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O empresário Abilio Diniz tem duas obsessões na vida. Uma é com a forma física, à qual dedica até cinco horas por dia. O resultado está na foto. Aos 64 anos, possui bíceps de fazer inveja aos saradões de academia e a mesma taxa de gordura do corredor americano Carl Lewis: 6%. Sua outra obsessão era tirar o Grupo Pão de Açúcar da bancarrota e transformá-lo na maior rede do país. Conseguiu. Realizou um feito raro no mundo dos negócios. No processo de ajuste, fechou um terço das lojas, demitiu 22.700 pessoas e brigou com a família.
Para chegar a esse ponto, Abilio Diniz realizou uma faxina que poucos empresários teriam coragem de repetir. O Pão de Açúcar foi fundado em 1948, quando o português Valentim dos Santos Diniz, pai de Abilio, montou uma doceria na região central de São Paulo. Onze anos depois, seu Santos, como o patriarca é chamado, inaugurou o primeiro supermercado. Em 1963 abriu o segundo. Num período de cinco anos, possuía quarenta supermercados e tinha 1.642 empregados em folha. Segundo o sonho de seu Santos e de sua mulher, Floripes, a empresa seria dirigida pelos seis filhos, que partilhariam as decisões em clima fraterno. Abilio, o primogênito, sempre se destacou na companhia. Em 1959, com 23 anos, já aparecia como o braço direito do pai. Quando o grupo cresceu, Abílio foi nomeado superintendente, cabendo aos irmãos diretorias de área. O ambiente de relativa calma vigorou enquanto a empresa faturava na casa dos milhares de dólares por ano. Complicou-se quando passou aos milhões, tornou-se irrespirável quando chegou ao bilhão, na década de 80.
Nessa
ocasião, o patriarca distribuiu entre os filhos 38% das ações
da companhia e adotou um critério técnico, ligado
à produtividade de cada um. Seu braço direito, Abilio,
recebeu 16% dos papéis. Os dois outros filhos homens, Alcides
e Arnaldo, receberam 8% cada um e ficaram indignados. As três
filhas, que não atuavam na organização, tiveram
direito a uma cota menor: 2% cada uma. A divisão acionária
foi o estopim de uma briga que duraria uma década, involuntariamente
estimulada pelo próprio pai, que ainda apostava na volta
da harmonia. Mesmo deixando evidente que Abilio era o maior acionista
entre os irmãos, seu Santos não definia com clareza
o poder de Alcides e Arnaldo. O resultado é que cada um mantinha
um time próprio de diretores, uma forma deletéria
de organização. Um mesmo funcionário podia
receber ordens opostas de dois Diniz, sem saber a quem obedecer.
O desempate, muitas vezes, seguia um critério cronológico.
Valia a última ordem. Outro fator que complicou a administração
foi que, na década de 80, o grupo tinha lançado tentáculos
por uma infinidade de negócios diferentes. Um irmão
queria montar uma agência de turismo? Montava. Outro acreditava
no futuro da avicultura? Por que não investir nisso? A certa
altura, o Pão de Açúcar atuava em 22 ramos
de atividade, jogando muito dinheiro fora.
O que se seguiu a partir daí foi uma política de terra
arrasada. Abilio Diniz contratou o serviço de uma empresa
de consultoria para ajudá-lo a fazer um ajuste severo. O
Pão de Açúcar, que tinha 42.800 funcionários,
passou a ter 20.100. Ou seja, Abilio Diniz demitiu 22.700 pessoas
num prazo de quatro anos. Ao assumir a presidência da Nissan,
o brasileiro Carlos Ghosn anunciou a demissão de 21.000 dos
114.000 postos de trabalho na companhia. Ou seja, Ghosn cortou 18%
de sua folha, motivo pelo qual é conhecido mundialmente em
revistas especializadas de economia como "O Matador". Que apelido
se poderia dar a Abilio Diniz, que afastou 53% dos funcionários?
Das 549 lojas em funcionamento, o grupo só manteve abertas
216 pouco mais de um terço do total. O Pão
de Açúcar se desfez de todos os negócios que
não eram do ramo de supermercados e concentrou os pontos-de-venda
em São Paulo, praça de maiores lucros. Os onze membros
da diretoria foram substituídos. Saíram amigos e ex-colegas,
e entraram profissionais do mercado, contratados nas empresas concorrentes
e de outros setores da economia. Foram promovidos para a diretoria
alguns antigos profissionais. "Essa solução radical
foi a única saída que nós conseguíamos
enxergar. Ou fazíamos isso ou o grupo teria quebrado", comenta
Abilio Diniz.
Ao recolocar o Pão de Açúcar nos eixos, Abilio
se viu envolvido num paradoxo. Para salvar a empresa familiar, teve
de brigar com a família. Mantém boas relações
com as irmãs. Com sua mãe, Floripes, 85 anos, fala
muito pouco. "Seqüelas da briga", limita-se a dizer Abilio.
Com o patriarca Valentim, hoje com 87 anos e ainda na ativa freqüentando
as reuniões do Pão de Açúcar como presidente
do conselho de administração, mantém boas relações.
"Papai sonhava que todos seguíssemos juntos sua obra, mas
não foi possível", explica Abilio. Nas raras vezes
em que o clã se encontra, na missa dominical da Igreja São
José, no Jardim Europa, bairro nobre de São Paulo,
o empresário mantém distância dos irmãos.
"Apenas trocamos acenos", diz Abilio, encerrando o assunto. Recentemente,
Alcides Diniz, o Cidão, esteve muito doente, vítima
de um câncer na bexiga. Abilio diz que rezou por ele, mas
não o visitou. A briga não atrapalhou o convívio
entre os filhos de Abilio e seus primos.
