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Praga de machão

Mel Gibson aprende a ouvir os
pensamentos
das mulheres –
e só encontra clichês

Isabela Boscov

Nos anos 30 e 40, o cinema americano viveu a idade do ouro das comédias românticas, em que astros e diretores de primeira linha exploravam na tela algumas facetas da incipiente "guerra dos sexos" – aquela confusão provocada nos sentimentos masculinos por mulheres cada vez mais independentes e senhoras de seus desejos. O cinema mudou muito desde então, e o estranhamento entre os sexos redundou numa das grandes mudanças de comportamento da história da humanidade, mas volta e meia aparecem produtores querendo recriar aquele mesmo clima engraçadinho das velhas comédias – na maioria das vezes com pouquíssimo brilho, como demonstra Do que as Mulheres Gostam (What Women Want, Estados Unidos, 2000), que estréia nesta sexta-feira no país. Mel Gibson interpreta Nick, publicitário metido a conquistador que perde para uma mulher a chance de ser promovido. Um acidente doméstico, porém, lhe confere um poder inaudito: ler os pensamentos femininos. Nick supera a humilhação de descobrir que é avaliado como um idiota chauvinista por suas colegas e passa a usar o dom em proveito próprio. Melhora seu desempenho entre os lençóis e inspeciona o cérebro da nova chefe (Helen Hunt) à cata de informações para lidar melhor com o público-alvo de sua sedução. Mas sofre um efeito colateral: por ouvir as mulheres, torna-se um homem melhor.

Ao contrário das comédias clássicas em que flagrantemente se inspira, Do que as Mulheres Gostam contenta-se em repisar alguns dos mais surrados clichês sobre o tema. A saber: homens são criaturas insensíveis que tendem a julgar as mulheres somente pelos atributos físicos e fingem enxergar além deles apenas para seduzi-las. As mulheres, por sua vez, são seres de superioridade inata, que devem ocultar, ou sublimar, para sobreviver em um mundo regido pelos ditames masculinos. Um príncipe encantado, nesse contexto, é alguém que, além de ter os olhos azuis de Mel Gibson, as entenda e adivinhe seus desejos. Ou, numa tradução mais próxima do feminismo rudimentar da diretora Nancy Meyers, alguém que elas possam moldar segundo seus próprios ideais. Como se isso fosse ter alguma graça.

Helen Hunt extrai uma ou outra nuance desse cenário tosco, mas Gibson se sai com uma atuação desajeitada, com muito pouco da leveza que foi capaz de injetar até em filmes "de macho", como os da série Máquina Mortífera. Na versão nacional, o desastre é acentuado pela tradução do título, que ganhou tom de chanchada. O original refere-se à famosa frase de Sigmund Freud, que morreu indagando-se o que querem, afinal, as mulheres. No que depender desse filme, a pergunta continua sem resposta.

 

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