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Floripa, a campeã

Pintada de verde no mapa e recordista em
estatísticas
positivas, a capital catarinense
é a meca da classe média

Ricardo Villela e Cristiana Baptista, de Florianópolis

 
Tarcisio Mattos
O centro da cidade: há quarenta anos, só havia cinco prédios

O mapa abaixo mostra a cidade de Florianópolis. Examiná-lo é o meio mais fácil de compreender o fascínio que essa cidade desperta não só nos turistas de verão mas também nos brasileiros de classe média que decidem deixar as metrópoles em busca de um lugar mais tranqüilo para viver. Os mapas das capitais brasileiras exibem grandes aglomerados urbanos, representados por manchas cinza, entremeados por pequenas porções de área verde. Florianópolis é o oposto exato. Enormes aglomerados de áreas verdes entremeados por pequenas porções de manchas cinza. Com área duas vezes superior à do Recife, Florianópolis tem um quarto da população da capital pernambucana. Para ir de um bairro a outro, atravessam-se grandes porções de áreas inabitadas. É como se a capital catarinense fosse não uma cidade, mas um conjunto de povoados independentes. A explicação para esse modelo de ocupação está no relevo da cidade, que tem 97% de seu território na Ilha de Santa Catarina. A ilha é repleta de encostas íngremes e vastas áreas de mangues e dunas onde é impossível construir. Como resultado dessa combinação, 46% do território é área de preservação permanente.

 

Essa exuberância verde composta de montanhas cobertas de Mata Atlântica e mais de 100 praias é a maior responsável pelo principal produto de que a cidade se valeu para crescer nos ritmos apontados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea): a qualidade de vida. Foi com esse ingrediente que Florianópolis se tornou o município brasileiro que mais cresceu em produto interno bruto per capita nas últimas três décadas. O avanço do PIB per capita de Florianópolis deu-se a uma velocidade de 6% ao ano. É um colosso. Se o Brasil tivesse tido o mesmo desempenho no período, seria hoje um dos países mais ricos do mundo.

Divulgação
Costão do Santinho Resort: o melhor de mais de uma centena de hotéis


Florianópolis é a única capital brasileira que não é também o centro industrial e econômico de seu Estado. Não é sequer a cidade mais populosa. Tem 330.000 habitantes e perde para Joinville, que tem meio milhão. A mágica de seu crescimento deve-se a um fenômeno migratório único na História recente brasileira. O de gente em busca de qualidade de vida, não de prosperidade financeira. Com a mudança, esses migrantes levam dinheiro e poder de consumo para a cidade, num ciclo virtuoso que beneficia a todos. O dado mais fresco disponível, fornecido pelo IBGE, informa que 29.000 brasileiros se mudaram para a capital catarinense entre 1991 e 1996. Isso representa quase 10% da população total. São, em sua maioria, integrantes da classe média, principalmente gaúchos e paulistas, que abrem mão de comodidades das grandes cidades pela natureza da Ilha de Santa Catarina. A Universidade Federal de Santa Catarina tem 1.828 professores. Nada menos que 1.590 não são ilhéus, como são chamados os nativos de Florianópolis. No Lagoa Iate Clube, um dos quatro bons clubes da cidade, sete entre cada dez novos associados vêm de fora. Há escolas particulares em que 80% das crianças são filhas de pais vindos de outras cidades.

