A
força das cidades médias
Uma
pesquisa inédita mostra como
a
riqueza no país está, aos poucos,
indo para centros menores
Monica
Weinberg
Giovani Pereira
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| Itajubá,
em Minas: cidade média cuja efervescência atrai riqueza |
Florianópolis é um fenômeno nacional.
Nos últimos anos, a capital de Santa Catarina começou
a chamar a atenção pela exuberância de
suas praias e encostas e pela qualidade de vida que oferece
a seus habitantes. Agora, surgiu outra razão para colocá-la
numa categoria especial: Florianópolis é a cidade
brasileira que mais enriqueceu nas últimas três
décadas. Um estudo inédito, feito pelo Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), examinou o comportamento
da economia dos cerca de 5.000 municípios brasileiros
de 1970 a 1996 um período que inclui o chamado
"milagre econômico" do regime militar, a "década
perdida" dos anos 80 e a fogueira inflacionária extinta
com o Plano Real em 1994. A pesquisa, que consumiu três
anos de trabalho, revela que Florianópolis é
a jóia da coroa brasileira. Seu PIB per capita cresceu,
em média, 6% ao ano. É um colosso. Se o Brasil
tivesse tido o mesmo desempenho nesse período, seria
hoje tão rico quanto a Alemanha, mais rico que a França
e a Inglaterra.
Além
de revelar o fenômeno da capital catarinense, a pesquisa
do Ipea traça uma radiografia apurada das transformações
do Brasil nas últimas décadas. Algumas conclusões
interessantes do estudo:
A riqueza está tomando o rumo das cidades médias.
Elas cresceram num ritmo mais acelerado que as metrópoles
5,2% ao ano, contra 4,7%. Consideradas em conjunto,
têm hoje uma participação no PIB nacional
próxima à do conjunto das grandes cidades. Na
ponta do lápis, 36% do PIB está nas cidades
médias e 42% nas metrópoles. "O levantamento
confirma que a riqueza no Brasil está se desconcentrando,
movida pela efervescência das cidades médias",
diz o economista Aristides Monteiro Neto, do Ipea, autor do
estudo.
Os municípios médios que explodiram não
estão na órbita das grandes metrópoles.
Das vinte cidades que registraram as maiores taxas de crescimento
do PIB per capita de 1970 a 1996, apenas duas (Igarassu, no
Grande Recife, e Itaguaí, no Grande Rio) estão
situadas nas franjas de suas metrópoles. "Isso mostra
que as cidades que mais crescem estão em pontos que
até pouco tempo atrás eram quase um deserto",
avalia o autor do estudo.
O PIB industrial ainda é fortemente concentrado na
Região Sudeste, particularmente em São Paulo,
mas está lentamente se deslocando para outras regiões.
Em 1970, as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste
respondiam por menos de 5% do PIB industrial do país.
Em 1996, essa participação já havia pulado
para 14%.

É notório o esvaziamento do ABC paulista, que
teve seu grande boom industrial nos anos 70. As três
cidades que formam o conjunto (Santo André, São
Bernardo do Campo e São Caetano do Sul) apareciam,
todas elas, entre as onze mais ricas do país. Em 1996,
São Bernardo caiu seis posições e Santo
André despencou nove. São Caetano não
aparece sequer entre as quarenta mais ricas.
Apesar da predominância das cidades médias, isso
não significa que as capitais de Estado estejam perdendo
espaço. Antes, na lista dos dez maiores PIBs municipais
apareciam sete delas. Hoje, são só capitais
que compõem a lista. As que ascenderam de posição
são Manaus, Belém e Fortaleza. Em 1970, Florianópolis
nem constava da lista dos cinqüenta maiores PIBs do Brasil.
Agora, está na 27ª posição. Os PIBs
mais robustos do país seguem sendo os de São
Paulo e Rio de Janeiro.
Entre
as vinte cidades de porte médio que mais se desenvolveram,
a esmagadora maioria teve um desempenho notável na
indústria. Só duas cresceram mais no setor de
serviços (Florianópolis e Porto Velho, capital
de Rondônia) e nenhuma teve seu melhor desempenho na
área agrícola. No livro Cidades Médias
Brasileiras, produzido por dois pesquisadores e com lançamento
previsto para este mês, explica-se que esse fenômeno
se deve à alta urbanização das cidades
médias de 1970 para cá. Outra razão é
que, em geral, elas funcionam como centros distribuidores
de serviços para municípios vizinhos, os quais,
por sua vez, se dedicam à agropecuária. Em outras
palavras, é como dizer que as cidades médias
estão virando "pequenas capitais" de sua região.
"Elas se tornaram atraentes porque não são tão
pequenas, a ponto de não ter gente para consumir produções
em escala industrial, nem tão grandes, a ponto de ter
custo de vida elevadíssimo", diz Thompson Andrade,
um dos organizadores do livro, vinculado ao Núcleo
de Modelos Espaciais Sistêmicos (Nemesis).
Rivaldo Gomes/D.G.ABC
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| São
Bernardo: caindo seis posições em quase
trinta anos |
O Brasil está urbanizando seu interior num ritmo bastante
acelerado. Hoje, as regiões metropolitanas de São
Paulo e Rio reúnem menos de 20% de toda a população
brasileira. Na Argentina e no México, a concentração
é maior. Nesses dois países, respectivamente,
vivem nas capitais cerca de 30% e 20% das populações
nacionais. No caso brasileiro, já existem 111 pólos
altamente populosos, embora esse espraiamento não seja
comparável à realidade dos Estados Unidos, um
país de tamanho igualmente continental, mas com população
e economia geograficamente mais bem distribuídas. Mesmo
assim, o Brasil vive um processo semelhante ao da França
logo depois da II Guerra. Na época, a França
era conhecida como "Paris e o deserto francês", mas
uma política de desenvolvimento regional mudou isso.
Por aqui, não há política. A chamada
"metropolização" acontece como decorrência
natural do crescimento da economia brasileira. "É um
fenômeno comum em países em desenvolvimento",
diz Rodrigo Valente, o outro organizador do livro Cidades
Médias Brasileiras.
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