Viva
a periferia
Um
estudo do MEC mostra que há
escolas pobres oferecendo ensino
de alta qualidade
Monica
Weinberg, com sucursais
Ana
Araujo

Em
Ceilândia, nos arredores de Brasília: aula
de computador dentro do ônibus |
Antonio
Milena
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Uma
pesquisa inédita encomendada pelo Ministério
da Educação, cujo resultado será anunciado
nos próximos dias, traz uma excelente notícia
para quem estuda em escolas precárias, onde faltam
salas de aula, computadores e às vezes não existe
sequer uma linha telefônica. O estudo mostra que, apesar
das precárias condições materiais, elas
podem oferecer um ensino de alta qualidade e até
superior ao de instituições abastadas em que
nada falta. A pesquisa, feita por técnicos da Fundação
Carlos Chagas, identificou escolas públicas de cinco
Estados com as notas mais elevadas no Saeb, uma prova nacional
aplicada a estudantes do ensino fundamental e médio
em 1999. Em seguida, selecionou, entre as melhores escolas,
aquelas que tinham alunos de baixo nível socioeconômico.
No resultado, dez eram públicas. Todas elas combinam
duas características: estão entre as mais pobres
e também entre as mais bem-sucedidas de seus Estados.
"O
estudo quebra aquela lógica de que a pobreza é
determinante do desempenho na escola", diz Clarilza Prado
de Souza, coordenadora da pesquisa. O mérito das dez
escolhidas está, basicamente, em três aspectos.
Elas adotam práticas pedagógicas adaptadas à
realidade dos alunos, os professores compensam lacunas de
formação com cursos de atualização
e os diretores são bastante presentes. Tudo isso acontece
no Centro de Ensino Fundamental 21, uma escola pública
em Ceilândia, cidade próxima de Brasília
conhecida por seus devastadores índices de violência
são 34 assassinatos para cada grupo de 100.000
habitantes. O muro do estabelecimento é coroado por
uma cerca de arame, mas o que se faz ali dentro levou seus
alunos a ficar entre os mais bem colocados do Distrito Federal.
"Essas escolas são um exemplo alentador diante das
restrições do ensino público", afirma
o ministro da Educação, Paulo Renato Souza.
"A pesquisa mostra que é vital investir em capacitação
de professores e diretores. Mostra também que, quando
há esforço em realizar atividades extraclasse,
a escola melhora."
Paulo Amorim

Os
alunos se preparam para sair: visita a museus e ao planetário
|
Antonio
Milena
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Na
Escola Municipal Profa. Maria Heloísa de Castro, em
Belém, as atividades extraclasse compõem o filé
de seu ensino. Ela tem mais de 1.000
alunos em quatro turnos um deles, apelidado de "turno
da fome", vai das 11 às 15 horas , mas eles recebem
aulas de arte, assistem a palestras sobre drogas e sexualidade,
visitam museus e o planetário da cidade. Com isso,
é possível superar até a lógica
segundo a qual 70% do desempenho escolar da criança
depende da classe social dos pais e apenas 30% ficam
a cargo do ensino. Na Escola Estadual Jornalista Rômulo
Maiorana, em Ananindeua, na região metropolitana de
Belém, a grande maioria dos pais é analfabeta
e sobrevive de bicos. Os filhos, porém, têm contato
com uma realidade que o ambiente familiar não lhes
proporciona: ouvem música, lêem recortes de jornais
e vêem filmes no videocassete. A evasão é
quase inexistente. Quando um dos 2.500
alunos falta dois dias seguidos, os professores batem na porta
da casa da criança e a trazem de volta.
Aula no cinema Nos Estados investigados (além
do Distrito Federal e do Pará, estudou-se o nível
de ensino em Pernambuco, São Paulo e Rio Grande do
Sul), pesquisadoras da Fundação Carlos Chagas
foram enviadas às escolas para entender as razões
do sucesso. Em todas elas, as grandes lacunas no orçamento
são compensadas por uma atuante engrenagem de iniciativas
pontuais. Na escola Professor Motta e Albuquerque, na zona
norte do Recife, não existe telefone, as provas saem
de um velho mimeógrafo, não há refeitório
para merenda e apenas seis funcionários cuidam de 700
alunos, da 5ª à 8ª série. Boa parte
deles, egressos de famílias muito pobres, trabalha
para ajudar os pais. A escola tinha tudo para chafurdar em
notas ruins no exame do Saeb, mas figura entre as mais bem-sucedidas
porque seus alunos são levados com freqüência
ao cinema para ver filmes ligados às matérias,
visitam museus e, como não dispõem de laboratório
de ciências, vão a zoológicos e centros
especializados.
Antonio Milena

Muitos
alunos em sala, mas a diferença está nos
mestres com boa formação |
Antonio
Milena
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O
estudo confirma a tese de que um diretor afinado com sua equipe
e bem informado alavanca o desempenho dos alunos. Outras pesquisas,
inclusive estrangeiras, já haviam iluminado a questão.
Mostram que o resultado melhora quando o diretor possui mais
livros em casa, quando o diretor e o professor permanecem
mais tempo na escola e, por fim, quando o professor tem formação
acadêmica adequada para a série que está
ensinando. Mesmo funcionando como solitários oásis
no meio do cinturão de pobreza, as dez escolas mapeadas
pela Fundação Carlos Chagas têm, variando
na dose, esses fatores a seu favor. Alguns professores estão
cursando faculdade para cobrir a deficiência de formação.
Outros se lançam em cursos de atualização,
dentro ou fora das escolas.
"Com
o mercado competitivo, a imagem do professor bem-intencionado
que dá aula no meio do mato é coisa do passado",
diz a especialista em educação infantil Regina
de Assis. "O ensino nessas escolas só dá certo
porque os professores estão lendo, estudando, visitando
exposições e palestras." A Escola Municipal
Dr. Francisco Manuel Sá Carneiro, da 1ª à
4ª série, fica em Osasco, região metropolitana
de São Paulo. Ali faltam computadores para os alunos,
o muro que cerca o terreno está destruído, a
quadra de esportes está com a pintura gasta e o capim
precisa ser aparado. No meio da falta de recursos, o colégio
conseguiu construir um tripé ambicionado por qualquer
instituição, pública ou privada: diretor
atuante, professores capacitados e pais presentes.
Saiba
mais
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