Além de receber a migração de classe média, que traz dinheiro, consumidores, serviços e, por conseqüência, mais empregos e oportunidades para a população local, Florianópolis não sofreu o efeito da migração de trabalhadores rurais com a mesma intensidade que outras capitais brasileiras. Quando um catarinense de baixa renda decide deixar o campo para buscar emprego e vida melhor na cidade grande, Florianópolis raramente é a primeira opção. Isso acontece porque Santa Catarina é um dos Estados de desenvolvimento mais bem distribuído do Brasil. Em torno da cidade de Joinville, está um parque industrial metal-mecânico que emprega 60.000 trabalhadores. No Vale do Itajaí, Blumenau e Pomerode integram um complexo têxtil com 4.000 empresas e 91.000 trabalhadores. O pólo madeireiro do centro-norte do Estado emprega 71.000 pessoas em indústrias de móveis e papel. Finalmente, a oeste, em cidades como Concórdia e Chapecó, funcionam os grandes frigoríficos. Nenhuma cidade catarinense se beneficiou tanto desse desenvolvimento bem distribuído quanto Florianópolis. Sem nenhuma vocação industrial, a capital por muitos anos viveu exclusivamente da administração pública. Faz parte do folclore produzido pelas rivalidades regionais dizer que, em Florianópolis, quem não é funcionário público é aposentado ou está esperando a nomeação. Ainda hoje, a cidade tem 18.000 funcionários públicos.


João Otávio Ness
Canasvieiras: a praia favorita dos 200 000 argentinos que visitam a ilha no verão


Na década de 60, a capital catarinense era uma cidade de 100.000 habitantes. Seu centro tinha apenas cinco prédios comerciais. Os moradores viajavam para Curitiba para fazer as compras de Natal e era impossível ir de uma ponta a outra da ilha na época das chuvas porque as estradas de terra ficavam intransitáveis. O asfalto só chegou ao sul da ilha em 1983. Nas praias só viviam pescadores e não se via sombra de turista. A semente da virada foi plantada com a fundação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 1960. Depois dela, a cidade firmou-se como principal pólo universitário do Estado. Os fazendeiros e industriais do interior mandavam seus filhos estudar na capital. Com os novos moradores, a infra-estrutura foi aumentando. A Ponte Hercílio Luz, um dos cartões-postais do município e única ligação da ilha com o continente durante mais de meio século, ganhou a companhia de uma nova obra com quatro faixas de rolamento. Bairros inteiros fora do centro foram criados para abrigar os recém-chegados.

Quem se muda para a cidade busca o verde pintado no mapa e os índices de boa vida expressos nas estatísticas. Com seis homicídios por grupo de 100.000 habitantes, Florianópolis é a capital menos violenta do país. Houve dezenove assassinatos no ano passado, menos que num fim de semana em São Paulo. Segundo o índice de desenvolvimento humano, calculado pela ONU com base em renda, educação e expectativa de vida, é a segunda melhor cidade para viver no Brasil, logo atrás da minúscula Feliz, no Rio Grande do Sul. Tem também o menor índice de mortalidade infantil entre as capitais brasileiras e é a capital do Estado que exibe a menor taxa de analfabetismo. Florianópolis tem 57 linhas de telefone para cada 100 pessoas, quando a média nacional é 21. Possui a segunda maior concentração de automóveis por habitante. "Para os que vêm de fora, Florianópolis está para o Brasil como Miami para os Estados Unidos", diz a prefeita, Ângela Amin. "As pessoas se mudam para viver bem."

Bettina Monteiro
Bairro de Florianópolis: povoados separados por muita natureza


Numa cidade com bairros distantes uns dos outros, era de esperar que o transporte público fosse complicado. Não é. Os povoados separados por morros são quase independentes. Nos mais humildes, há postos de saúde, pequenas mercearias e escolas públicas. Nos de classe média, encontram-se supermercados, consultórios médicos e escolas particulares. Os moradores deslocam-se para o centro para trabalhar. Dois terços da população pertencem às classes A, B e C. Para atender a esse contingente, há uma extensa rede de microônibus com ar condicionado e TV a bordo. A vida é muito mais barata que nas capitais maiores. As mensalidades escolares ficam em torno de 250 reais e um título de sócio num clube de primeira linha sai por 2.000 reais financiados a perder de vista. Hoje, são dezoito instituições de ensino superior na região, e universidades particulares aproveitam-se dos encantos da terra para atrair novos alunos. Recentemente, a Universidade do Vale do Itajaí (Univali) chamou a atenção para seu campus na região metropolitana de Florianópolis com outdoors dirigidos aos turistas: "Veio passar alguns dias? Por que não passar alguns anos?".