De acordo com os dados mais recentes, extraídos da edição Melhores e Maiores, da revista Exame, do ano 2000, o Pão de Açúcar é a nona maior empresa do país. Torna-se a sétima maior quando se listam apenas as empresas privadas e assume a liderança entre as companhias de capital nacional. Tudo pode mudar quando sair o ranking de 2001. Na semana passada, Abilio Diniz disse a VEJA que sua fortuna, calculada com base nas ações que possui do Pão de Açúcar, gira em torno de 4,5 bilhões de reais. Muitos empresários trabalham para duplicar, triplicar, quintuplicar a fortuna. Quando decidem aproveitar o dinheiro que amealharam, ficou tarde demais. Abilio Diniz preferiu ser mais previdente e gasta. A bordo de um jatinho Falcon 900B, de 20 milhões de dólares, reuniu recentemente os filhos para passarem alguns dias numa estação de esqui na França. Noutra ocasião, fez o mesmo com os netos, presenteados com um final de semana em Aspen, nos Estados Unidos. Em busca de uma aeronave mais moderna, encomendou um Falcon 900EX, avaliado em 30 milhões de dólares. O avião deve chegar ao país ainda no primeiro semestre do ano. Nos deslocamentos mais curtos, Abilio utiliza um dos dois helicópteros do grupo, avaliados em 3 milhões de dólares. Ele está morando temporariamente num apartamento de 300 metros quadrados, mas vai mudar-se para uma mansão erguida sobre lote de 4.700 metros quadrados. Só o terreno vale 5 milhões de reais.
Nas rodas de empresários, quando o tema da conversa é Abilio Diniz, a recuperação econômica da companhia pode até consumir cinco ou dez minutos de discussão. O que os colegas de Diniz debatem mesmo é a forma física do empresário. Num ambiente onde a maioria dos sessentões (e dos cinqüentões ou quarentões) enfrenta a obesidade, Diniz surge como uma avis rara. O Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte da Universidade Federal de São Paulo (Cemaf) realizou um estudo de caso com Abilio Diniz. Seu condicionamento físico geral, contando aí condições cardiovasculares e musculares, se compara ao de um atleta profissional de 28 anos. Para manter-se assim, ele acorda todo dia às 5 da manhã e nada uma hora. Durante o intervalo do almoço, faz uma hora de squash e outra de musculação. No início da noite, joga mais uma hora de squash e submete-se a outra sessão de musculação. No total, chega a fazer até cinco horas de atividade esportiva por dia.
Para conseguir cumprir essa agenda, ele construiu uma academia de
1.000 metros quadrados, em frente de seu escritório. O espaço
é aberto a todos os funcionários do Pão de
Açúcar. Abilio contratou um séquito de profissionais
para cuidar de seu corpo. O time inclui um nutricionista, um fisiologista,
um personal trainer, um treinador de corridas e um professor de
squash. Todos são empregados do esportista-empresário.
Foram incorporados para fazer parte do quadro de funcionários
do Grupo Pão de Açúcar. Em diversas ocasiões,
Abilio Diniz chefiou uma equipe do grupo que disputa a maratona
de Nova York. Na fase de preparação, os atletas, profissionais
e amadores, se dedicam a um treinamento especial. Para participar
da corrida de 1997, a equipe técnica de Abilio Diniz preparou
um programa específico e resolveu que o empresário
deveria perder cerca de 5 quilos. Ele chegou a pesar 73 quilos e
seu índice de gordura corporal atingiu o mínimo de
2,9% (uma pessoa normal, não obesa, tem algo como 18%). Mais
tarde, a equipe de Abilio descobriu que o esforço tinha sido
exagerado. O empresário sentiu-se fraco e chegou a ficar
doente. Atualmente, sua taxa de gordura oscila entre 6% e 7%, índice
de campo de concentração. No caso dele, a massa corporal
é praticamente músculo e osso.
A exemplo das pessoas, as empresas nascem, crescem e morrem. A diferença é que, muitas vezes, elas têm um ciclo de vida muito mais curto, resultado de uma imprudência qualquer ou algum infortúnio. No Brasil, quase metade das micro e pequenas empresas desaparece antes de completar o primeiro ano. Estima-se que 80% das companhias do mundo inteiro fracassam em, no máximo, três anos de vida. A revista Fortune fez um levantamento entre as 500 maiores empresas americanas. Na década de 60 havia menos de dez substituições a cada ano no ranking. No final dos anos 80, a dança das posições no ranking ocorreu num ritmo três vezes maior. Hoje, a cada nova edição, um terço das companhias simplesmente desaparece da lista, cedendo seu lugar a empresas emergentes. No Brasil, apenas três empresas que apareciam no topo do primeiro relatório das Melhores e Maiores, em 1974, permanecem entre as dez maiores. "As mudanças são tão grandes que é possível assistir à morte de um setor inteiro ao mesmo tempo", afirma o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. "Os setores têxtil e de magazines são dois exemplos desse fenômeno." O Brasil tem uma característica que agrava a rotatividade. A maioria das empresas tem origem familiar. O problema principal é que os patriarcas dessas companhias adiam ao máximo a decisão de escolher os sucessores na esperança de que os herdeiros resolvam de forma natural essa questão, exatamente como fez Valentim dos Santos Diniz. É possível contar nos dedos casos de empresas familiares que não tiveram divergências em relação ao poder. O grupo Eldorado, um dos mais fortes de São Paulo até a década de 80, praticamente evaporou depois que os herdeiros brigaram e retalharam as empresas em várias partes. Essa é a regra. O Pão de Açúcar é a exceção.
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