Vandalismo
dos fanáticos
Milícia
do Taliban decide destruir relíquias
históricas e apagar todo o rico passado
pré-islâmico do Afeganistão
Cristiano
Dias
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AFP

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AP
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| Estátua
no museu de Cabul (à esq.) e o Buda gigante de
Bamiyan (à dir.): a ordem é para destruir tudo |
Desde
que instalaram um regime medieval no Afeganistão, há
cinco anos, os integrantes da milícia do Taliban nome
originário de um movimento de estudantes islâmicos
tomam decisões de arrepiar os cabelos até dos
mais ferrenhos seguidores de Maomé. Na semana passada, Mohamed
Omar, que se autoproclamou emir do Afeganistão e é
o líder da milícia, decidiu que todas as estátuas
do país deveriam ser destruídas. Esse súbito
surto de iconoclastia passaria despercebido se o Afeganistão
não tivesse um acervo riquíssimo de monumentos budistas,
herança do período pré-islâmico, anterior
ao ano 1000, quando a região era centro de peregrinação.
Entre os alvos da maluquice, estão as duas estátuas
gigantes de Buda, em Bamiyan, nos arredores da capital Cabul. Esculpidas
na rocha há mais de 1 500 anos, elas medem 37 e 53 metros
de altura e estão entre as maiores representações
conhecidas de Buda. Omar, que por lá é conhecido como
"mulá" (professor), deu a ordem, e imediatamente soldados
começaram a circular pelo país com caminhões
carregados de explosivos e lança-foguetes à caça
das imagens. As primeiras estátuas destruídas foram
retiradas das 6.000 peças do museu de Cabul. Países
de grande comunidade budista, como o Japão, a Tailândia,
a Índia, e organismos como a Unesco protestaram em vão.
"Estamos apenas destruindo pedras", Omar justificou.
Reuters
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| Embargo
e seca: 1 milhão de afegãos podem morrer de fome |
Desde que se instalou no governo, o Taliban transformou o país
num inferno. Execuções sumárias, amputações
públicas e festivais de chibatadas acontecem em estádios
de futebol lotados. As meninas são obrigadas a parar de estudar
aos 8 anos. As mulheres vivem cobertas por um manto, o burqa, que
esconde até os olhos, e chegam a levar uma surra quando são
apanhadas conversando com estranhos. Já os homens têm
de vestir camisolões e são forçados a usar
barba. O Afeganistão tornou-se o país da proibição.
Televisão, música, fotografia e tudo que desvie a
atenção de Deus é ilegal. Em meio a tantos
absurdos, o Taliban acabou abrigando o saudita Osama bin Laden,
terrorista acusado de planejar os atentados às embaixadas
americanas na Tanzânia e no Quênia, em 1998. Apesar
de pedidos de extradição, ele continua como um convidado
de honra e, por isso, o país enfrenta um embargo internacional
que privou os afegãos de quase toda ajuda humanitária,
essencial numa nação devastada por duas décadas
de guerra civil. Apesar de o Taliban controlar 90% do território,
a comunidade internacional à exceção
de Paquistão, Arábia Saudita e Emirados Árabes
ainda não o reconhece como governo legítimo
do Afeganistão. Enfrentando a pior seca das últimas
três décadas, a agricultura do país está
em frangalhos. Mais de 3 milhões de famintos se espremem
em campos de refugiados nos vizinhos Paquistão e Irã.
Dentro do país, as Nações Unidas estimam que
1 milhão de afegãos estejam à beira de ser
dizimados pela fome.
Há duas semanas, numa tentativa desesperada de agradar aos
governos ocidentais, o Taliban anunciou o extermínio dos
campos de papoula o Afeganistão produz 75% do ópio
mundial que, transformado em heroína, abastece o mercado
europeu e o americano. Acabar com a maior fonte de renda do Estado
parece ter sido um suicídio econômico que faz a destruição
de estátuas parecer muito mais uma tentativa de chamar a
atenção para a penúria do país. Mas
transformar o passado em pó não vai melhorar a imagem
do Taliban e a tendência é isolar ainda mais o Afeganistão.
Rompantes de iconoclastia pontilharam a História. Em seus
primórdios, o cristianismo, por exemplo, fez tudo o que pôde
para acabar com toda arte considerada pagã, inclusive a grega.
Mais recentemente, os espanhóis arrasaram as culturas pré-colombianas
em nome de Deus e, durante a Revolução Francesa, estátuas
da Catedral de Notre-Dame foram decapitadas pelos revolucionários.
O que dá um tom assustador à turma do Taliban é
pulverizar objetos de arte de tamanha importância em pleno
século XXI, acabando com a última riqueza do país:
seu passado.
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