Isso tudo é resultado de planejamento? Não. Nem mesmo o turismo foi alvo de programas ou planos no passado. "A atividade cresceu de maneira pouco ordenada e ainda é meio sazonal", diz o professor de ciências econômicas Hoyêdo Nunes Lins, da UFSC. O estudo do Ipea sobre cidades brasileiras revela que muitas das soluções urbanas no país acontecem na base do improviso. Em Florianópolis, a maior parte dos improvisos felizmente deu certo, mas não são invisíveis as marcas do que deu errado ou deixou de ser feito. Em quatro décadas, a população da cidade multiplicou-se por três, num lugar em que 46% do território é de áreas de preservação ambiental. Em escala ainda reduzida, já se vê morro acima um processo de favelização parecido com o do Rio de Janeiro. Há 47 favelas na cidade.


Tarcísio Mattos
Marina na baía sul da cidade: diversão para a classe média


A cidade é um deserto cultural, com apenas quatro cinemas. Pouca coisa acontece por lá nessa área. Com apenas quatro McDonald's e nenhum bom restaurante árabe, também é deficiente nesse campo de comer fora. Isso é o que menos incomoda a população. Problema real é a água, cuja maior parte do abastecimento vem do continente, por tubulação submarina. No verão, alguns bairros passam dias a seco. Outro enrosco é o saneamento básico, que não alcança nem metade das residências. Aonde chega, já se descobriram ligações clandestinas, até em casas de deputados, e há sobrecargas como a do bairro da Lagoa da Conceição, no qual, em duas décadas, o número de moradores saltou de 7.000 para 20.000. O sistema de tratamento de esgotos do bairro foi projetado para um quarto disso. A lagoa que dá nome ao local, um dos cartões-postais da cidade, vem enfrentando problemas de balneabilidade em alguns pontos.

Os turistas, por seu lado, levam um monte de incômodos junto com seu dinheiro. Durante o verão, a cidade recebe mais de meio milhão de pessoas. Os congestionamentos tomam as ruas e tornam um inferno a vida de quem precisa deslocar-se para o trabalho. A dificuldade com a água agrava-se e as praias tornam-se um território disputadíssimo. Na semana do Carnaval, havia 100.000 forasteiros pernoitando em hotéis, casas alugadas e campings da capital.

Acostumado a reconhecer os rostos com que cruza nas ruas, largar o carro aberto quando vai à padaria e voltar do trabalho para almoçar em casa, o nativo não gosta dessa agitação e muitos fazem cara de poucos amigos também para os novos moradores da ilha. Essa reação já é tema de estudo em universidades, aparece em colunas de jornal, campanhas eleitorais e gerou um neologismo: a tchênofobia, termo criado para designar a aversão dos ilhéus pelos gaúchos, que compõem a maior comunidade de imigrantes. "Não dá para ver gaúcho tomando chimarrão na praia sob um sol de 40 graus e achar isso normal", diz o jornalista Aldírio Simões, que promove a cultura açoriana, dos ancestrais dos fundadores da cidade, em um programa de televisão e num jornal. Os açorianos chegaram à costa catarinense no século XVIII. Eram 4.500 pessoas, cada família com uma espingarda, duas enxadas, um facão, um martelo, duas vacas, uma égua, alguns punhados de sementes e um ano de farinha, investimentos da Coroa portuguesa nos colonos. Desses primeiros moradores, ficaram a farra do boi, as casas geminadas e uma indiscutível capacidade de multiplicar recursos – a mesma que acaba de revelar Florianópolis como a cidade cujos habitantes tiveram o maior incremento de renda no Brasil dos últimos trinta anos.

 

 
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