setor. Investimentos nessa área são particularmente bem-vindos num país que, apesar de tudo, tem níveis indigentes de leitura – a média nacional é de dois livros ao ano por habitante. A grande concentração do negócio editorial também pode ter um lado negativo. Nos Estados Unidos, 63 dos 100 livros de maior vendagem entre 1986 e 1996 foram escritos por apenas seis autores: Tom Clancy, John Grisham, Michael Crichton, Dean Koontz, Stephen King e Danielle Steel. Ou seja, as empresas apostaram na edição e na divulgação de um time cada vez mais concentrado – e comercial – de bambas. "As vendas espantosas de uns poucos best-sellers levaram os conglomerados a acreditar, incorretamente, que a venda de livros é um negócio previsível, como vender sabão ou lâminas de barbear", critica Jason Epstein, há cinqüenta anos um dos principais editores americanos. As mudanças no mercado garantem pelo menos a sobrevivência de um tipo existente desde que alguém pensou em ganhar dinheiro com a palavra impressa: o autor inédito, ou quase, reclamando da falta de visão e da ganância dos malvados editores.

As feras do mercado editorial
Grupo Atua em Principal editora Faturamento com livros, em dólares

Bertelsmann
Alemanha

58 países

Random House

4,8 bilhões

Pearson
Inglaterra

50 países

Penguin, Putnam, Viking

3,6 bilhões

Vivendi Universal França

40 países Nathan, Anaya 3 bilhões

Holtzbrinck
Alemanha

20 países Fischer e Macmillan

1,6 bilhão

Viacom
Estados Unidos

países de língua inglesa Simon & Schuster, Pocket Books 1,3 bilhão

 

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